Domingo de Carnaval à noite. Pedida uma definição para obsceno, tipo levantamento de bola em uma jogada ensaiada, o “artilheiro” disparou: Revelação que produz escândalo. Isso é um sofisma, não uma definição para a palavra obsceno.

Obsceno é algo contrário ao pudor, que denota obscenidade, que choca pela falta de decoro, pela vulgaridade, próprio de quem habituado a obscenidades. Nada tem a ver com revelação. É obsceno, por exemplo, agir capciosamente no sentido de induzir os menos preparados em erro. Isso é próprio das fake news.

O sofisma, a malícia, a mentira, a capciosidade compreendem-se nas fake news, que têm os seus arautos e profetas enrustidos. Nenhuma manifestação desse tipo deve ser atirada ao acaso sem a abertura do pacote e a análise séria e honesta do seu conteúdo. O que quer se pretenda classificar de obsceno precisa antes de tudo constituir uma verdade, e a verdade apenas se contém em si mesma, em fato comprovado. Meras alegações vadias, vazias e desonestas não constituem fato, portanto, verdade, portanto obscenidades. Sugiro aos moralistas que instalem em si um package manager, como nos sistemas operacionais; não que imagine estarem ansiosos pela verdade, mas, sem dúvida, a ferramenta evitará que eles passem vergonha com as suas mistificações.

E mais: Prolongar os argumentos não prejudica a causa. Os pontos fulcrais de uma questão crucial devem ser claramente fixados, buscadas sua análise e ampla discussão. O silêncio em hipóteses sensíveis, na linha de raciocínio retro desenvolvida, só beneficia os fakers, embusteiros que de hábito chegam mesmo a tentar intimidar os ofendidos para que não respondam ou promovam a discussão de suas investidas. Quem cala consente! O injuriado, a alegação mentirosa, sem prolixidades, obviamente, devem ser fixados em sua exata dimensão. A menos, é claro, que o alvo visado tenha o “rabo preso”.

O blog, faz algum tempo, publicou um texto sobre os mais renomados filósofos da História, encerrando-o com uma referência a Platão e à verdade, que deve ser em última análise o escopo essencial de toda a atividade intelectiva. Em isso não ocorrendo, não temos atividade intelectiva, mas tão somente pantomimas, que, parece —– ressalvadas a solenidade e a envergadura institucional, as mulheres e homens de elevada estatura moral e ética que se não concedem ao moralismo barato, vulgar e interesseiro —–, dominam, para seu constrangimento, o Brasil destes nossos tempos impudentes.