No Brasil, voltamos à nossa realidade. Dos dois lados do Atlântico Norte, um, no limite de sua capacidade de crescer, patina, o outro encara, afinal, sua realidade adiada, mascarada por séculos de colonialismo.

O desenvolvimento econômico de um país tem facetas diversas, não acontece por decreto e sem a participação dos seus atores principais, o empresariado e a população, e sem que os governos assumam o seu papel de prover o pano de fundo adequado, leis decentemente reguladoras, impostos de boa sanidade e condições físicas e operacionais ajustadas à produção sustentada de bens e serviços.

O mundo empresarial e das finanças perdeu o ilusório charme da capacitação especial de algumas economias. A agiotagem de alto coturno, desumana e obsessiva, está exposta com crua frieza no caso da Grécia, levada à inadimplência pelo apetite de banqueiros que fingem não saberem que o país jamais teve condição de saldar os débitos astronômicos decorrentes dos créditos absurdos que lhe foram concedidos. Não adianta endurecer agora, vão perder, terão de perder parte do que irresponsavelmente e contra todos os critérios técnicos empurraram sobre os gregos. De trinta a cinquenta por cento, talvez no meio, quarenta por cento, irá para as calendas. Perderão, sim, e de nada valerão imprensadas contra a parede. Simplesmente não há saída. São bem capazes de inventar embargos diversos, é a primeira manifestação do autoritarismo colonialista. Que a Grécia e o seu povo resistam.

E o Euro? Vai muito mal, obrigado, com anunciada e possível morte para o próximo período de dois a três anos. A Grécia pode, e deve, deixar a comunidade europeia se não lhe oferecerem alternativas razoáveis. Cerca de 20% do seu PIB vai para os aposentados, 2/3 dele são necessários para a manutenção do statu quo, com agravante: Um grego aposenta-se ao redor dos 55 anos. Cortar tudo, ou diminuir drasticamente o que hoje sustenta o modo de vida grego, é virar o país de cabeça para baixo. Nunca deu certo. Saindo da Zona do Euro a Grécia vai arrastar outros países para o lado escuro da Europa em crise não apenas econômica, mas antes de tudo institucional. A Itália emborcará de vez, a França se fragilizará quase insuportavelmente, a Espanha perderá suas perspectivas e Portugal não conta para nada. Sem o Euro, voltarão as moedas nacionais, que podem, talvez, e por mais estranho que pareça, acabar com toda a esquisitice atual. E quem mais perderá será justamente o país que mais está pressionando os gregos. Weniger, Frau Merkel, weniger!…

E anotem: Com o seu próprio Banco de Desenvolvimento, os Brics estarão a salvo da baderna; é só o começo, mas muita coisa boa poderá vir na esteira de sua criação, a história o dirá. É hora dos brasileiros começarem a deixar de lado as pilhas que lhes estão colocando os oportunistas e raciocinar com clareza sobre o panorama geral. Exemplo:

A Presidente diz que não vai cair, que isso é moleza e luta política, que as pessoas caem quando estão dispostas a cair, e que ela não está, que não tem base para ela cair, acrescentando: Venha tentar

O colunista diz que Dilma saiu da sua soberba para admitir que, para não cair, as pessoas precisam de ajuda, sempre. A tirada mostra que começou a entender o tamanho de sua encrenca e que está disposta a abrir novos caminhos de entendimento.

Eu não entendi direito ou o “venha tentar” diz exatamente o contrário?

A seguir, trechos de artigos postados nas datas indicadas.

Domingo, 09 de Outubro de 2011

Os efeitos e reflexos do colonialismo, por ocupação física/administrativa, econômico e político anularam-se e esmaeceram à medida que as colônias se foram tornando independentes, desenvolvendo suas economias e caminhando para a maturidade política. Décadas, e mesmo séculos, de exploração e drenagem de recursos alimentaram a ilusão da competência gerencial das metrópoles, uma quase-fraude. Escudadas nesta quimera, elas mascararam mazelas fiscais e financiaram o seu alto padrão com empréstimos, cuja cristalização em dívidas demasiado pesadas no cotejo com o seu PIB e com o seu custo era apenas questão de tempo. Demorou, mas a realidade bateu à porta das metrópoles; já não existem colônias donde extrair recursos para cobrir os seus déficits.

Doze bancos ingleses – numa economia considerada imune às tsunamis financeiras europeias – despencaram de seus conceitos, nove bancos portugueses, ainda ilusoriamente ranqueados, foram aproximados de sua real expressão; aí estão Grécia e parte do Reino Unido, com Espanha e Itália trilhando caminhos escorregadios e perigosos. No ínterim, os americanos cansaram-se de Wall Street, os protestos dispararam USA afora; estão esgotados, não querem mais pagar a conta. Esperemos que o movimento desborde para a Europa.

Quarta-feira, 04 de Janeiro de 2012

Lembrei-me de James numa reflexão abrangente sobre o caos econômico/financeiro no qual está mergulhada a Europa, perguntando-me, a reboque de tema discursivo do filósofo, se a União Europeia e os países do Pacto do Euro estão preparados para ingressar numa eclética classe de filosofia que implique acima de tudo em um contrato, aquele pacto em que, na melhor acepção da teoria dos contratos, as partes abrem mão do seu poder de decisão, apenas podendo agir de modo diferente do estabelecido nas cláusulas do documento se contarem com a aquiescência de todas as outras.

Rememorando post em que mencionei a tendência criativa de certas manifestações da teoria econômica e fazendo a leitura do status da União Europeia, obediente, até com lógica, ao seu absolutismo conceitual, perguntei-me se criar regras para adaptar a realidade à sua visão de mundo, ignorando os fenômenos econômicos instalados, tem chances de funcionar.

É quase impossível imaginar Alemanha e Grécia vivendo sob um mesmo regramento cambial – ou carente dele – quando se consideram os antecedentes e os desdobramentos – implicações – econômicos/financeiros/administrativos; de igual modo, como colocar num mesmo cesto França e Portugal, ou mesmo Itália e Espanha? A Itália, há bastante tempo – 10 anos? –, devia 110% do seu PIB, hoje deve 120%. Ninguém paga uma dívida como essa pelos modos correntes e chega o momento em que até rolá-la fica difícil; os investidores preferem comprar títulos Americanos com juros negativos do que investir em Grécia et caterva no estado em que se encontram. Mesmo quando investem, os juros, nas circunstâncias atuais, são quase extorsivos. Alemanha e França estão sendo levados de roldão nessa caudal; a Inglaterra é espectadora, nem tão isenta de consequências assim. O país tem estudantes prostituindo-se para pagar os estudos, um efeito colateral muito sem graça, embora não tenham necessariamente de seguir esse caminho. É pragmatismo demais.

Sábado, 28 de Janeiro de 2012

Este blog não tem bola de cristal; não precisou de uma para bater na tecla de que a Europa navegava na rota do caos, no qual acabou mergulhada, do modo mesmo que não se necessita de uma para antever o caos social em que o mundo mergulhará se todas e quaisquer Sociedades não se abstiverem de gastos para cujo atendimento não contarem com recursos, ou não revelarem disposição de se endividarem apenas no limite de sua capacidade de pagar o que tomarem emprestado. Comecem optando por uma vida mais austera, trabalhando um pouco mais e poupando intensivamente. É necessário produzir mais e mais riquezas e poupar, poupar, poupar; as populações não cessarão de crescer. Pode até não resolver a longuíssimo prazo, mas não há outro caminho. Ou há, sim: a Reserva de Aldous Huxley no seu Brave New World para os desassistidos. Um inconveniente, porém: modernamente boa parte dos desassistidos de todos os matizes tomaram por hábito rebelar-se contra os seus opressores, não apenas os que os oprimem diretamente, mas também contra aqueles que os exploram. Chegaram à conclusão de que morrer lutando por liberdade e por uma vida decente é preferível a morrer lentamente de fome, doenças ou sob o taco das botas oficiais quando estas já não lhes conseguem calar a vozes de protesto.

Quarta-feira, 28 de Março de 2012

Temos no DNA a marca do colonizador: viver às expensas da colônia.

Já se abordou aqui questões essenciais para o estabelecimento do país como candidato ao desenvolvimento sustentado, duas vertentes bem definidas: a Administração Pública e o empresariado.

Não chegaremos a lugar nenhum com a escassez de mão de obra qualificada, estradas, portos, energia, carga trabalhista e fiscal que estão aí, assim como a muito pouco além do que temos poderemos aspirar se os nossos homens de negócios não implementarem as políticas empresariais necessárias à ultrapassagem dos termos médios alcançados pela nossa economia.

Está mais do que na hora dos empresários afeitos à prática aposentarem o pires historicamente estendido para recolher as benesses circunstanciais concedidas pela Administração para facilitar-lhes a vida, de seguir o exemplo da indústria do calçado que, em última análise, por questão pura de sobrevivência, partiu para a modernização do seus equipamentos, para a racionalização dos meios de produção, para a adoção de modernos princípios administrativos, para a redução dos custos e melhoria de qualidade que lhe estão devolvendo a competitividade.

Corremos o sério risco de estacionar no patamar em que estamos pela absoluta falta de capacidade de crescer solidamente, com fundamentos próprios. Se e quando os dois lados do Atlântico Norte voltarem ao seu patamar econômico habitual, deixaremos de ser os queridinhos da vez porque todo esse frenesi apenas se manifesta por absoluta falta de alternativa para os grandes capitais internacionais. Pode ser muito dura a volta à nossa realidade. Já vimos esse filme antes.

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