Este fim de semana me bateu uma preguiça danada. E o desejo de amenidades. Não tenho quem leia criticamente os meus textos e tenho o péssimo hábito de escrevê-los e publicá-los no mesmo impulso. De vez em quando, revendo-os, já publicados, um ou outro senão, obrigo-me a erratas com pedido de desculpas tipo, como diz a Ghigia, penitencio-me. Por sinal, estava com saudades dela, mas hoje teve caldeirada por aqui, com aperitivo e acompanhamento ligeiro de uma cachaça do outro mundo; ela veio, aliviou um pouco o vazio deixado sempre que se vai.

Com a minha preguiça de escrever “ligado”, ou tendo de rever o que escrevesse, antecipei alergias, senti-me encaroçado. Não quero fazer isso, quero apenas estar; cansado de tanta coisa feia à volta, no hoje cinzento e chuvoso quero belezas e delicadezas. Sou tranquilo, quero vivenciar minha tranquilidade. Ontem fui ao Mercado São Pedro, valeu também como passeio. O ambiente, os peixes, me fizeram lembrar a colônia de pesca, a Praia do Suá, e lá se vão anos sem conta. Como praia do mar, acabou faz tempo, ficaram as lembranças, bem vivas ainda, nunca me deixaram, certamente não se apagarão. Foi um tempo bonito, “minha praínha”, a ilhota, o quebra-mar, para lá do promontório à esquerda o mar alto, ali, a 500 metros, a boca-da-barra. Não é saudade, acaricio-me com essas recordações.

A minha colunista dos sábados encantou-me mais uma vez; ontem fez da bigamia um glamour. Está mais do que certa; vida sem um mínimo de glamour é como vida vivida sem um mínimo de delicadeza, um tanto, digamos – é minha homenagem ao seu texto, logo no início -, primitiva. Depois Aznavour e Que C’est Triste Venise. A cada vez que a ouço me sensibilizo. Sempre vi em Aznavour um jeitão triste, como soam algumas de suas canções e o modo como as interpreta. Que C’est Triste Venise me aquece o coração e me transmite sua melancolia pelo tempo dos amores mortos, quando não mais se ama, quando se procura a mão que já não se tem, ao tentar esquecer o que não se disse, um adeus aos sonhos perdidos. Ela diz isso.

O tempo também está melancólico, mas gostoso, teve aipim cozido com pouco sal, quente, “temperado” com manteiga e acompanhado de café preto, forte, dessas pequenas coisas, simples, prazerosas, breves, não pequenas, porções de felicidade, como a que nos traz Ghigia, réstia de luz projetada por Deus em nossas vidas, que não sabemos como poderiam ser vividas se ela não existisse, se não a tivéssemos. Deus te abençoe, Francisquinha.


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