Em O Globo de hoje, domingo, 19, Primeiro Caderno, páginas 14 e 15, Dorrit Harazim e Luis Fernando Veríssimo convergem preocupações.

A senhora Harazim, ao abordar o documentário A Noite Cairá/Memory Of The Camps, sobre o momento em que, ocupando os campos de concentração e extermínio nazistas, as Forças Aliadas filmaram, como as encontraram, as evidências macabras do que acontecia naqueles lugares malditos, resumiu, intencionalmente ou não, sua crônica ao reproduzir trecho do depoimento de um dos sobreviventes: “Se o mundo não aprender o que ensinam essas imagens, a noite cairá.”

Veríssimo, no seu melhor estilo, toma por paradigmas ditos da verve popular escritos em para-choques de caminhão, utilizando o seu preferido – se me virem abraçado com mulher feia, podem apartar que é briga – para ilustrar suas preocupações institucionais. Referindo membro do Congresso Nacional, de extrema-direita, e observando saber bem que mulher feia não quer do seu lado, resume seu pensamento na constatação de estarmos vivendo um preâmbulo de golpe de causas misturadas em oportunismo político e moralismo exacerbado. Sua síntese: “No futuro cada um terá de dizer se estava dançando ou brigando com a mulher feia.”

Você, que é mais velho, não aprendeu com o que viveu? Você, que é jovem, não aprendeu com as imagens internas, ainda bem nítidas na lembrança de quem viveu tempos de exceção?

Vocês, os mais velhos e os mais novos, que se estão deixando seduzir pela mulher feia, aceitarão o seu convite para dançar?

Você tem certeza de não estar sendo manipulado por oportunistas, gente que nunca soube o que é trabalho de verdade e sempre viveu de cargos, à sombra de QI?

Você quer viver numa república de bananas? Você curte ilegalidades, truculência e todo o cortejo de arrogâncias e intimidações que acompanha a administração de força, desprezando, desdenhosamente, o que chama de “legalismos”, na verdade as garantias e direitos individuais assegurados pela Constituição, pela democracia?

Você acha que democracia, boa-fé e a estrita observância da lei é coisa de otário?

Você acha que em um regime de força poderia estar reclamando como reclama agora e acha, mais, que em um regime de força não haverá motivos para reclamar?

Sei não, sei não!… Não é que num regime de força não haverá do que reclamar; simplesmente, num regime de força, você não poderá reclamar. Poderá, sim, sob pena de grave risco. Ou risco total.

Faça o seu jogo, e bom baile. E explique, se puder.

A perfeição do poder pela força é uma utopia. Transcrevo a Sra. Harazim – final do seu artigo – na citação que fez de François Maspéro:

(…). Faço uma diferença enorme entre sonho e utopia. Utopias sempre desembocam em exemplos negativos. Qualquer que sejam sua natureza e origem, elas acabam em catástrofe. (…) 

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