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GOD IS NOT A DELUSION – (18)_Continuação
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Levanto-me, corro a cortina, abro a janela como de hábito. Uma brisa fria, estranha aos anormais dias quentes deste fim de Outono sopra, vinda lá de longe por sobre os edifícios. A princípio reconfortante, incomoda-me depois, quando perscruto o tempo, o céu carregado, e me fixo na garoa insistente que muda a paisagem, prometendo continuar. Madame de Staël e o norte europeu, personalidades moldadas pelo clima frio e pelas cores cinzentas da natureza triste, permanente convite à introspecção. Corro o vidro pelos trilhos, deixando somente uma fresta entre a janela e a parede. Respingos. Frios. Acomodo-me na cadeira ao lado da cama, mantendo à vista a encosta arborizada e sombria; relaxo, deixo-me levar pelos pensamentos.

“Quem” são as gentes ou o “que” são elas? Pergunto pelas gentes de verdade, não pelo bípede implume de Aristóteles ou pelo mamífero vertical. Por quê não consigo ver, próximo, o homem-irmão ao invés do ser humano, como disse don Miguel de Unamuno, objeto de não poucas divagações mais ou menos científicas? Se ele existe? Existe, claro, apenas não sei onde está, razão de perguntar. Há 2 semanas um pobre homem, vendedor de doces, após assaltado sem resistir, na esperança provável de o deixarem ir em paz, foi trancado em sua Kombi e queimado vivo junto com ela; os humanos já não matam pelo prazer de matar, passaram a fazer isso com requintes de crueldade e sadismo. Um político brasileiro, na televisão, mais ou menos nos mesmos dias, louvou a direita e postulou que ela pode não ser a solução, mas é uma esperança. Esperança de que? Jean-Marie Le Pen, líder da direita francesa, na última semana, disse que o ebola pode ser a solução para a questão da imigração na Europa, especialmente na França. Prefiro Sarkozy, até mesmo Hollande.

Não vou seguir citando exemplos para fundamentar a minha pergunta, pois não quero manchar de sangue ou conspurcar com excrementos esta minha página; leia os jornais, assista aos noticiários da Televisão, olhe à volta, o egoísmo brutal, a indiferença deletéria, a crescente falta de sensibilidade, a hipocrisia, o conluio.

Onde foi parar a Emergência do Hospital Antônio Pedro, em Niterói, que salvou tantas vidas, iniciou a reconstrução de tantos corpos, evitou tanta orfandade, tanta viuvez, tantas lágrimas de pais, irmãos e amigos? Os interesses corporativos refletidos nos lobbies da saúde? Isso eu não sei, mas e as vidas, pernas, braços, esperanças e direito a uma vida saudável na plenitude física sem as dores do desinteresse, do descaso chegando às raias do desprezo pelas gentes que pagam, e não pagam pouco, para isso? Como pode, em um país como o Brasil, uma região de 500.000 habitantes não contar com um serviço público hospitalar de emergência? Ninguém pergunta por ela, ninguém cobra a sua volta? Um reitor resolveu fecha-la e pronto? Danem-se todos, os mais carentes especialmente, os que não podem pagar um Plano de Saúde encabeçando o cordão dos desvalidos sociais, porque de recursos, numa sociedade arrogante, exibicionista, materialista e egoísta? É curioso ver nas redes sociais as reclamações sobre políticos federais – O município, o Estado não os têm? -, protagonistas de chicanas eleitoreiras e artífices de promessas impossíveis e distantes, abissalmente distantes do factível por exigirem seriedade, tão escassa. Não é questão de competência. E o que está acontecendo por aqui, ninguém diz nada? O fechamento da Emergência do Antônio Pedro é sinistro, chega a ser tenebroso.

O que fizeram do homem? O que fez o homem de si mesmo? Ou ele foi sempre assim, modo de ser, sua forma construtiva? Onde estão as gentes, pergunto pelas gentes de verdade. Não busco as exceções, busco a regra, porque não se vive das exceções.

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