Você era bonita. E forte. Lembro de poucas pessoas, nenhuma, a mudar a vida com tanta certeza como a certeza do seu querer, com tanto trabalho. Elegante, criou beleza. Comovia-se com uma palavra gentil, um gesto, o mais simples, que lhe negaram nos tempos finais. Estive lá todo o tempo, mas, esgotado, não lhe pude dar-me no momento fatal, quando merecíamos estar juntos. Certa vez, perplexo, sentindo sua vida escoando-se lenta, estiolando-se, deitei-me a seu lado, a cabeça em seu ombro, você moveu-se, o corpo frágil, quase nada; os braços descarnados, sem força, abraçaram-me um abraço de consolo, de conforto, de proteção, apesar de tudo, a entrega total, a derradeira renúncia de si mesma.

Neste seu dia, manhã bem cedo, ainda na cama, o quarto em penumbra, muitas lembranças, nossas longas conversas, a paz e a força que você me transmitia, as lições de vida, os exemplos. Só agora a ficha caiu realmente. Pela primeira vez nesses 14 anos de sua partida eu chorei, chorei baixinho e sofrido a dor imensa da sua ausência.

Que saudade, Mãe!

Divisor66