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Deus, um Delírio/The God Delusion, de Richard Dawkins, causou-me espécie. Estou escrevendo sobre o livro, como sabem os senhores. Se pretendem fazer com o texto a mesma coisa feita com o texto não publicado de ‘A Conspiração dos Medíocres’, mexam-se; o texto integral de ‘God is not a Delusion’ será publicado até dia 15 de Fevereiro próximo, inadiavelmente.

Quem te disse, cara pálida – e com que autoridade – ser tua visão de mundo, aquilo em que crês, ou não crês, o limite para as coisas deste nosso vasto planeta e do trato dos segredos universais, muitos deles – e nem podemos imaginar o quanto numerosos podem ser –velados, inimagináveis por nós, meros seres humanos? — O Autor

Who told you, paleface – and with what authority – that your vision of the world, your beliefs or disbeliefs, are the limits to everything in this vast planet and the universal secrets, many of which – and we can’t even imagine how many they are – unimaginable for us, mere human beings…?

Não percebem os luminares, antes de tudo profetas do caos, que, ao direito de não crer corresponde o direito de crer, devidamente capitulado? Não faz muito, transcrevi aqui no blog texto de Cacá Diegues no qual, com o mais absoluto acerto, escreveu: se num discurso não houver um mínimo de possibilidade de o outro estar certo, esse discurso será sempre autoritário, excludente e impositivo, não serve para nada. (Post de quinta-feira, 7 de julho de 2011 , UM ALERTA) – onairnunesblog.com (Post de 7 de maio de 2012)

Eu não havia lido nada de Richard Dawkins até pouco mais de 2 meses atrás, quando ganhei de presente um exemplar de ‘Deus, Um Delírio’ (Dawkins, Companhia das Letras/Editora Schwarcz, São Paulo, Tradução de Fernanda Ravagnani, 15ª reimpressão). O livro não me impactou; Deus, as religiões e correlatos há muito constituem para mim objeto de estudo, não Deus propriamente dito porque nunca fui de perder tempo com rótulos nos quais pessoas em todas as latitudes e longitudes aplicam designações comuns para os seus medos, ambições, ódios, projetos de poder, maldades e/ou conveniências as mais diversas. Há até gente bem intencionada, de boa índole, que, honestamente, acredita nos deuses em geral e de algum modo imposto, do subreptício ao ostensivo. É por essa gente que escrevo, na linha do mestre que de certa forma transformou-se em marco na prática processual no Brasil; faz algum tempo, em entrevista ao Jornal do seu Órgão de classe, ele disse: Escrever só se justifica quando é para ajudar as pessoas.

Certas coisas no livro do sr. Dawkins chamaram-me a atenção, algumas de modo especial. Comprei o título no original (Dawkins, The God Delusion, Black Swan/Transworld Publishers/Randon House, Londres, 2007). Provavelmente, a excelente tradutora da obra para o português teve dificuldades para dar sentido, ou pelo menos tentar fazê-lo, a partes do texto, contraditório, impreciso do ponto de vista histórico e generoso em palavras soltas, estranhas ao contexto em que, assim me pareceu, graciosamente introduzidas. Além disso, o livro do sr. Richard Dawkins, na direção mesma do sectarismo que supostamente combate, é um monumento à intolerância. Com integral respeito ao copyright e aos direitos da Editora Schwarcz S.A., e na ausência de qualquer advertência quanto à citação de trechos curtos da obra, transcrevo:

“Essa ambição de obter o que só pode ser classificado como um Estado Fascista cristão é bem típica do Talibã americano. É quase uma reprodução perfeita do Estado Fascista Islâmico, buscado tão ardentemente por tanta gente em outras partes do mundo. Randall Terry não tem poder político – ainda. Mas nenhum observador do cenário político americano no momento em que escrevo (2006) pode se dar ao luxo de ser otimista.”

(15ª reimpressão brasileira de Schwarcz, pp. 375 ao fim/376 ao início — Black Swan, 2007, pp. 330 ao fim/331 ao início)

Dawkins escreveu o seu livro em 2006; o sublinhado é meu. Seu copyright é de 2006, conforme a apresentação de Schwarcz e Black Swan.

Em 1997 eu escrevi sobre o drama do jovem casal francês de Marie-Anne e Jean-Filippe no calor dos  lances iniciais da Revolução Francesa; terminada a história, escrevi 4 canções-tema para os 3 personagens centrais, o casal e o pai da heroína. Reproduzo abaixo o recibo de registro e o certificado de propriedade de Nane – Uma Canção de Amor para Marie-Anne. São de 1999.

recibo registro musicas

certificado nane

Terminado O REENCONTRO, deixei-o um pouco na gaveta, ocorrendo-me em seguida reuní-lo com uma outra história — UM ELO PERDIDO —, por mim escrita na mesma época, e anotações anteriores revistas para compor um livro. Em 2004, quando me mudei para o meu atual endereço, ‘A CONSPIRAÇÃO DOS MEDÍOCRES’ já estava prática e documentadamente pronto; nos meses seguintes eu apenas elaborei melhor os temas que o compõem. Conto em meu blog (onairnunesblog.com, posts de 30 de Dezembro de 2010 e seguintes) como isso se desenvolveu, ali registrando, também, fatos inusitados que marcaram esse trabalho. Tais circunstâncias acabaram gerando o Livro/Capítulo IX — APÊNDICE, preparado a pedido, para integrar o livro. Nada, ali, é ficção.

Habituamo-nos ao termo radicalismo empregado com frequência maior na classificação de estreitezas políticas e religiosas que embalam a intolerância de pessoas incapazes de conviver com ideias e princípios diferentes dos seus. Sectarismo tem emprego restrito; deriva do latim secta, seita, expressão naturalmente associada à ideia religiosa. Seita e religião, em essência a mesma coisa, diferenciam-se pela ordenação sistemática das crenças da segunda, fazendo-as, por convenção, ortodoxas, e pela informalidade da primeira, discriminada por razões políticas, questão de projeção, prestígio e domínio gerando contra ela o preconceito de abrangerem práticas maldosamente ditas pagãs.

Fundamentalismo restou quase exclusivamente para tachar os radicais religiosos do Oriente Médio. Aplico o termo fundamentalista para designar ultrarradicais de qualquer facção, especialidade, profissão ou prática, especialmente cientistas intolerantes. Um breve pitstop, e a mais superficial análise revelará que cientistas e religiosos lidam por ofício com a mesma matéria prima, o imponderável. Os primeiros concretizam suas visões fantásticas e suas lucubrações nas fórmulas e teorias que partem do indefinível para o concreto, os segundos realizam sua vocação de riqueza e poder em igrejas por trás das quais está a crédula fé da aceitação sem exame de fórmulas fantásticas sem qualquer ponto de contato com o mínimo racional ou, que o seja, as mais ponderadas transcendências.

Surpreende-me o fato de pessoas cultas e inteligentes despenderem tempo e esforço tentando provar a existência ou a não existência de Deus; não é questão de valer ou não a pena. Deus, tal como geralmente entendido, é matéria subjetiva, e subjetivismos são subjetivismos, questão de natureza íntima e personalíssima. Tentar construir ou desconstruir algo nessa seara é o cúmulo da invasão de privacidade, rotundo desrespeito, não à fé, mas ao, já que estamos falando dessas coisas, sagrado direito de escolha de cada um, coisa para desocupados sem a menor noção do que realmente significa, é, um ser humano. A discussão é acaciana. Há um conceito de prova geralmente aceito em cujos termos, num sentido ou noutro, ninguém provará nada. Tudo o que a isso se refira é uma grande bobagem.

Abstraídas as digressões paralelas do sr. Dawkins, a linha de argumentação ― se assim podemos chamar sua dialética ― de Deus, Um Delírio/The God Delusion tem muito daquilo que na técnica processual configura a Contestação, embora a natureza de ensaio. Colhem-se, esparsos no livro, trechos à primeira vista algo ‘soltos’ relativamente à argumentação em desenvolvimento, espécie de tema sobre o qual se produzem variações sem referência direta à sua fonte, àquilo a que se voltam. E em que pese a autoproclamação, não se encontra ao longo da obra uma página sequer de matéria verdadeiramente científica. Tudo se resume a pontos de vista, opiniões pessoais declinadas como verdades, às vezes com desconcertante autossuficiência, não raro com alguma soberba. Deus é um alvo permanente tratado com extrema aspereza, como se fosse alguém, um ente fisicamente expresso que em momentos diversos pode estar ali na esquina em sua faina permanente de atormentar a pobre gente vítima de sua má influência, uma ‘doença’ ― esta, infere-se, é a opinião do sr. Dawkins ― cuja cura, tem-se a impressão, o autor julga haver descoberto. Isso é, juntamente com a ‘Contestação’ do sr. Dawkins, o que transparece do livro.

O que são, genuinamente, os cientistas? Como podem ser ordinariamente reconhecidos e quais são as características que definem uma obra como científica, aquela na qual se sente o ‘dedo’ de um deles, considerando o óbvio de que cientistas geralmente produzem obras científicas? Cientistas não costumam se entregar a diletantismos. O moço graduado em Ciências Contábeis é um cientista contábil? O formando em advocacia, havendo cursado Ciências Jurídicas, é um cientista jurídico? Pelo simples fato de se haver graduado em medicina, ter cursado Ciências Médicas, pode o médico de modo geral ser considerado um cientista? Einstein, generosamente mencionado em Deus, Um Delírio/The God Delusion, escreveu em ‘Como Vejo o Mundo’ voltar-se (haver-se voltado) somente para aqueles cujo espírito se revela (haja se revelado) verdadeiramente científico. Pasteur referiu-se àqueles que se querem de espírito científico, realmente, para ele, os únicos que contam, sem dissociar o propósito de se quererem de espírito científico das atitudes de fato científicas.

Por que meios atuam os cientistas? Sem esgotar o modelo, nós, as pessoas comuns, habituamo-nos a pensar nos cientistas como aqueles pesquisadores e estudiosos que despendem ou despenderam suas vidas longe dos refletores, no silêncio e solidão dos laboratórios e no recolhimento de suas mesas de trabalho entre equações, cálculos e teoremas formulados à base de princípios científicos gerais e/ou matemáticos puros, testados, aceitos e complementados ao longo de décadas por reais homens de ciência que nunca negaram as raízes a partir das quais desenvolveram suas próprias teorias e jamais tentaram desmerecer aqueles que conceitualmente os antecederam.

Nada contra os autointitulados cientistas se eles se comportarem como tal; o termo cientista, como a palavra gênio, tem sido lamentavelmente banalizada. Buscando um exemplo entre os conhecidos do grande público através de obras essencialmente científicas ― ainda que escritas em linguagem acessível ao leitor médio ―, discreto, educado e circulando apenas em seu restrito meio profissional, penso como cientista, dispensadas as apresentações, em Stephen William Hawking, doutor em Cosmologia por Cambridge. E, curiosamente, mesmo sua ‘Uma breve História do Tempo’, mundialmente aclamada, escrita para não-cientistas de forma clara e perfeitamente inteligível, não escapou à verve do sr. Dawkins, um sonoro equívoco, pode-se dizer, quanto à expressão teremos penetrado a mente de Deus. O sr. Hawking é, provavelmente, um homem muito ocupado, sem tempo paras as banais e estéreis discussões sobre o sentimento de religiosidade de cada um, resultando, portanto, rigorosamente alheio aos que se aproveitam do que escreve para alimentar ou se envolver com a ficção do Deus das Igrejas, sua existência ou não. Stephen William Hawking é um cientista.

(segue – os próximos posts trarão trechos menores)