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Sentados à mesa para dois, conversavam, descontraídos, mas educadamente, falavam baixo, quase nenhum gesto. O homem mais moço, cerca de 50 anos, um pouco menos, talvez, escutava a resposta a uma sua pergunta, o leve sorriso, o olhar, puro carinho, estampados no rosto sereno, de expressão firme, contudo; transmitia força. O mais velho, que já não aniversariava, tantos os anos vividos, terá sido na juventude e na meia-idade um homem bonito; guardava, ainda, discreta elegância, a postura de quem sabe o que e quem era, a classe de homem que jamais pediu licença para viver. Braço esquerdo dobrado em ‘v’ para a frente, ligeiramente afastado do corpo, abriu a mão de dedos juntos, meio em concha, um claro convite; segurou o copo de haste alta e delgada com a mão direita, o vinho tinto certamente bem escolhido para acompanhar a salada bem posta no prato. O mais moço ergueu o seu copo num gesto seguro e discreto, o mais velho fez o mesmo, com elegância; a mão tremia, tremeu ao aproximar o copo para o brinde, não conseguiu firma-lo. Cristal fino, estilhaçado sobre a mesa, o vinho espalhou-se farto na alva toalha, contrastando-a vivamente. Um garçon apressou-se, expedito, o mais moço o conteve à distância com um gesto enérgico. Tudo aconteceu num átimo, como em fração de segundo. O mais velho levantou a cabeça, uma lágrima a rolar-lhe rosto abaixo.

Desculpe-me, os anos passaram, já não me posso permitir, sem risco, um singelo brinde a quem mais amo.

Não se preocupe, neste breve instante passou-me pela cabeça boa parte da minha infância, adolescência, nossas idas ao futebol, as caminhadas, juntos, na areia fina e fofa da praia para corrigir o arco dos meus pés, a mesma praia onde, alguns anos depois, eu jogava bola sem saber que você, à distância, olhava por mim, a educação que recebi, a boa-fé, os exemplos, a sua confiança irrestrita. Você foi o meu herói, hoje é o meu velho, um é prolongamento do outro.

O mais moço chamou o mesmo garçon a quem parara, pagou a conta, o copo quebrado, deu-lhe polpuda gorjeta e pediu-lhe para cuidar de tudo. Saíram. Nenhum gesto de pena, nenhum lamento. Respeito. A proximidade vigilante.

O manobrista trouxe-lhes o carro, entraram. O mais moço inclinou-se para o lado direito e beijou o velho homem:

Eu o amo, papai.

Obrigado por lembrar-se desta data, pelo seu carinho. Conforta. Sou reconhecido à vida por me haver escolhido veículo de sua chegada a esta existência. Agradeço-lhe o privilégio de ser seu pai.

Fisionomia serena, olhava, cabeça erguida, para a frente.

Partiram.

Divisor66

Gozei férias pela última vez, faz algum tempo, em Nova Iorque com o meu filho; como qualquer pessoa, estou precisando de novas férias. A ideia era passar o dia dos pais com ele na Alsácia, durante as suas férias. Eu chegaria depois dele, de surpresa, comeríamos um baeckeoffe, prato de carne, pesado, mas delicioso, acompanhado por um Pinot Noir Tinto (o Noir pode ser também rosê), ou degustaríamos um Pinot Blanc num restaurante de queijos. Ontem ele estava em Obernai, a pouco mais de 30 quilômetros de Estrasburgo, coisa de 25/30 minutos de carro entre uma cidade e outra a velocidade moderada. Em seguida eu iria em frente, completar os meus próprios 15 dias de férias em Estrasburgo e arredores.

Compromissos profissionais me retiveram em Niterói. Impõe colocar nas mãos de um cliente o produto de uma ação na qual trabalhei por 24 anos; o depósito está feito desde o dia 6 (seis) deste Agosto, pronto para levantamento, mas, contrariando a rotina de anos, ele não atende o telefone, nem me telefona, apesar de várias vezes eu haver tentado falar com ele nos últimos dias depois de informa-lo por telefone, no dia 7 (sete), do depósito. Aguardo, ainda, decisão em requerimento sobre matéria rigorosamente idêntica envolvendo outra ação na qual, como essa aí em cima, trabalhei pelos mesmos 24 anos. Em ambos os casos minha Procuração é ad  judicia, sem poderes especiais, prática que sempre observei. Nunca pus as mãos em dinheiro de clientes antes deles.

Férias só depois de cumpridos os compromissos, como, de direito, devem os compromissos ser cumpridos por todas as partes. Assim, provavelmente, não viajarei mais neste mês de Agosto. Meu filho estará de volta em 2 semanas.