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A insegurança é total porque o mundo, tal como desenhado, esgotou-se pelo esgotamento dos seus dois tradicionais maiores polos econômicos, um de cada lado do Atlântico norte, mundo este que já não é seguro por se haver tornado potencial gerador de consequências negativas imprevisíveis. Duas filosofias tidas por mutuamente excludentes não terão muitas alternativas de sobrevivência nos moldes em que foram concebidas; restarão antagonizadas, ainda assim, no concerto das relações internacionais, se não provocarem dependências formais e explícitas. Populações capitalistas e socialistas esperam por respostas que muito dificilmente poderão ser dadas nos termos habituais, salvo no exercício de uma parceria que subordine as populações gerais, inevitavelmente estabelecendo uma nova ordem mundial e conduzindo naturalmente, talvez a médio, seguramente a longo prazo, à consolidação política do poder econômico, realização do enunciado de Carl Oglesby, falecido em 2011: Poder econômico é poder político e poder político é poder total. Fala-se, aqui, da união de forças produtivas que, juntas, geram mais de 50% do PIB do planeta.

Caminhamos para a lei da selva econômica? Já não estamos respirando uma atmosfera em que o conceito de segurança terá desbordado da só prevenção de ataques para ingressar de forma definitiva no controle dos avanços tecnológicos dos povos e, senão das consciências, no controle das ações e palavras dos cidadãos em geral?

A Economia líder está esgotada; operando historicamente no limite, haveria de chegar o momento em que a manutenção do padrão, ao lado da expansão demográfica inercial e do teto estabelecido pela equação capital x meios/fins de produção x mercados, sofreria impactos paralisantes, criaria um nó apenas desatável com a adoção de métodos heterodoxos cuja natureza impositiva não levaria em conta senão o fim proposto, descartando quaisquer outras considerações. Os agentes de tais potenciais mudanças de longo tempo percebem-nas com crescente preocupação, preparando-se por todos os meios e modos para conter ou responder quaisquer reações com a força necessária, ou mesmo excessiva, como demonstração de poder e para desencorajar novas ‘insubordinações’, conforme as circunstâncias. Madame está convidada, uma comissão a ser formada a antecipará; ouvirão as melhores explicações possíveis, propostas, quem sabe?, mas quaisquer práticas em curso não se modificarão, é questão de sobrevivência, de observar o compromisso auto-imposto, política de Estado à qual líderes de momento não se poderão furtar sejam quais forem suas convicções pessoais. O recentíssimo pedido de concordata e o estado entrópico do ente coletivo é um alerta vermelho, algo definitivamente não desprezível a demandar urgências.

Com a Europa não é diferente – ver posts de 13, 17 e 21 de Agosto de 2011, 4 e 28 de Janeiro de 2012, entre outros. A União Europeia simplesmente não tem alternativas. Para fixar um ponto: Até Sarkozy a França resistiu embalada pelo sentimento nacional emerso dos excessos, mas também do completo desmanche do absolutismo pela Revolução. O ‘sim, eu posso’, articulado por primeiro em bom Francês a partir do individualismo consagrado na Sociedade livre que se seguiu a 1789, independente, inegociável, orgulhoso – sem soberbia – de sua cultura e tradições, foi afastado pela tímida ou meramente formal reação de Hollande, eventualmente explicável por duas alternativas possíveis: (1) Sabia o que estava acontecendo, mas não se sentiu em posição de reagir adequadamente, do ponto de vista da tradição libertária da França ; (2) Mesmo sabendo o que estava acontecendo, não o animou uma reação forte. Tornou-se dependente. Também – ou talvez – por questão de sobrevivência. Nem sempre as razões do estômago são discutíveis.

Fechando as proposições alinhadas, a questão mais urgente e próxima é a unidade política da União Europeia e a estabilidade ou sobrevivência do Euro, uma só e mesma coisa, considerando haver o segundo sido ideado como fator catalisador da primeira; além disso, o próximo movimento nesse tabuleiro de xadrez – o mercado comum USA/União Europeia – é bem mais perverso do que qualquer divergência quanto ao Euro se nos permitirmos imaginar haver a União Europeia sido concebida para ombrear-se à grande potência emersa da segunda guerra mundial. USA, eles próprios, provavelmente se inclinarão por acordos em separado, mesmo dentro da estrutura do mercado comum, com países-membros, esfacelando de vez a UE. Não é malícia, é, também neste caso, questão de sobrevivência; se não abrirem novos mercados com grande capacidade de absorção dos seus produtos, sua economia, reitera-se, esgotada nos limites atuais, não terá qualquer chance. Se abrirem, e estes mercados forem europeus, a economia da UE será simplesmente engolida pela economia americana. Os economistas clássicos possivelmente verão nos acordos em separado a oportunidade de estabelecer linha direta com o grande parceiro do outro lado do Atlântico. É esperar para ver. Tendo em mente a Política de Portas Abertas, na raiz das ações americanas desde quando se decidiram pelo internacionalismo, eu gostaria, por todas as razões, de ver a França fora disso. Não consigo imagina-la dependente, seja do que ou de quem for.

(segue)