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A VERDADE.001

Segunda-feira, um lindo fim de manhã em meados de Julho. A brisa fresca vinda do mar e os 18 graus centígrados sob o suave e luminoso sol do inverno tropical, mais a quietude, formam um quadro perfeito de paz. Paz?

De Candole disse, de um quadro como esse, tratar-se de mera e superficial aparência. Nos desvãos da natureza organismos travam uma guerra permanente na qual se ‘entredevoram’ em combates surdos e cruéis, não percebidos a olho nu e apenas revelados por lentes especiais.

Nos desvãos deste nosso mundo os combates são, também, permanentes e, de igual modo, apenas lentes especiais são capazes de revelá-los. Escrevi aqui em 10 de Janeiro de 2011 – É Longo, Para Ler aos Pouquinhos, com Calma e Refletir:

O 1984, de Orwell, chegou ― George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, nascido em Motihari, Bengala, em 1903, e morto em Londres em 1950. E nem tanto assim de Orwell, porque estou falando de um 1984 não-oficial, clandestino, paralelo, por isso, mais que o original, indecentemente criminoso.

Quaisquer lugarejos, vila ou cidade podem estar compreendidos no Megabloco da Oceania e Winston, o Censor encarregado de conter as manifestações dos opositores da crimideia, grave delito de pensar errado — como Smith —, diversamente da orientação do Partido, e de denunciá-los à Polícia do Pensamento ― extensão do Big Brother, o supercomputador ao qual se conectavam câmeras e microfones instalados por toda parte, residências inclusive ―, pode estar encarnado nos bedéis do Sistema, protagonistas de uma grande brincadeira sem graça da qual aparentam gostar muito — violação de e-mails e de residências de cidadãos honestos, bisbilhotar e copiar arquivos dos seus computadores.

Os ossos de Orwell/Blair devem estar sacolejando em seu jazigo, sua voz, de onde estiver, ecoando nas consciências de quem ousa pensar fora do padrão:

― Eu avisei!!!

A crimideia está aí, mais presente do que nunca; a punição para ela, nestes tempos de patrulhamento sectário é dissimulada, indireta ― em certos ambientes e épocas são ou foram diretas e ostensivas ―, cruel para quem não tem estrutura para resistir a pressões ou à perfídia.”

A observação sugere que, em termos de países, todo mundo sempre espionou todo mundo; os serviços de informação nunca existiram para acompanhar corridas de bigas, os últimos lançamentos da indústria cinematográfica ou catalogar estrelas. Essa atividade, porém, graças aos avanços tecnológicos, alcançou dimensões assustadoras, intercontinentais, planetárias com os satélites espiões e de comunicações. Nada ou ninguém, em qualquer recanto da Terra, está a salvo da bisbilhotice, seja ela factual ou institucional.

O Sistema – queira ver no blog, logo após o trecho acima transcrito –, desenhado para criar dependências, tem os seus ‘combatentes’. É decepcionante ver pessoas talentosas a quem assistimos há anos esforçando-se para ridicularizar os próprios países; é com certo mal-estar ler-se pessoas inteligentes e cultas minimizando as gravíssimas denúncias veiculadas por órgãos absolutamente idôneos, dos quais, às vezes, podemos discordar politicamente, mas cuja credibilidade em momento nenhum é posta em cheque. Pela visão de tais pessoas é como se o denunciante houvesse decidido, por brincadeirinha, atirar toda a sua vida, família, trabalho, amigos, pela janela, renunciar à sua privilegiada posição num país formidável, poderoso, de enraizada tradição democrática por pura adrenalina, só para experimentar emoções novas, eletrizantes.

Intuo, a partir de análise preocupada do panorama geral, que o mundo precisa dar uma paradinha para pensar, ajuizar do clima de insegurança e incerteza geral criado a partir da constatação do fato de não passarmos, todos, de marionetes, algumas contentinhas, ansiosas por serem manipuladas.

Estamos assistindo à revoada dos falcões. A incerteza é total.

(segue)