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Aos 91 anos, Dona Maria Eduarda é uma mulher saudável nos seus cerca de metro e oitenta distribuído por um corpo longilíneo, vestido habitualmente com o atributo da elegância despojada, às vezes em saias longas até os tornozelos, que lhe caem muito bem. Apoiando-se na fina bengala já incorporada á sua figura, os olhos claros e atentos cravados num rosto algo alongado e expressivo emoldurado por cabelos quase louros e lisos a lhe alcançarem os ombros, caminhava, espigada, naquela tarde ao encontro da neta no bosque em frente à igreja dos franciscanos, do outro lado da larga avenida por onde, em ritmo intenso, o trânsito flui do/para o centro da cidade. Criara a neta, agora uma bonita mulher de 38 anos, desde os 2 anos de idade, com amor e cuidados num relacionamento aberto e franco, exceto quanto ao filho e sua mulher, Florence, pais de Vânia. Nunca falaram sobre eles, nunca derramaram uma lágrima, por eles ou por qualquer outra razão; não eram mulheres sem emoções, mas galvanizadas pelo sofrimento, pelo desencanto.

– Ôi, vó! Senta aqui ao meu lado, já limpei a poeira do banco.

– Ôi, Vaninha! Como estão as crianças e o Alberto?

– Bem, vó, o Albertinho pegou uma gripezinha, mas já está melhor. E a Senhora?

– Estou bem, querida, e especialmente aliviada desde o momento em que saí de casa para encontra-la, falar-lhe.

– Algum problema, vó?

– Sim e não; o momento pelo qual estamos passando sugeriu-me ser hora de falarmos sobre seus pais.

Vânia empalideceu; muda, o coração disparou. Perscrutaram-se por um momento inadvertidamente longo, uma espécie de letargia. Dona Maria Eduarda rompeu, firme, o torpor:

– Seus pais eram professores dedicados, lecionavam o dia inteiro em 3 colégios, bons cidadãos, bons profissionais, saíam juntos de casa todas as manhãs, você ficava comigo até à noite, quando voltavam. O Sérgio me lembrava muito seu bisavô, meu pai, e nunca me saiu da cabeça, em momento nenhum. Quando voltava do trabalho, sempre que aparecia eu sentia nele a alegria das andorinhas que, em bandos, seu bisavô me levava para ver nos campos em volta da cidade onde morávamos; na chegada da primavera voltavam voando em zigue-zague numa revoada alegre e barulhenta, como se festejassem a luz clara dos dias mornos de setembro, celebrassem a vida.

Fez uma pausa, a voz lhe faltara; Vânia baixara a cabeça, nada disse. Dona Maria Eduarda tomou fôlego; antes de recomeçar, mão direita fechada, o polegar sobre o dedo indicador ligeiramente encurvado, tocou por baixo o queixo da neta e ergueu-lhe a cabeça, levantando-lhe o olhar, impassível, posto depois em ponto indeterminado à frente, espelhando, talvez, alguma dor.

– Um dia saíram de casa cedo, como de hábito, e não voltaram. Procurei-os inutilmente. Sofrida, para suportar a dor da ausência, alimentei durante todos esses anos a fantasia, pura fantasia, de que, de repente, a porta se abriria e eles entrariam, alegres, chilreando, minhas andorinhas.

Calou-se por um momento, depois prosseguiu:

– Há pessoas muito difíceis de serem entendidas como seres humanos. A liberdade dos outros parece incomodá-las, o direito de opinião, de ir-e-vir sem entraves, à privacidade, à intimidade, ao direcionamento da própria vida irrita-as. São dadas a extremismos, ao linchamento moral e público, generalizado, não conseguem conviver com ideias diferentes das suas, são arbitrárias, sectárias, impositivas e maliciosas. É penoso para elas compreender como possa alguém verberar radicalismos à esquerda ou à direita, quem privilegie o equilíbrio, a lei, o respeito às instituições, o decoro, a moral e a ética. Para esses seres humanos incompletos pessoas assim, que não rezam por suas cartilhas, devem ser anuladas, perseguidas, detratadas, desmoralizadas; é a lógica primária do quem não esta com eles é contra eles. Pior: Quando os ‘rebeldes’ não se deixam intimidar, aumentam a irritação desses tipos esquisitos que não respiram direito em uma atmosfera democrática, em um ambiente de livre expressão, de prevalência dos direitos humanos, da Constituição, da lei. Nesse clima estão permanentemente de mau humor. Não se os há de temer, mas é preferível não atiçar-lhes os instintos; conhecem muito bem a linguagem da intriga, da mentira, da dissimulação, da astúcia, da violência, sua preferida, da covardia. Aderem prontamente a qualquer ação com essas características identificada com suas tendências.

Fez-se nova pausa, de sofrimento evidente. Dona Maria Eduarda abriu a boca para continuar, Vânia antecipou-se:

– Vó, as andorinhas não voltarão mais?

A resposta da velha senhora traduziu-se num soluço convulso; ela abraçou apertadamente a neta, encostou o rosto no dela, sentiu-lhe as lágrimas quentes, fartas, como as suas. E, juntas, choraram pela primeira vez em 36 anos. Por si próprias. Pelas andorinhas.

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