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O  cristianismo romano consolidou-se século após século, ao contrário dos papas em geral, que ultrapassariam o milênio sem conhecer a autoridade absoluta e a estabilidade no posto. O distanciamento eclesiástico das necessidades espirituais do povo provocava acentuado ressentimento, em cuja esteira surgiram bem sucedidos contestadores, alguns dos quais lideraram saques a mosteiros e igrejas, e queima de crucifixos, Henry de Lausanne, monge beneditino rebelde em Le Mans, Eudo na Bretanha, Pedro de Bruis na região do Ródano, 3 nomes de uma longa lista. Papas foram expulsos de seus palácios; Gelásio II, desalojado, foi colocado no lombo de uma mula e expulso (v. Stephen O’Shea, A Heresia Perfeita, Record, Rio de Janeiro/São Paulo, 2005, Tradução de André Luiz Barros revista tecnicamente por Johann Heys).

No Languedoc, pátria dos cátaros, a heresia desenvolveu-se. Em 1145 Bernard de Clairvaux – São Bernardo – prestigioso bispo, foi expulso de Verfeil, onde aportara para pregar contra os dissidentes. Em 1167 um congresso em Saint-Felix deu forma à administração da crença e formulou métodos para sua fixação. Corporificado o receio dos ortodoxos, o catarismo tornou-se ameaça real à supremacia da Igreja.

Por instâncias de Bernard, bispos e curas aumentaram o tom, começaram a endurecer suas posições; não estava em jogo apenas a hegemonia das práticas religiosas, mas a defesa de uma já sólida posição econômica e a manutenção de privilégios fiscais e sucessórios, entre outros o direito de herança e a cobrança compulsória de dízimos, incidentes sobre qualquer riqueza produzida, uma generosa fonte de renda.

Num primeiro momento – início da última quadra do século XI – Gregório VII proclamou o papado o mais elevado dos poderes, superior a todos os demais, eclesiásticos, reais ou temporais. Num segundo momento, decisivo, 22 de fevereiro de 1198, veio Lotario dei Conti di Segni, eleito papa sob o nome de Inocêncio III. Nada mais seria como antes. Derivou do Conclave, realizado em Roma, o poder absoluto do cristianismo romano, que se instalou oferecendo aos reis a remissão dos pecados e a eterna misericórdia de Deus sob condições bem claras de submissão (v. Malcom Barber, obra citada no post 14 desta série, pp 322/323 e 454). A existência do catarismo, colocado sob a alça de mira de Inocêncio III, entrou em contagem regressiva.

Propagado a partir do ‘midi’ francês (v. post de 18 de Abril de 2011), o movimento não sobreviveu de forma organizada à Cruzada patrocinada pelo papa para combatê-lo. Dados os primeiros passos em 10 de março de 1208, foi liderada por Arnold Amaury, Núncio Papal, contando com a assistência de Domingos de Guzmán, frio, impiedoso e absolutamente destemido, além de figuras como Simon de Montfort, de papel destacado na invasão e matança de Carcassone, após caírem Albi, Béziers e Avignon, como os demais redutos cátaros no Laguedoc, e.g., Toulouse, em meio aos milhares de corpos destroçados no mar de sangue das batalhas ou queimados vivos em fogueiras após capturados.

Não há qualquer comprovação histórica do “Caedite eos. Novit enim Dominus qui sunt eius”, embora, na atmosfera de eliminação física reinante, o banho de sangue, os corpos irreconhecíveis de quantos se encontravam no interior de La Madeleine, homens, mulheres e crianças, cátaros e cristãos romanos, tenham composto um quadro bastante propício à suposta ordem, considerando que, a ser dada, o seria por Arnold Amaury.

Em 20 anos a Cruzada punitiva eliminou a expansão e a presença cátara organizada no Languedoc. Em 2 de março de 1244 caiu Montségur, rendeu-se após longo cerco. As portas da cidadela se abriram e Pedro Roger, o líder cátaro, caminhou ao encontro dos vencedores e colocou-se em suas mãos. Sabia que para a morte na fogueira ou negação pública e humilhante de sua crença; não a negou. Em 16 de março, os que também não a renegaram, como Roger, juntamente com um grupo solidário aos derrotados em extrema e final profissão de fé, foram executados na grande fogueira acesa na campina ao pé do Montségur. Pelas contas possíveis, eram 221.

Não acabou aí, iniciou-se a perseguição aos remanescentes.

“A ação de Fournier, em sua diocese, não se limitou às perseguições contra as tendências heterodoxas. Soube, igualmente, aumentar o peso das dízimas agrícolas; estas foram impostas à produção dos queijos, dos rábanos e dos nabos, que até então estavam dispensados delas”.

(Emmanuel Le Roy Ladurie, Montaillou – povoado occitânico, Editora Schwarcz/Companhia das Letras, São Paulo, 1997, Tradução de Maria Lúcia Machado, pp 12 ao fim e 13 ao início.- 576 páginas sobre as perseguições à crença cátara remanescente por Jacques Fournier, abade de Frontfroide, bispo de Pamiers, bispo de Mirepoix, cardeal e papa em Avignon sob o nome de Bento XII)

A repressão aos cátaros e sua aniquilação foi, talvez, a mais contundente demonstração de força e, sobretudo, do poder eclesiástico medieval e sua inflexibilidade no trato com as dissidências religiosas.

(segue)

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