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Com a queda do Império, nova forma de dominação romana se esboçou, a vocação emergente divorciada do cristianismo concebido nos chãos da Galileia. Ao nascimento com Constantino seguiu-se o batismo e sua confirmação com o apadrinhamento de Teodósio I, a exclusividade, a intolerância, banidas as demais crenças por decreto, acolhido o novo cristianismo no regaço das classes dominantes em lugar da prática exasperada dos seguidores imediatamente anteriores, neles manifestado o cristianismo galileu, messiânico e de pés descalços.

Estabelecido o Credo de Nicéia, as índoles piedosas, as espiritualidades espontâneas, as vozes interiores da identidade cultural não se aquietaram. O cristianismo romano, sozinho no vácuo de poder religioso, nasceu e foi confirmado sob o signo da contradição; tendo ao seu lado as mais poderosas forças da Sociedade local, nem por isso restou incontestado. A natureza inquisitorial, então, saltou do inconsciente de Latrão para o consciente dos curas, para o dia-a-dia das camadas mais altas da decadente e desprestigiada Sociedade dos tempos imperiais finais, ávida por domínio, por se manter diferenciada da população em geral.

Da necessidade inicial de estruturação, no século quinto, passando nos séculos seguintes pela estabilização, consolidação e imposição de suas doutrinas, pela criação de símbolos – representação gráfica de seus programas –, pelo alinhamento de suas milícias e esboço de sua expressão militar, pela ingerência em Estados independentes, pelas Cruzadas, por Bernard Gui, celebrado como o maior teórico das Inquisições, até chegar à ‘Exigit Sincerae Devotionis Affectus’, bula papal de Sisto IV que criou a Inquisição espanhola, pedida pelos reis católicos, provavelmente a mais cruel e brutal no cotejo com suas congêneres romana, portuguesa, veneziana, etc., o poder eclesiástico absoluto, ao final apenas residual, estendeu-se até o século dezenove.

A Europa cansada de guerras e arbítrios de fins do século quarto e início do século quinto ansiava por ordem. O tempo correra, mentes evoluíram; o aspecto animal do homem estava, embora lentamente, sendo deixado para trás, sublimado, atirado ás masmorras do subconsciente emparedado pela espiritualidade e contido pela piedade e pela boa-fé. Foi um golpe; fontes de conhecimento começaram a ser cortadas, doutrinas não emparelhadas com a nova ordem foram marginalizadas e combatidas até o desaparecimento, escritos divergentes da nova orientação passaram a ser recolhidos, suprimidos. Apenas a moral religiosa do cristianismo romano e a cultura eclesiástica eram admitidos; qualquer coisa além de tais estreitos limites seria considerada heresia.

Quando os longínquos antepassados do homem, sob os mais variados riscos, ganharam a savana estavam definindo o mais valioso bem a ser transmitido aos seus descendentes, a liberdade. Nenhum cativeiro, o das árvores, o da floresta, nenhum, contemporâneo ou futuro seria reconhecido pelas suas gerações vindouras como vocação da espécie. Em que pesem os conformados de todos e quaisquer cativeiros, entre eles assomariam os irresignados, os que se reservariam o direito de escolher – os hereges –, sufocados e infelizes sempre que negado o seu maior bem, inalienável, insubstituível. Em tempos de totalitarismos de todos os matizes eles seriam perseguidos, combatidos, exterminados para segurança da ordem dominante e das classes que a apoiassem. E, além de perseguidos, combatidos e exterminados, seriam também renegados:

“Que todos os frutos de vossas terras sejam malditos, que vossos animais morram, que Deus envie contra vós a fome, a peste e a morte, que sejais perseguidos pelo ar corrompido e por vossos inimigos; que sobre os campos de vossos vizinhos envie Deus chuva e fertilidade, enquanto sequem vossos campos sem fruto; que percais a razão e a vista; que a luz se torne trevas e que vós fiqueis para sempre rodeados delas; que vossas mulheres sejam viúvas e os vossos filhos órfãos.” “(…) Que vossas mulheres e filhos se revoltem contra vós, que sejam pobres e mendigos, (…)”

(Fórmulas de anátema, apud  Francisco Bethencourt – História das Inquisições, segunda reimpressão – Editora Schwarcz/Companhia das Letras – São Paulo – Página 178)

(segue)

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