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O Homem Livre.001

Para desenvolver-se a partir da região olfativa até superpor-se a todo o cérebro antigo, implantou-se na criatura superior possível o embrião de um delicado e sofisticado mecanismo que lhe facultaria, a par de evoluir na forma, evoluir fundamentalmente na essência. Com isso, constituiu-se ao longo do tempo uma espécie dúbia, embora apta à intelecção e ao aporte de atributos outros que a distinguissem dos animais em geral. A índole do réptil e o cheiro de sangue que inebriara o mamífero ancestral, contudo, alojados no cérebro antigo, fizeram-se latentes no animal enodoado pelo instinto que consistiu a encruzilhada evolutiva.

O incerteza do comportamento é, pois, uma permanente possibilidade; e quanto mais longe recuamos no tempo, mais perto chegamos das artimanhas do réptil e da brutalidade da fera. É gigantesco o esforço a ser feito no curso da vida, de muitas existências, para sustentar a excelência primordial, a pureza das crenças – tendentes, por questão de sobrevivência, a uma visão meramente substantiva de mundo – e não se deixarem tingir com as cores de sua época.

Um breve retrospecto:
 

Flavius Valerius Aurelius Constantinus, para consolidar sua aliança com Maximiano, casou-se com a pequena Fausta, filha do aliado e irmã de Licínio, imperador da divisão oriental do mundo romano, e Magêncio.

Afastado em 305 juntamente com Diocleciano, com quem dividia o poder, Maximiano tentou reconquista-lo em 309, sendo derrotado por Constantino no campo de batalha e posteriormente assassinado por ordem do imperador. Em 312 opuseram-se Constantino e Magêncio, filho de Maximiano, autoproclamado imperador em Roma. Combatendo Magêncio e também Licínio, derrotou-os e matou-os, como ao pai, colocando todo o império sob sua espada, mas não conseguindo, apesar de suas vitórias, legitimar-se no poder.

Para fincar raízes, fez divulgar uma falsa história de descendência de Cláudio II, hábil guerreiro que estimulou entre a soldadesca o culto ao Sol, do qual se disse personificação, conseguindo por este meio mantê-la submissa. Constantino, na vigência de sua aliança com Maximiano, se quis protegido de Hércules; após assassiná-lo, com a falsa história de sua ancestralidade, passou ao culto solar em suposta continuação da linhagem de adoradores do Sol, uma divindade. A questão do sonho com o Deus cristão e do ‘in hoc signo vinces’ é, hoje consenso entre os estudiosos independentes, outra obra de ficção. Ele parecia gostar muito desse tipo de coisa e não parou por aí. Eusébio de Cesaréia, seu biógrafo, encampou, chancelando, algumas fantasias a seu respeito. Justificando-se com o ‘instinctu divinatis mentis’, foi sumo pontífice e favoreceu as práticas pagãs ao mesmo tempo em que estimulava o cristianismo, ao qual, de forma criativa, deu novas feições. Ele ostentou o título pagão de sumo pontífice até morrer.

Sob o patrocínio de Constantino oficializou-se o primeiro tribunal eclesiástico, o ‘episcopalis audientia’, para julgar, paralelamente ao tribunal imperial, causas em geral. Com esta corte, o cristianismo começou a criar suas próprias regras, convertidas paulatinamente em leis rigorosas, especialmente voltadas às demais crenças, que passaram a ser combatidas com rigor crescente.

Morto Constantino, e depois de Constâncio II, seu filho, alçou-se Graciano, que fulminou o título de sumo pontífice quando, em 379, a ele renunciou. Graciano foi assassinado por Magno Maximo em 383, por sua vez assassinado, juntamente com Flávio Eugênio, por Teodósio I, que baniu de vez todas as demais crenças, proclamando em 395 o cristianismo como única religião do império numa ácida atmosfera de assassinatos, usurpações, incertezas, inverdades e mitos.

(segue)