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Contos de Fadas 2.001

Não havia `uma` Igreja no cristianismo primitivo, mas tantas Igrejas – Tiro, Corinto, Alexandria, Roma, Jerusalém, etc. – quantas fundadas por aqueles que, ordinariamente, se tornavam, depois, seus patriarcas, sem nenhum traço de chefia, liderança ou subordinação entre elas.

A comunidade cristã de Roma – com o seu bispo –, que ficaria no centro da discussão sobre a unificação da chefia das Igrejas cristãs, não remete a um começo sob qualquer liderança.

Simãobarjonas foi um zelote, cujo grupo teve raízes no ano 6, quando a mão pesada de Roma caiu sobre a Judeia e Samaria, traduzindo o seu domínio em impostos a serem estabelecidos segundo os resultados do censo de Quirino, Legado da Síria, comissionado especialmente para a tarefa. Os judeus se revoltaram sob a liderança de Judas, o Galileu, que, embora executado por insurgência contra o Imperador romano juntamente com as principais figuras da revolta, deixou as sementes do movimento rebelde plantada nos evadidos passados para a clandestinidade, na qual `cozinharam` a humilhação e o anseio de sacudir fora o jugo romano; auto denominados zelotes, levaram sua gente a uma guerra aberta e suicida inaugurada em 66 e terminada em 70 com a supressão total de Israel, incendiada Jerusalém após matança geral bem ao estilo romano, completada a destruição com o Templo, símbolo maior da religião feita Estado sob Iavé, incendiado e arrasado, saqueados os seus tesouros e alfaias, levados para Roma como despojos da vitória a cortina rasgada que velava o Santo dos Santos e a Torá cerimonial com a qual se celebravam os ofícios. Zelote para Roma soava como problema; era absolutamente impossível a um zelote conhecido e militante, como Pedro, sequer aproximar-se da sede do império sem ser imediatamente capturado e morto. Um zelote figura pública, chefe de uma comunidade repudiada formada por pobres e miseráveis, não teria qualquer chance em Roma.

A não fundação ou não formação da comunidade cristã de Roma por Paulo, de outro modo, está de sobejo demonstrada por ele próprio em Romanos 1:8-15, v.g.:

“8 – Em primeiro lugar, dou graças ao meu Deus mediante Jesus Cristo, por todos vós, porque vossa fé é celebrada em todo o mundo; 9 – Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como incessantemente faço menção de vós; 10 – E peço continuamente em minhas orações que, de algum modo, com o beneplácito de Deus, se me apresente uma oportunidade de ir ter convosco; 11 – Porque muito desejo ver-vos, a fim de repartir convosco algum dom espiritual para que sejais confirmados; 12 – Isto é, para que em vossa companhia reciprocamente nos confortemos pela fé que nos é comum, a vós e a mim; 13 – E não escondo, irmãos, que muitas vezes me propus ir ter convosco – e fui impedido até agora – para colher algum fruto entre vós, como entre outros gentios; 14 – Pois eu me sinto devedor a gregos e a bárbaros, a sábios e a ignorantes; 15 – Daí meu propósito de anunciar o evangelho também a vós, que estais em Roma.”

A comunidade, pois, já existia e Paulo apenas demonstra o desejo de visita-la para levar-lhe a sua visão de cristianismo, bastante diferente daquela de Marcos, cujo evangelho, escrito para os cristãos de Roma, foi elaborado com muito tato e cuidado por se tratar da metrópole que havia executado Jesus por crucificação, pena usualmente aplicada aos crime de sedição e lesa-majestade. O cristianismo foi levado para Roma por judeus seguidores de Chrestus – dicção de Suetônio -, que lá se concentraram com arraigados sentimentos messiânicos, provocando distúrbios determinantes de sua expulsão da cidade por Cláudio, então Imperador.

Papa, do grego pai, por papai/paizinho, empregado para designar o patriarca das diversas comunidades do primitivo cristianismo, não implicava, assim, universalidade de chefia.

A tradição da Igreja reza haver Pedro sido martirizado em Roma entre 64 e 67. Na placa dos Svmmi Pontifices in hac Basilica Sepvlti está gravado haver o seu papado transcorrido de 30 a 64; para isso seria necessário que lá já houvesse uma comunidade cristã estabelecida e que ele a fosse, então, chefiar para receber a designação de papa. O problema é que na época o conceito não se havia ainda formado, apenas laborando a partir das grandes comunidades surgidas mais tarde, cujo patriarca recebia a denominação de bispos, depois bispos e papas.

E a comunidade cristã de Roma não existia; o cristianismo, como tal, em 30 não existia, os evangelhos não haviam ainda sido escritos – os estudiosos, praticamente à unanimidade, têm o evangelho de Marcos, o primeiro dos canônicos, por escrito nos anos 70 – e Paulo, por essa época, estava em lugar não sabido, só reaparecendo em 49 quando, surgida entre ele e os companheiros de Jesus, em Jerusalém, a polêmica sobre a circuncisão e sobre o abandono da Torá, os discípulos, judeus, sem outros livros sagrados que não os de Moisés, rejeitaram firmemente a posição do recém chegado, obrigado, então, a levar sua concepção de cristianismo para outras paragens. A contenda foi, bem mais tarde, para os efeitos da historiografia religiosa, batizada de Concílio de Jerusalém.

Eusébio de Cesaréia, nascido em torno de 270, escreveu no Livro II de sua História Eclesiástica, números 2 e 3:

Naquele tempo, Tiago, também chamado Irmão do Senhor (Gl 1:19) – porque igualmente era filho de José; (…); este mesmo Tiago, a quem os antigos deram o cognome de Justo por causa de suas grandes virtudes, foi o primeiro a quem se confiou a posição de chefia da Igreja de Jerusalém.

Clemente, no Livro VI das Hypotyposeis, acrescenta: ”Porque – dizem – depois da ascensão do Salvador, Pedro, Tiago e João (sic), mesmo tendo sido os preferidos, não se honraram com o cargo; entregaram o bispado de Jerusalém a Tiago, o Justo.

O Livro II da História Eclesiástica foi escrito por Eusébio a partir de Clemente, Tertuliano, Josefo e Filon. Orígenes, pelo fim do século III, quando, pouco mais, pouco menos, nasceu Eusébio, já se referia a Tiago. Note-se que os textos dos assim chamados Pais da Igreja desenvolveram-se às apalpadelas, ausentes fontes seguras que corroborassem, pelo menos se aproximassem, da tradição oral. E isso produziu imprecisões de toda ordem, com prejuízos enormes para a confiabilidade dos textos chegados até nós; os copistas, por meio de quem os textos eram reproduzidos ou multiplicados, por razões diversas os alteravam, acrescentando ou cortando trechos. Existe um excelente livrinho – chamo-o livrinho pelo seu tamanho e pelo preço, disparadamente compensador – de um PhD em Teologia pela Universidade de Princeton, diretor do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte e especialista em Novo Testamento, igreja primitiva, ortodoxia, heresia e manuscritos antigos, BART D. EHRMAN, que troca em miúdos por meio de linguagem simples e clara essa questão. O nome é O QUE  JESUS DISSE? O QUE JESUS NÃO DISSE? A edição é da Ediouro Publicações-PocketOuro-Agir Editora, com tradução de Marcos Marcionilo, muito boa. O título original é Misquoting Jesus: The Story Behind Who Changed the Bible and Why.

Ele trata, inclusive, da mexida nos capítulos de Marcos, da qual as gentes em geral nem suspeitam. Vale a pena ler.

Foi Jerusalém e não Roma a sede histórica do cristianismo, a primeira com Tiago, o irmão de Jesus, que assumiu a chefia do movimento por sucessão natural do irmão na forma dos costumes daqueles tempos, embora dele não fizesse parte durante a vida do irmão. Tiago foi executado por lapidação no cumprimento de pena fixada segundo a lei judaica em 62 da EC, no vácuo de poder romano na Judeia entre o término da Comissão de Porcius Festus e o início do período de Lucceius Albinus.

(continua)