“(…). É difícil, na verdade, deixar de ficar nervoso com esta descrição do banquete imperial que celebrou o encerramento do Concílio de Nicéia:

Destacamentos da guarda imperial e de outras tropas cercavam a entrada do palácio com espadas desembainhadas. Os homens de Deus puderam passar sem medo em meio aos soldados, até o coração dos aposentos imperiais, onde alguns sentaram-se à mesa junto com o imperador e outros reclinaram-se em divãs espalhados dos dois lados. Quem olhava tinha a impressão de que se tratava de uma imagem do reino de Cristo – de um sonho, ao invés da realidade. (Eusébio, Vita Constantini 3.15; Brown 1982,16)

A refeição e o reino ainda estão associados, mas agora os participantes são bispos, que, é claro, são do sexo masculino. Eles se reclinavam, junto com o imperador, para serem servidos por outras pessoas. Talvez o cristianismo seja uma “traição” inevitável e necessária de Jesus, pois senão teria morrido entre os morros da Baixa Galileia. Mas essa “traição” tinha que acontecer tão depressa, ser tão bem sucedida e ser desfrutada dessa maneira? Não seria possível manter uma dialética mais equilibrada entre o Jesus e o Cristo em Jesus Cristo?”

(John Dominic Crossan* – O Jesus Histórico/Epílogo – Imago, Rio de Janeiro, 1994, p. 462 – Tradução de André Cardoso)

*John Dominic Crossan é professor de Estudos Bíblicos na DePaul University, de Chicago, e autor de vários livros, incluindo The Cross That Spoke, que recebeu o prêmio de Excelência da Academia Americana de Religião, e Jesus: Uma Biografia Revolucionária, também a sair pela Coleção Bereshit, da Imago. (Informações da Editora na `orelha`posterior da capa)

Quando se ‘olha’ para Jesus em busca da verdade, para o Jesus real, anterior a Constantino, caminha-se com a história e olha-se não somente para ele e sua época, mas também para aqueles que lhe terão sido próximos; às vezes fica-se desconcertado. Uma placa na Basílica de São Pedro, onde foram sepultados os corpos de uma quantidade de Papas (SVMMI PONTIFICES IN HAC BASILICA SEPVLTI), informa haver o Papado de Pedro transcorrido entre os anos 30 e 67 (da EC). Uma breve reflexão:

Lucas 6:15 na Bíblia de Jerusalém refere-se a Pedro como Simão, chamado Zelota; João Ferreira de Almeida grafa Simão chamado Zelote; em ambos, zelote é grafado com `z` maiúsculo. Marcos 3:18 o chama de Simão, o Zelote, grafado com `z` maiúsculo em João Ferreira de Almeida, quando a Bíblia de Jerusalém o chama de zelota com `z` minúsculo. Em Mateus 10:4 ele é também Simão, o Zelote, com maiúscula para João Ferreira de Almeida; na Bíblia de Jerusalém, Zelota também aparece com o `z` grafado em maiúscula. Zelote/Zelota com `z` minúsculo passa o real sentido do termo; grafado com `z` maiúsculo, a sensação é de tratar-se de nome próprio ou de família. Não é exatamente a mesma coisa e pode confundir quem não saiba da existência dos guerrilheiros urbanos judeus, que de nenhum modo aceitavam a submissão ao imperador romano, referido como um deus.

Pedro, Simão, pedra, cephas, um envolvente jogo de palavras inspirado por Isaías e pelos Salmos.

ESCÓLIO – Em Isaías 28:16 tem-se: Eis que porei em Sião uma pedra, firme, pedra preciosa, angular, um alicerce bem assentado; aquele que nele assentar-se, estará, como ele, firme e seguro. Na liturgia para a festa das Tendas (Salmos 118:22) encontra-se: A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular.

E mais: Mateus 16:17, em João Ferreira de Almeida, registra Jesus usando Simão Barjonas; em 16:18 usa Pedro. A Bíblia de Jerusalém usa em 16:17 Simão, filho de Jonas; em 16:18 usa Pedro. Mateus 21:44 tem a mesma compreensão em João Ferreira de Almeida e na Bíblia de Jerusalém: Aquele que cair sobre esta pedra ficará em pedaços, e aquele sobre quem ela cair, ficará esmagado. É uma dicção de violência. Em João 1:42 Jesus diz: Tu és Simão, filho de João; chamar-te-ás Cefas (os dois documentos têm a mesma redação, acrescentando entre parêntesis que cefas quer dizer pedra). Em João 21:2-3 e 7 encontramos Simão Pedro. Em Atos 11:13 lemos Simão, cognominado Pedro.

COROLÁRIO – O apóstolo e seguidor de Jesus, irmão de André e filho de Jonas, nasceu Simão e com este nome provavelmente morreu. Com cefas para pedra e Simão, filho de Jonas, nada na realidade, em que pese o grego antigo, sugere Pedro. Na forma do Novo Testamento ele era um zelote e este não era um nome próprio ou de família, mas a autodenominação da facção de revoltosos de Israel, combatentes contra Roma, que não aceitava nenhum Senhor além de Iavé; e entre os zelotes estavam os sicários, de sica, adaga, assassinos frios e impiedosos. Jamais se entregavam; muito frequentemente em companhia da mulher e filhos, quando vencidos matavam-se entre si, inclusive mulheres e crianças, para, vivos, não se submeterem a outro deus, forma de apresentação dos imperadores romanos, como dito linhas acima.

No ano 30 da EC simãobarjonas (os textos da época não usavam pontuação e mesmo separação entre palavras) provavelmente estava em Israel, onde terá morrido combatendo os romanos. Trato deste tema com riqueza de detalhes – traçando paralelos zelotes/Simão/Jesus – em A Conspiração/Jesus de Nazaré, 1700 anos de Equívocos; pelo seu conteúdo e termos o texto não cabe aqui.

Entre os seguidores de Jesus estava simãobarjonas, um zelote, e isso é tudo.

Mateus 10:34 – Não penseis que vim trazer paz à Terra; não vim trazer paz, mas espada.

Lucas 12:49 – Eu vim para lançar fogo sobre a Terra e bem quisera que já estivesse a arder.

Lucas 22:38 – Então lhe disseram: Senhor, eis aqui duas espadas. Respondeu-lhes: Basta!

(continua)

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