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Ele (Jesus) pregou para uma multidão de miseráveis desprezada pelos ricos, ignorada pelos cultos e oprimida pelos poderosos, alvos do ódio absoluto da ralé, cuja grande aspiração seria um novo tempo, uma nova realidade que lhes permitisse desmantelar a ordem vigente, humilhar os cultos, executar os  poderosos, tirar dos ricos o ouro e as propriedades. Jesus de seu turno, embora a linguagem do iniciado, a formulação hermética do pré-gnostico, terá se dedicado à tarefa bastante objetiva de cooperar com os revoltosos de Israel; não via os ricos com bons olhos (Marcos 10:23; Lucas 18:25), embora alguns participassem de sua vida, especialmente como provedores da bolsa administrada pelo Iscariotes (Lucas 8:3); e não suportava qualquer classe de domínio (Marcos 12:38-40; Mateus 23:1-12).

Quanto às ovelhas perdidas, queria prepará-las para chegarem com dignidade ao fim que julgava próximo, e então falou de um Reino, de um Pai, ícone talvez identificável na figura lendária da comunidade dos sectários do deserto, já no céu da sua crença, procurando instilar naquela pobre e brutalizada gente emoções e sentimentos a ela intimamente estranhos, gente ansiosa por alguém como ele, leprosos, mendigos, aleijados, toda a sorte de desvalidos, aqueles a quem a sociedade do seu tempo não apenas ignorou, mas repudiou e desprezou. Terá sido ela o seu objeto de amor, conforto e cura, a quem terá levado esperança e devolvido a dignidade de lutar por alguma coisa, acenando-lhes com a morte, porque preferível à vida como por ela vivida.

Não pregou para os abastados, ricos e poderosos, que o temeram porque infundiu força à maioria de pobres e incultos, manipulados e explorados pelas classes altas, assíduas no Templo, onde tudo começava e terminava, em torno do qual girava toda a vida religiosa, social, política e econômica. Por isso, pela rara capacidade de arregimentação, pelo seu messianismo independente, terá sido grave ameaça para os romanos no passo em que armava uma bomba de efeito retardado para a classe abastada ao incutir autoestima, dignidade e força interior nos deserdados da sorte; incômodo para o Templo, transtorno para Roma, era, contudo, desejavelmente descartável; pobres e miseráveis não pagam dízimos nem tributos. Esse tipo de coisa é sem custo ou esforço perfeitamente sofreado pela violência, com a morte; assim foi com Jesus. É melhor morrer um só homem do que perecer toda a nação, terá dito o sumo sacerdote. (Onair Nunes, A Conspiração dos Medíocres, LIVRO VI – Jesus de Nazaré, 1700 Anos de Equívocos)

Há fontes nas quais se colhe haver sido o templo demolido na área onde construído o Santo Sepulcro erigido a Afrodite, não a Júpiter. Afrodite ou Júpiter, não é relevante, o sítio pagão, sim.

Vivendo em relativa paz desde a entronização de Constantino, os movimentos religiosos ativos em Roma puderam, afinal, com o Édito da Tolerância, de 311, respirar aliviados; a perseguição acabou para todos, quase totalmente destruídos – talvez por isso o Édito da Tolerância -, o cristianismo entre eles, ainda assim dividido, perdido no caos social romano.

Em 313, pelo Édito de Milão, a tolerância foi substituída pela liberdade religiosa. Casas de Oração – o protótipo das posteriores igrejas – foram edificadas pelo Erário, o luxo e a pompa do estilo romano introduzidos nos ofícios religiosos. Celebrantes e administradores passaram a receber do Estado gordos salários, isenções de impostos e poder crescente.

A sombra de Constantino pairando sobre os movimentos religiosos recém-libertos, as divisões internas do cristianismo, marcando o início de acirrada disputa por cargos, chegaram ao ponto de não-retorno. Em consequência, surgiu dos embates e manobras entre católicos – assim chamados os cristãos da África do Norte cooptados por Constantino – e radicais donatistas, partidários do Bispo Donato, um cisma impreenchível, estes últimos avessos à total divindade de Jesus e defensores da sobrevivência cristã apartada do Estado romano, fora do controle oficial, e da austeridade da vida e da prática religiosa.

A disputa, levada à arbitragem do Bispo de Roma e do Concílio de Alves, na Gália, em 314, foi vencida pelos católicos, sendo decidida em última instância por Constantino, com a vitória definitiva do embrião do catolicismo.

A imagem do Jesus dos primeiros 300 anos, de pobreza e enfrentamento ao sistema ao lado dos deserdados da sorte, começou a esmaecer.

Em 314 Constantino contava 42 anos de idade; não se havendo, ainda, batizado, era um pagão. Seu cerco político à Igreja, a par de levar o cristianismo das ruas para o Palácio, por extensão à Corte, aos palacetes e às casas da melhor sociedade romana, apresentou-lhes, também, os símbolos pagãos em um clima imperial em meio ao qual era muito pouco saudável contrariar o Augusto no poder. Daí para a ingerência nos assuntos da Igreja foi um passo, a considerar o precedente – importantíssimo nas decisões do Estado romano – da intervenção final para garantir aos católicos prevalência sobre os donatistas. Da ingerência para a chefia tácita o caminho foi curto, assim como a incorporação à Igreja do luxo, da pompa e da índole imperial. A religião tinha, então, de fato, um chefe pagão.

A pobreza e as perseguições foram substituídas pela abastança e pelo poder crescente; e porque Constantino Augusto precisava de ordem no império e o nascente organismo de se impor, este passou de perseguido a perseguidor. Com o respaldo oficial, as demais crenças passaram a ser sistematicamente destruídas. Foi posta em cena a figura do herege.

(segue)