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As divisões internas teológicas e estruturais nasceram com o próprio cristianismo. Após a morte de Jesus, quando Tiago, seu irmão, assumiu a chefia por direito de sucessão familiar, Paulo entrou em choque com ele e, por extensão, com o núcleo do movimento, a circuncisão no centro da controvérsia. Não encontrou espaço em Jerusalém, indo pregar o seu cristianismo desfigurado, posto elaborado a partir da Cruz, em outras terras.

Na Igreja dos primeiros tempos, entre as mais expressivas, podemos nos deter em duas dissensões:

(1) no Donatismo, surgido com Donato, de Cartago, uma espécie de Bispo, no início da década de 330 da E.C.. O movimento organizou-se a partir da ordenação de um religioso supervisor por um presbítero-supervisor colaboracionista; sob Diocleciano e violenta repressão ele entregou aos romanos exemplares das Escrituras, cujo destino, sabia, era o fogo.

O inconformismo correu como um rastilho de pólvora, alinhando-se com Donato a maioria das igrejas do Norte da África. Em apoio ao presbítero-supervisor, presbíteros se reuniram em Cartago e elegeram para eles um presbítero-supervisor maior. Era o cisma e o início de acirrada luta interna.

Para o Donatismo o grau espiritual do oficiante da Igreja se compreendia no que quer fizesse; não fosse puro e espiritual, não poderia celebrar ofícios, fazer casamentos, batismos, etc. Agostinho, um homem extremamente prático, combateu os donatistas e defendeu uma tendência em esboço; na Epistela 93 foi enfático: um apóstolo e um beberrão são, de fato, muito diferentes, mas entre o batismo ministrado por um apóstolo e outro por um beberrão não há, ou não havia, qualquer diferença. É reflexo de Paulo, a quem tirou do ostracismo, cuja pregação concedia ao religioso valor por suas obras, não por seus dotes espirituais e morais.

Transcrevo a propósito:

“L’évêque Donat et St Augustin: Deux Antiques Berberes, deux sentiments antagonistes.
Le Donatisme, un mouvement né avec l’invasion de l’empire Romain en Afrique du Nord plus, particulièrement au Maghreb Arabe, a cultivé une culture anti-colonialiste millénaire, une réaction profonde de refus façonnée politiquement autour du duel interminable des deux églises. Rome a utilisé tous les moyens pour venir à bout de cette lutte (propagande, destruction des basiliques donatistes, confiscation des terres au profit des berbères romanisés et persécutions morales et physiques…) qui dura plus de quatre siècles, c’est-à-dire durant toute la présence de l’empire Romain secondé par les Byzantins. Donatistes et Circoncellions, berbères autochtones de Numidie et de Maurétanie Césarienne, ont marqué par leurs résistances l’histoire de l’humanité. Le Donatisme, fief de la paysannerie berbère, a laissé apparaître l’action prolétaire, étincelle de doctrines qui ont bouleversé la société durant le 19ème et 20ème siècle.”

(2) no Arianismo, de Ário, presbítero de Alexandria em 319, que postulava haver um só Deus, origem de todas as coisas, negando a consubstanciação Jesus/Deus, para ele uma heresia, não podendo ser igualados. Era da essência de sua doutrina haver o Cristo encarnado em Jesus, que não era Deus, mas a Ele submisso. Ário chocou-se de frente com a hierarquia em um cisma com as proporções da própria Igreja, que se viu ameaçada em seus alicerces.

As dissensões internas geraram intervenções externas. Flavius Valerius Constantinus — 272/337 da E.C. —, um assumido adorador do Sol, ao qual prestou culto até a véspera de sua morte, valeu-se do cristianismo para assegurar a governabilidade de uma Roma que, a meio do seu reinado, entrou em irreversível declínio. As tendências negativas dos romanos estavam em seu DNA; foram examinadas por Suetônio, Caio (…) Tranquilo — 69/122 da E.C., aproximadamente —, cuja obra voltou-se quase por inteira para a decadência moral e política da sociedade romana e para a rotina de golpes e assassinatos de Imperadores, suas famílias e candidatos a Imperadores a partir dos Césares.

(segue)