Mas o que me parece mais óbvio é que o BC está satisfeito com qualquer número de inflação que fique entre 5% e 6% (no ano). (…). Ao ficar neste zigue-zague, o BC demonstra que não sabe operar com dois objetivos, o de crescimento e o de inflação. 
 
José Roberto Mendonça de Barros – que dispensa apresentações –, parece a este blog, à força de suas posições, tocou no ponto nevrálgico da macro do país em entrevista a O Globo de hoje (Caderno de Economia). Do injetar consumidores no mercado sem medidas que os sustentem – aos consumidores e ao mercado –, passando pelo recuo da produção e pela explosão dos custos, resumiu seu pensamento no trecho final, como da epígrafe. Já questionamos aqui: sempre que iniciarmos um processo de crescimento vamos ter de pará-lo para cuidar da inflação?
 
Inflação de demanda, numa ponta, e juros altos, na outra, complicam ainda mais tudo o que já é complicado com infra-estrutura deficiente, carência de mão de obra qualificada, setor industrial em permanente busca de proteção e absoluta falta de vocação para a economia de escala, todos esses assuntos também já abordados aqui.
 
Os juros altos que atraem os dólares e controlam a inflação (?), são os mesmos que propiciam o aumento das reservas, mas fazem da dívida pública uma bomba de efeito retardado e dos investimentos uma cruz difícil de carregar, além de travar o desenvolvimento; o dólar alto é bom para os exportadores, mas tem efeito nefasto na dívida com o exterior e aciona o gatilho dos custos em um país com significativa participação de insumos importados em suas operações de produção.
 
Já se disse aqui da pesada herança que carregamos; faz pouquíssimo tempo histórico que nos livramos do doutorismo.
O governo não pode fechar o país para balanço, um freio de arrumação é necessário, paralelamente, no entanto, precisa ir trabalhando nas medidas mais urgentes. Em economia não existe a situação ideal – especialmente num mundo economicamente conturbado como este em que vivemos –, mas momentos econômicos mais ou menos propícios. A Administração Federal está se mexendo, não aceitando os fatos tal como se apresentam, fatalismo do tipo somos assim porque temos de ser assim ou somos de vocação agrícola. Parece que ninguém se lembra, mas foi Getúlio Vargas quem mudou isso; foi o primeiro governante do Brasil a pensar e realizar infra-estrutura nestes termos, a abrir-lhe uma perspectiva industrial.
 
Há um ponto que parece estar muito claro, encarando realisticamente o enquadramento do Banco Central: inflação entre 5% e 6%, exagerada, é estrutural, não desviada a questão da interdependência das economias. O governo federal não parece estar aceitando isso, mas debate-se num ambiente macro de emanações altamente corrosivas, inclusive políticas.
 
Há pessoas, por aqui, escovando os dentes com lima para morder fundo, ainda assim sem o conseguir. Prestariam um grande serviço ao Brasil se não atrapalhassem, sem abrir mão da fiscalização, que lhes compete e assiste. E por falar em Brasil, na base da imensa maioria de seus problemas está um item de nome Educação. O Professor José Pastore, em entrevista a Salette Lemos na última segunda-feira revelou sua visão do problema com a acuidade e competência que lhe são peculiares. Ouvi-lo, provavelmente, não custará nada; tem muito a ensinar. É um Brasileiro.