Os líderes não podem criar o contexto em que operam. Sua contribuição distintiva consiste em operar no limite do que uma dada situação permite. Se excedem esses limites, entram em colisão; se lhes falta o que é necessário, suas políticas ficam  estagnadas. Se constroem com solidez, podem criar um novo cenário de relacionamento que se sustém ao longo de um período histórico porque todas as partes o consideram de interesse próprio. (Henry Kissinger, Sobre a China, Objetiva, 2011, Tradução Cássio de Arantes Leite, p. 218)

Um país não se consolida economicamente, entre outras razões, quando suas exportações se assentam em parte maior nos produtos primários (post de 9 de outubro de 2011). Em meados da semana ontem encerrada, repercutiu intensamente declaração similar vinda do exterior, acrescida do detalhe oracular de que a economia brasileira esgotou-se, devendo seguir-se a fuga dos investidores.

Lembre aquele comercial da Petrobrás em que um homem aparece exaltando as qualidades de determinado óleo de fabricação da empresa com carregado sotaque anglo-americano, para logo após indagar em límpido português, sem qualquer acento, mais ou menos o seguinte (não me recordo exatamente as palavras): é preciso falar com sotaque para atestar que o óleo tal é de excelente qualidade? Na  hipótese em tela,a mensagem, implícita, é inversa.

A propósito da fonte exterior: para aonde fugirão os capitais? Os Estados Unidos não reúnem condições para absorvê-los. Todos. Para a Europa, Grécia, Espanha? Alguma coisa parece estar fora do lugar; desestabilização, pânico, para variar?

Dá para imaginar que os economistas brasileiros de todas as áreas não sabem disso, do suicídio a médio e longo prazo da aposta nas commodities para definir a pauta de exportações? O jornalista econômico Carlos Alberto Sardenberg, volta-e-meia presente em coluna de O Globo e com participação constante no Jornal da Globo, deve estar pingando de cansaço de tanto bater nessa tecla.

O que ninguém disse – e precisa ser dito – é que o país está operando no limite; sua energia no patrocinio investimentos diminuiu a partir do esgotamento, isto sim, da mão de obra treinada/especializada e seus recursos gerenciais, dando um nó na expansão, a considerar em análise ampla o aumento do meio circulante e a alta demanda, provocando inflação, agravada pela queda da produção, com alta dos custos. Fator complicador: o dólar aviltado, cuja queda se deveu em boa parte à precária situação da economia americana. Isso mesmo, precária. Coloque-se no papel, realisticamente, todos os vetores e números do quadro geral dos Estados Unidos – balanço de pagamentos, saldo em conta corrente, déficit fiscal monstruoso, dívida pública de um PIB etc. etc. etc. Nem por isso vão quebrar ou deixar de cumprir seus compromissos, mas o corredor continua estreito. Não há qualquer possibilidade de aferir suas emissões; as picuinhas internas irão até o ponto em que entre em jogo o interesse nacional. Eles cuidam do país deles; que tal aumentar os cuidados com o nosso?

É hora do freio de arrumação. Somos uma gente de enorme potencial que ainda paga o preço do começo errado, da ocupação de quase três séculos e meio, dos travamentos de toda ordem e esbulhos sofridos desde o início da não colonização e da cultura do viver do dinheiro público. Há que se criar programas intensivos de formação e aprimoramento profissional e estimular as empresas a também fazê-lo – há farta disponibilidade de jovens com formação universitária ansiosos por oportunidades -, regular de forma a consolidar as posições conquistadas. Como escreveu o Sr. Kissinger, é preciso construir com solidez um novo cenário que se sustenha, ainda que, peço licença para o reparo em nosso caso particular, nem todos o considerem de seu interesse; números no papel, o que quer se faça, deve ser antes de tudo de interesse do Brasil.

Um país não tem amigos, tem interesses. Não foram os esquimós os formuladores do conceito. Como observadores aplicados e protagonistas do drama encenado no palco internacional, essa é a regra a, prioritariamente, ser observada.

Mãos à obra, Madame, que autoridade não lhe falta. E boa sorte!

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