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Foi há três bilhões de anos.

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As algas seguiram o líquido transbordante das crateras vulcânicas e voltaram a flutuar no oceano planetário, liberando nas águas e sobre elas, à medida de sua multiplicação, maciças quantidades de oxigênio, gás leve rarefeito enquanto se eleva, até esbarrar no espaço exterior, cuja fronteira, à altitude de cerca de seiscentos quilômetros, estabelece um limite para a atmosfera do planeta, dividida em camadas definidas a partir da troposfera – de dez a dezesseis quilômetros de altura conforme se estenda sobre zonas tropicais ou temperadas -, vindo depois a estratosfera, entre o final da troposfera e os cinquenta quilômetros, começo da mesosfera, estendida dos cinquenta aos oitenta quilômetros. Daí, até cerca  de seiscentos quilômetros de altitude, desdobra-se a ionosfera, região de temperatura além dos mil graus centígrados imediatamente anterior à exosfera, o espaço exterior.

Uma vez instalado o oxigênio, substâncias presentes nos estratos mais baixos iniciaram interações que modificaram profundamente o ambiente, produzindo-se no processo reações alotrópicas culminadas num sistema cristalino de propriedades físicas variadas em grande parte geradas pela interferência dos raios ultravioleta entre os vinte e cinquenta quilômetros, a ozonosfera, ou camada de ozônio, mata-borrão protetor do planeta que côa por absorção parcial a radiação ultravioleta, minorando o seu efeito nocivo. Não resultaria, no entanto, uma padronização climática; o clima variaria segundo as distâncias mutáveis Sol/Terra e o ângulo pelo qual as emissões solares atingissem sua superfície, influindo na temperatura, nas condições atmosféricas, na distribuição das chuvas, na vegetação, afetando poderosamente as características do planeta.

Profusamente liberado o oxigênio, tênue, dispersou-se e agregou-se às moléculas das substâncias surgidas na Terra. Associados, um átomo de oxigênio e dois átomos do hidrogênio – parte do líquido ácido no qual algas e ciliados flutuaram – formaram as moléculas de um produto transparente e evaporável que limpou o ambiente no qual a vida física errava incipiente; pairando em forma de nuvens, passou, quando adensado, a lançar-se no planeta na forma de chuvas límpidas e refrescantes. Novo cenário, novas sequências: a água, leve, não opondo resistência à pressão interna das células, provocou o rompimento do equilíbrio mantido pela contrapressão. Suas paredes cederam, fendendo a recém-formada membrana do plasma, delicadíssima camada de proteínas e lipídios produzidos no interior da célula, tecnicamente um organismo; a membrana, depois regenerada por adaptação num grau maior de resistência, ficou livre de novas rupturas, em virtude também de maior flexibilidade, provida pelo acréscimo ou exclusão de moléculas que a movimentação e o crescimento da célula passaram a provocar. Suas especificações finais a estabeleceram como um invólucro muito resistente que isola a célula do meio ambiente, abrigando-a de reações que a possam lesionar, controlando o trânsito de moléculas para dentro e para fora dela, desempenhando por esse modo papel crucial em sua alimentação. Às suas funções somou-se o auxílio no contato entre células e órgãos. Preservados nas células-filhas os atributos fundamentais das células-mães64, a evolução passou dos procariotes aos eucariotes65.

64— A célula é uma jóia montada com moléculas, elementos inertes de tamanhos variados. Um fascinante e delicado mecanismo medido em milésimos de milímetros, ela é, em si, tecnicamente, um organismo que nasce, vive e morre, se alimenta e se reproduz, a semente viva a partir da qual a vida física evoluiu dos organismos unicelulares dos procariotes –  bactérias e protozoários, por exemplo -, que desenvolveram rudimentarmente funções necessárias à sua sobrevivência, para a harmoniosa composição pluricelular dos eucariotes, animais e plantas. Uma usina miniaturizada e porosa, ela é cheia pelo citoplasma, um semifluido 65% água envolvido por uma membrana que o separa do núcleo. O organismo humano é formado por uma quantidade astronômica de células.

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© Onair Nunes da Silva – Terra; A Substantivação da Vida/A Conspiração         (Continua no post de 04 de março de 2012)

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