Em Davos, economistas com tempo de sobra e boa mesa, livre, discutem o sexo dos anjos: por quê os ricos estão mais ricos e os pobres mais pobres. O Brasil tem sido, não sem razão, demonizado pela perversa distribuição de renda. O mal, no entanto, guardadas as proporções, é global.

Nas convenções republicanas dos EUA os candidatos a candidatos para as eleições de novembro e seus assessores parecem divertir-se à larga tentando ridicularizar as políticas sociais da França. Para eles, deve prevalecer o capitalismo insensível, frio, com aqueles cacoetes já comentados neste blog; no Brasil, classes de rendas mais altas, que, nostalgicamente, se querem formadoras de opinião e parece não estarem gostando dos progressos das classes C, D e E – ranço de colonialismo – continuam estrilando com as medidas redistributivas do Governo Lula, mantidas pela Presidente Dilma. Esses inconformados precisam voltar sua atenção para a Bolsa Rico (ligeiro, mas esclarecedor, toque dado por Míriam Leitão em sua coluna – segunda página do Caderno de Economia de O Globo – de hoje, 28 de janeiro). Pesquisem um pouco a respeito; verão que as Bolsas dos pobres precisam ser deixadas em paz. No mínimo, no mínimo trazem mais consumidores para o mercado, beneficiando direta ou indiretamente o todo da Economia. Já a Bolsa Rico…

Redistribuição efetiva de renda não se dá por meio da iniciativa privada. A razão técnica dos impostos aplicados em benefício geral, com a justificativa teórica de que os mais ricos pagam valores maiores em função dos seus ganhos mais altos, é tendenciosa; o democrata Obama está mourejando para colocar os ricos na mesma tabela do income tax aplicada aos pobres mortais, aqueles generosamente beneficiados pelo Governo republicano de George W. Bush.

Na Zona do Euro há grupos querendo pague a próspera – até quando? – Alemanha a conta dos endividados do seu bloco. Em Davos, David Cameron, principal executivo da governança inglesa – o que dá tom oficial à dicção – postula mais recursos e garantias alemãs para resolver a crise do Euro (O Globo, Caderno de Economia de 27 de janeiro, página 24). Em todos os cantos do mundo percebem-se estímulos no sentido do descompromisso, coisas do bom-mocismo mediante as quais o bom-moço acaba beneficiado.

Acorda, Mundo. Ninguém vai meter a mão no próprio bolso para financiar a ineficiência, a imprevidência e a incapacidade dos outros de viverem a vida nos seus limites; como querem sejam feitas as coisas, os desavisados sempre encontrarão quem pague pela sua equivocada filosofia de vida. Querem socializar a crise em desfavor da Alemanha, cuja eficiência e disciplina dispensam apresentações. Socialização é para quem esgotou recursos e esforços ou a quem não se proporcionaram ferramentas para construir uma vida decente e meios de manter-se a si, aos filhos e de educá-los.

Este blog não tem bola de cristal; não precisou de uma para bater na tecla de que a Europa navegava na rota do caos, no qual acabou mergulhada, do modo mesmo que não se necessita de uma para antever o caos social em que o mundo mergulhará se todas e quaisquer Sociedades não se abstiverem de gastos para cujo atendimento não contarem com recursos, ou não revelarem disposição de se endividarem apenas no limite de sua capacidade de pagar o que tomarem emprestado. Comecem optando por uma vida mais austera, trabalhando um pouco mais e poupando intensivamente. É necessário produzir mais e mais riquezas e poupar, poupar, poupar; as populações não cessarão de crescer. Pode até não resolver a longuíssimo prazo, mas não há outro caminho. Ou há, sim: a Reserva de Aldous Huxley no seu Brave New World para os desassistidos. Um inconveniente, porém: modernamente boa parte dos desassistidos de todos os matizes tomaram por hábito rebelar-se contra os seus opressores, não apenas os que os oprimem diretamente, mas também contra aqueles que os exploram. Chegaram à conclusão de que morrer lutando por liberdade e por uma vida decente é preferível a morrer lentamente de fome, doenças ou sob o taco das botas oficiais quando estas já não lhes conseguem calar a vozes de protesto.

©Onair Nunes da Silva