Senhores, agradeço, comovido, a ansiedade com que aguardam os meus textos, copiando-os – quando podem – antes de totalmente formulados e mesmo enquanto digitados. Não, crasso engano, eu pessoalmente não sou um rebelde, não tenho qualquer paredão às costas e me sobra espaço à frente. Sou um cidadão no pleno gozo da cidadania, logo, tenho a lei como guia e o amplo e tranquilizador espectro que ela oferece ao cidadão de bem. Ninguém precisa de mais que isso, além de esforços próprios e algum talento para levar a vida. Eu pratico o individualismo, sim – bem distinto do egoísmo -, e culpas não me assaltam por isso; não sou exatamente um admirador do que vejo à volta nestes tempos permissivos. E do que não vejo, mas está por aí

Em sua Democracia na América, Alexis – Charles Henri Maurice Clérel – de Tocqueville discorreu sobre o individualismo, definindo-o como um comportamento calmo e seguro predominante nas pessoas tendentes a manter certo distanciamento das Sociedades como um todo, cujos regramentos, por inconciliavelmente divergentes com os seus princípios, não se inclinam observar.

Acolá de sua visão inicial, contudo, ampla e culta, de Tocqueville viu na democracia o cidadão independente, mas fraco, incapaz de realizar por meios próprios seus projetos de vida; viu, também, os EUA da época combaterem, quase de forma oficial, o individualismo. É necessário ler pelo menos os capítulos 2 e 4 da obra para entender esse posicionamento do marquês; apesar de liberal, era um aristocrata.

Modernamente, apenas o despotismo, também analisado por de Tocqueville, e o mais ferrenho conservadorismo excluem o homem do benefício geral de todas as coisas. O homem como espécie, pois, mesmo nesses contextos, tal ou qual casta, ala de amigos ou partidários são generosamente beneficiados. A democracia republicana evoluiu e nela liberdade e igualdade, pedra de toque e anseio de todo movimento libertador, marcham juntas, não separadas, como quis o marquês. Na verdadeira democracia o cidadão pode tudo o que não o proíba a lei. É verdade haver um bocado de gente esforçando-se para atrapalhar, mas essa é outra história. Seguir em frente é preciso.

NOTA – Hervé, quando escrevi Cornwallis e sua força naval, estava significando unidades da esquadra inglesa que protegiam sua retaguarda. Rochambeau, claro, também estava lá com os seus soldados, em número bem maior do que eram os soldados de Washington. O almirante de Grasse é menção indispensável quando se fala na Guerra da Independência dos EUA e eu referi apenas La Fayette (esta a grafia correta do seu título de marquês, Marie-Joseph seu nome pessoal, do Castelo de Chavagnac, na Haute-Loire) por haver se tornado para os americanos o mais ilustre comandante francês em sua libertação do jugo inglês. Além de competente, sabe como é, tinha o discreto charme da nobreza.

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