Quando David Delos leu, no noticiário das 13 horas (horário de Brasília) de anteontem, 16 de janeiro, o texto de abertura da entrevista realizada, não tínhamos na tela apenas um noticiarista fazendo, e bem, o seu trabalho; era um francês revelando na entonação da voz e no ligeiro crispar de fisionomia o desconforto provocado por uma situação à qual a França jamais deveria haver chegado. Não é uma questão meramente econômica; o investidor de peso, consciente, não deixará, no estágio atual, de comprar títulos franceses.

Publiquei neste blog uma série de posts iniciada com dados históricos predominantemente econômicos dos EUA e encerrada com a postulação da importância do país para a economia mundial – o que não é novidade -, centrada, porém, na verdade quase nunca abordada de que as suas lideranças precisam entender-se. Numa democracia as oposições têm de ser ouvidas, mas virulências e esquisitices hão de ser atenuadas e as divergências razoavelmente conciliadas. Em outras palavras, deixem o/a Presidente trabalhar, para o bem do país, reservando o fogo pesado paras as questões de fato relevantes.

Tecidas essas considerações, não se precisa ir longe para tabular a importância da França no cenário mundial, não propriamente econômica, mas considerada sob o espectro que aglutina todos os cenários, a base de tudo, cultural e histórico. Provavelmente as colônias inglesas do Novo Mundo não se teriam tornado independentes em sua primeira tentativa se de Grasse não houvesse navegado desde as Índias Ocidentais com a sua esquadra para rechaçar e derrotar Cornwallis e sua força naval; se Lafayette e seus soldados franceses não houvessem socorrido o plantador Washington nos caminhos da Virgínia, tornando-se, embora não se fale disso abertamente para o mundo, heróis da Guerra da Independência, em cujo centenário os EUA receberam da França a Estátua da Liberdade, originariamente uma estátua-farol, depois, com modificações, oferecida ao Egito, e recusada, quando da abertura do Canal de Suez, estátua e canal obras de franceses.

No Brasil, São Luís já foi francesa; até quase metade do século XX o Rio de Janeiro era uma cidade meio-francesa, e aqui como na São Paulo quatrocentona, em que o idioma italiano aportou com a mão de obra remunerada que substituiu a mão de obra escrava, o modelo cultural era francês. Moços e moças da melhor Sociedade aprendiam e falavam francês. O nosso idioma está eivado de expressões francesas literalmente traduzidas, nossa língua é repleta de galicismos. A França tem os seus pecados colonialistas – quem a escolheu como segundo país e ao francês como segundo idioma está à vontade para falar sobre isso -, a exemplo da guerra da Argélia, mas, do mesmo modo que os EUA, precisa ser preservada pelo bem da moderna cultura e simbologia libertária ocidental, EUA inclusos. É necessário cercar de cuidados um país como a França.