O propósito de A Conspiração – no fundo, no fundo uma alentada reflexão – se contém na parte final do primeiro parágrafo dos APONTAMENTOS (parte deles no post de 5.6.2011):

(…), um tesouro para os que lavram na seara da consciência, capazes de arrostar a si mesmos, enfrentarem-se na crueza de sua natureza galvanizada e reverem-se à luz de novos conceitos.

O post do último domingo, 8 de janeiro, embasa parte do escopo do trabalho, ampliado em capítulos próprios. A espécie humana é produto imperfeito de uma adaptação evolutiva que lhe deixou por escolha permanecer dúplice e contraditória, ou, de início, sublimar seu lado inumano para, em etapa posterior, alçar-se ao espírito sem impor-se a santidade ou o heroísmo. Não é empreitada de somenos.

Um dos mais difíceis problemas da evolução pessoal está em que este nosso mundo não é exatamente um lugar onde pessoas estão reunidas para cuidarem umas das outras, onde a verdade por inteiro, a honestidade intelectual e existencial, a inflexibilidade ética e moral constituam regras gerais de conduta. Manter-se em linha com esses quesitos na necessidade incontornável de desenvolver as atividades próprias do manter-se e exercer atividades produtivas obriga ao convívio com a disparidade de caráteres formadora da ampla escala de comportamentos característica do homem. É neste território selvagem que as castradoras normas não escritas e as vocações de domínio se manifestam. Trecho do LIVRO VII – CÁTAROS, UM GENOCÍDIO, escrito em contexto atípico, tem o que dizer a respeito, aplicável ao dia-a-dia com as reduções ou ampliações de cada caso em particular. Transcrevo-o.

(…)

Extrai-se de certos temperamentos uma psicologia do rebelde, padrão de comportamento comum àqueles que, espoliados dos seus bens intangíveis, pessoais, jurídicos ou religiosos, sociais ou políticos, reagem, sendo, então, rotulados pejorativamente por pretenderem direitos entranhadamente seus.

Esse rebelde é em regra um “excêntrico” que alimenta a presunção de ter a lei por guia, regras pessoais de conduta e metas não alinhadas, o que o Sistema, em virtude de sua “engenharia” e de suas rotinas não abona. É, permanentemente, alguém com um paredão às costas e nenhum espaço à frente, cuja alternativa não acolhe proposições, antes se reduz a um caminho estreito de direção única; alguém a quem opção alguma é oferecida além de aderir, alguém que, não praticando o senso comum, se propôs lutar para não usufruir de “privilégios” que dispensa. Pôr-se desse modo o ato inflexível de rebeldia enseja sua compreensão mesmo por aqueles habituados a olhar para o outro lado e mesmo do ponto de vista do observador afeito à mais rigorosa disciplina política, social e religiosa, que não questiona, não contesta e se amolda ao que outros decidem, legalmente ou não, com justeza ou não, ser melhor para ele/ela. Sob essa ótica, passa a ser compreensível, exceto para “o homem de bom senso”, o pragmático de determinadas Sociedades ou comunidades – na hipótese uma sinonímia para cínico ou acoelhado – o fato do rebelde extrair da dor e da adversidade, e mesmo da vida sob risco em contextos de autoritarismo extremo, um estado de inteireza sequer ensaiado pelos habituados ao jugo, agradecidos e felizes por serem peões num tabuleiro de regrados para cuja instituição não foram consultados e relativamente aos quais nenhuma conta lhes é prestada, que aceitam de bom grado formas de liberdade, falácias, desvios da verdadeira liberdade à qual nunca aspiraram, com a qual nunca sonharam, contentes com a vileza da liberdade outorgada, sem atentarem para que não é de ninguém, ou consubstancial a qualquer corpo social decente, formado e liderado por pessoas honradas, o poder de conceder liberdade e fixar-lhe o grau, simplesmente porque liberdade não é algo “in quarto”, que comporte formatações; ela é, ou não.

(…)

A Saga do Justo – ver post – resume a proposição. Não basta decidir ser melhor a cada dia do que se foi no dia anterior, impõe-se deixarem. Como, por via de regra, isso não acontece, há que abraçar-se o individualismo – não o egoísmo, repito -, habitualmente caminhando só e apenas concertando-se com os iguais, estóicos com quem não se esbarra frequentemente em cada esquina, em cada canto de rua. Eles também caminham solitários com a verdade por inteiro, a honestidade intelectual, existencial, a inflexibilidade ética e moral. É preciso saber onde estão, encontrá-los.

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