NOTAS INICIAIS

1. Respostas me têm sido pessoalmente reclamadas para e-mails enviados a onairnunes@yahoo.com.br sobre matéria postada neste blog. Nunca os recebi. É algo, no entanto, que não me chega a surpreender. Já alertei aqui mesmo quanto à manipulações com o meu nome e do blog para causar-me embaraços. Para entrar em contato comigo usem por favor onairnunes@rocketmail.com  Se algo anormal ocorrer, debitem a esquisitice às manipulações a que me referi. Com o passar do tempo eu perceberei e voltarei a conversar com vocês a respeito.

2. Visitem minha página em http://www.twitter.com/Vallesi

Em A Saga do Justo falo dos caminhos que feriram os pés do Adriano adulto, mas o curaram de si mesmo e podem curar qualquer homem de sua animalidade ancestral. Em direção a Paris, acabara de deixar o Castelo, onde, ungido, ouvira do seu velho mestre as palavras do poema, que ainda ecoavam em seu cérebro.

O homem terá surgido por resultado de uma adaptação, o córtex cerebral, onde está a centelha que o humanizou, envolvendo o hipotálamo, sede dos instintos, sem dominá-lo. Coube a essa criatura dúplice, misto de réptil/fera e cria dileta do Cosmo curar-se dos instintos, de si mesmo. Transcrevo trecho do post de domingo, 12 de junho de 2011, um excerto de A Conspiração e reflexão sobre como teria tudo começado.

(…). O projeto elaborado a partir da Vis Viva especificaria seres únicos, para a grandeza, categoria de semideuses planejada para a celebração da beleza. Algo, todavia, sairia errado; o peixe que se arrastaria desajeitado para a terra de um planeta distante na eternidade da Criação feita evolução não inauguraria uma descendência apta a relativamente breve e saudável desenvolvimento, mas, ao invés, seres escamosos, saltadores, rastejantes, efeitos do sangue frio, falhos de potencial evolutivo, presos aos pântanos, insuscetíveis de otimização, indistintos e imperfectíveis, propagados num amplo leque de excentricidades, criaturas sem sombra, tão rasteiras, uma perspectiva assustadora. Maculada, a idéia original imergiria na celeuma das espécies e com ela a raça semidéia, anelo da inteligência primordial.

Abortar o projeto seria a solução natural; demasiado longo, porém, o caminho percorrido, havia sido tocado o ponto de não retorno. Rever os programas, reinstalar o processo seria talvez o passo mais lógico, todavia inexequível. O recomeço exigiria, além da reformulação dos programas, nova especificação dos componentes físicos do planeta, pré-requisito para viabilizar sua execução; complicado, melhor mudar de planeta, mas o que fazer depois com ele? Abandoná-lo, simplesmente, quando já formatado? Constituíra-se um alentado banco de dados e um consistente conjunto de informações que permitiria uma recombinação de instruções na hipótese de simples revisão do projeto, se bem que, sopesadas as probabilidades, a opção envolvesse riscos, mesmo para a prodigiosa inteligência reitora da evolução. Adaptações feitas resultariam em um ser híbrido de naturezas opostas movido por criaturas antagônicas, uma delas, num cérebro novo, inteligente, outra, a besta do cérebro antigo, só instinto; os riscos ficariam por conta de provável insubmissão desta e na possibilidade efetiva de se tornar invasiva, gerando na criatura do cérebro novo condutas colidentes com a razão de sua constituição, tornando-a incontrolável por ser dotada de inteligência.

Precário o desenvolvimento do projeto nessas condições, extinções em massa eliminaram no geral os exemplares imprestáveis e preservaram os de menor dispersão de características para se desenvolverem de modo alternativo, mas conciliável com o modelo planejado de vida física para o planeta, perdido quando de sua implantação. Desse processo resultaram produtos os mais diversos, a peçonha de cobras e lagartos, a obtusidade das tartarugas, o tronco estacionário dos grotescos e vetustos crocodilos e jacarés, os répteis aquáticos e voadores, o dinossauro ancestral, de poucas raças, que terão desenvolvido mecanismos de sangue quase quente, aves, os pássaros com seu canto mavioso e suas cores deslumbrantes, além do sinapsídeo, ascendente direto do ornitorrinco e chassis do primeiro animal de sangue quente, matriz do produto alternativo possível, pai de todos os mamíferos, do mono, ancestral em linha direta dos primatas, do homem, realização provisória, carente de aperfeiçoamento, uma espécie indistinta de santos e de monstros, de heróis e de poltrões, tal ou qual coisa, em seu íntimo todo um universo, todos os infernos, uma quantidade de paraísos, necessitando, para aperfeiçoar-se, de infinitamente mais verões e invernos do que uma simples existência lhes poderia proporcionar. Selvagens de origem, boa parte assim permaneceria mesmo quando, decorridos muitos milhões de anos, uma quantidade deles houvesse deixado ao longo de muitas existências bocados de sua selvajeria e se tornado capaz de afeto, de chorar os seus mortos em comovidos preitos de saudade, e de, chegada a primavera evolutiva, acalentar sonhos e ideais, orar em canções eternais  para não enlouquecer com a cantilena monocórdica dos arautos da rotina, não se enfeitiçar com o cantochão das manadas e não se deixar entontecer pelo incenso dos santarrões incapazes de descortinar um milímetro além de sua peculiar banalidade e desenredarem-se da crueza selvagem muitas vezes encoberta por um esfarrapado manto de polidez ou santidade.

Não mais que um punhado em cada geração, uns poucos, resgataria a pureza maculada nos charcos pré-cambrianos onde materializada a vida a partir de protozoários, enquanto uma inumerável quantidade de toscos, brutos e lamentáveis celebrantes da mediocridade, reduzidos a si mesmos, permaneceria fera, réptil, ameba, no limiar, os estacionários da espécie.

Configurado a partir de criaturas privadas de atributos intelectivos, produto de fatores humanizantes combinados ao longo de um espinhoso processo, o ser inteligente emergiu hesitante de um complexo acumulador de neurônios destinado, sobretudo, a neutralizar o instinto e a controlar as emoções. Tal resultado não seria obtido quanto à generalidade da espécie; o cérebro antigo resistiria obstinadamente, lutaria para fazer prevalecer o limitado e rudimentar conjunto de programas por ele operado desde as mais antigas versões da vida substantivada. A besta jazeria no mais fundo da criatura inteligente, ébria do cheiro de sangue gravado na memória da espécie, descendo-lhe às narinas, estumando-a, estimulando-lhe o bocado selvagem.

Combinando fatores tardios, a evolução reprogramaria exemplares primitivos isolados, provendo-os de meios para evoluírem no sentido da criatura superior possível, capaz de interagir com os seus semelhantes e a eles associar-se na utilização útil do seu hábitat. E lograria, à medida do desenvolvimento de sua potencial habilidade, adaptá-la, melhorando-lhe a conformação das mãos e adequando a visão à vida operativa. Suas cordas vocais, rudimentares, seriam reordenadas para possibilitar a comunicação via sons articulados, habilitando-a à troca de experiências, à transmissão e partilha de conhecimentos para não desaparecer com ela o conhecimento adquirido, poupando os seus descendentes do esforço e do desperdício, de reaprender a partir do zero o quanto necessário para a sobrevivência, ou lhes valesse para escrever a própria história. Coroando a remodelação, foi-lhe acrescentado, sem vinculação com o limitado dispositivo original acelerador das forças biológicas e de controle orgânico, um mecanismo de funções típicas que lhe ensejaria, a par da evolução da forma, evoluir no sentido de especificidades que distinguiriam a sua espécie das demais do planeta, preparando-a para refletir sobre si mesma e afastar a animalidade da origem. Um complexo encefálico único seria estendido, a partir da região olfativa, por toda a área superior e anterior da caixa craniana, abarcando o dispositivo original, o cérebro antigo.

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