Volto ao padrão: quartas-feiras assuntos gerais, domingos A Conspiração.

Abrindo conferência na Universidade de Columbia, Nova Iorque, em novembro de 1906, William James (1842/1910), filósofo do Pragmatismo, professor em Harvard, referiu o prefácio de Heretics no qual Chesterton se declarou um crente  – entre outros – do princípio de que o fundamental num homem é a sua visão de mundo. Entre citações, destaca como questão central não a possibilidade da teoria do cosmos afetar os negócios, mas a possibilidade de alguma coisa poder afetá-los; e lembrou tese em que um estudante dissecou suas idéias – de James – revelando a convicção de que ao ingressarmos num curso de filosofia temos de nos identificar com um mundo inteiramente novo, diferente daquele a que estávamos habituados.

Lembrei-me de James numa reflexão abrangente sobre o caos econômico/financeiro no qual está mergulhada a Europa, perguntando-me, a reboque de tema discursivo do filósofo, se a União Européia e os países do Pacto do Euro estão preparados para ingressar numa eclética classe de filosofia que implique acima de tudo em um contrato, aquele pacto em que, na melhor acepção da teoria dos contratos, as partes abrem mão do seu poder de decisão, apenas podendo agir de modo diferente do estabelecido nas cláusulas do documento se contarem com a aquiescência de todas as outras. Rememorando post em que mencionei a tendência criativa de certas manifestações da teoria econômica e fazendo a leitura do status da União Européia, obediente, até com lógica, ao seu absolutismo conceitual, perguntei-me se criar regras para adaptar a realidade à sua visão de mundo, ignorando os fenômenos econômicos instalados, tem chances de funcionar.

É quase impossível imaginar Alemanha e Grécia vivendo sob um mesmo regramento cambial – ou carente dele – quando se consideram os antecedentes e os desdobramentos – implicações – econômicos/ financeiros/administrativos; de igual modo, como colocar num mesmo cesto França e Portugal, ou mesmo Itália e Espanha? A Itália, há bastante tempo – 10 anos? –, devia 110% do seu PIB, hoje deve 120%. Ninguém paga uma dívida como essa pelos modos correntes e chega o momento em que até rolá-la fica difícil; os investidores preferem comprar títulos Americanos com juros negativos do que investir em Grécia et caterva no estado em que se encontram. Mesmo quando investem, os juros, nas circunstâncias atuais, são quase extorsivos. Alemanha e França estão sendo levados de roldão nessa caudal; a Inglaterra é espectadora, nem tão isenta de consequências assim. O país tem estudantes prostituindo-se para pagar os estudos, um efeito colateral muito sem graça, embora não tenham necessariamente de seguir esse caminho. É pragmatismo demais.

Não há como fugir ao fato de que moedas supervalorizadas não ajudam em situações como a vivida pela Europa; as cotações do euro, aliás, com suas quedas em meio ao natural nervosismo, precipitaram as coisas. Desvalorizá-lo? É, tecnicamente falando, o caminho mais curto para desatar o nó, se é que existe outro, de curto prazo, para atenuar os efeitos colaterais. Difícil, contudo, pois a UE não foi corporificada por razões econômicas, mas políticas. Ao Bloco Europeu não parece restar alternativa outra senão operar como um país; embora a indispensabilidade da gestão política e a manutenção da soberania dos países-membros, não pode virar as costas para a gestão econômica centralizada. Precisa de alguma coisa parecida a uma Controladoria com um sólido Banco Central para desempenhar o papel de regulador do fluxo da moeda, autoridade para fazer flutuar o câmbio em todo o Bloco e integrar os “departamentos”, leia-se países, sob as mesmas rotinas fiscais, além de uma Auditoria para acompanhar sua aplicação e reportar desvios.

Problema: a Inglaterra com a sua Libra em elevado patamar cambial, e, por extensão, as nostalgias alemãs do seu Marco. A Velha Albion, vinculada por razões históricas e culturais aos Estados Unidos, é uma cunha na almejada couraça da União Européia.

O orgulho europeu terá, possivelmente, de submeter-se a alguma coisa como essa. Quem souber de algum modo efetivo, indolor e diferente para preservá-lo, e ajudar, precisa informá-lo, correndo, à Chancelaria Alemã e à Presidência da França.

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