(Continuação a partir do final da quinta página. Ver post)

Surgiu uma nova espécie, o crânio alcançando 850 a 1.250 cm³, o peso chegando a 70 quilos; a pelve, redesenhada, mais larga e mais baixa, arredondada e funcional, e os fêmures reposicionados, tornaram possível idas e vindas mais frequentes, longas caminhadas, por distâncias maiores. Então a mesma lei natural que tirou os seus antepassados da floresta a fez migrar, redirecionou-a na busca de novos horizontes, de lugares melhores e mais seguros para viver.

O mundo se transformava continuamente e a espécie, adaptando-se, mudava com ele, de lugar, de comportamento; o cérebro seguiu crescendo em tamanho e complexidade, melhorando a aquisição de conhecimentos. Colhendo e quebrando pedras para produzir ferramentas, pontas de lanças e dardos, as centelhas surgidas dos golpes e do seu atrito com superfícies duras não terão deixado de ser notadas; o fogo foi pura questão de tempo, dos experimentos de um exemplar mais curioso e criativo. Utilizado para iluminar, aquecer cavernas e afugentar animais noturnos, logo começou a cozer alimentos. A permanente improvisação e a constante necessidade de criar, geração após geração, fez o cérebro variar na escala 1.250/1.350 cm³, ocupando cada vez mais espaço na caixa craniana, ampliada no ritmo de sua expansão.

Passou o tempo; grupos nômades de erectus e heidel foram para o norte, alguns pelo litoral, outros pelo interior, atravessaram o atual deserto líbio pelo sudeste e cruzaram a região onde hoje está o Egito. Além Cairo, venceram pelo extremo nordeste o que é modernamente o Canal de Suez e penetraram o oriente médio através do que é atualmente o Iraque, de lá espraiando-se para o oeste europeu e leste da Ásia de nossos dias.

Grupamentos diversos formaram-se a partir de elementos culturais comuns, alguns dentre eles constituindo-se corpos sociais complexos com regras de governo compreendidas na forma de domínio característica de cada grupo vencedor dos combates travados no desdobrar das rivalidades intergrupais. Delineado o perfil da espécie, o gosto pela conquista marcou de vez o seu caráter; disseminados ao longo da faixa leste do continente, australopitecinos, ergasteres, erectus e heidelbergensis exterminavam-se ferozmente, todos contra todos, submetendo violentamente os vencidos e impondo-lhes os princípios do seu estrato cultural. Os mais obstinados, ou aqueles por qualquer razão malquistos pelo vencedor, sofriam penas que iam da execução sumária a pauladas à expulsão, passando por maus tratos e trabalhos forçados ao sabor do humor dos vencedores.

Desse caldo de culturas emergiu, em grupos pequenos e isolados, um tipo diferenciado de indivíduo, a índole livre e independente. A vida dura (…)

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