Ontem, sábado, 22 de outubro, em O Globo, pagina 6, Cacá Diegues, comentando sua visita ao acampamento do `Ocupem Wall Street` no Zuccotti Park, em Nova York, e declinando sua visão do movimento, referiu um homem alto, magro e informalmente bem vestido carregando um cartaz no qual escrito “Os sionistas controlam a economia americana”, com uma moça baixinha em sua cola dizendo em seu próprio cartaz “Não concordo com ele”.

 O homem alto, magro, a moça baixinha e os seus cartazes me vêm a propósito do contraditório, regra pétrea para qualquer pessoa, regime ou sociedade que se dê o respeito. Sempre haverá o outro lado, é preciso ouvi-lo, considerá-lo. Essas referências remetem ao post de sete de outubro, no qual Steve Jobs aparece como exemplo do individualismo sadio, do talento inovador que não segue as `regras` gerais de comportamento, antes orienta-se estritamente pelo comando legal. Ele não deve ter feito nada errado, pois, num país onde a mulher flagrada em adultério pelo marido por meio do GPS do novo iPhone – obra de Jobs – cogita acionar a Apple ou o próprio marido traído por invasão de privacidade, houvesse ele feito algo irregular ou ilegal teria sido de pronto processado, e, sem duvida, condenado.

Stephen Wright – Overland Literary Journal -, na mesma data do post escreveu sobre Jobs e sua morte. Reproduzo em tradução boa parte do artigo, devidamente autorizado:

Eu não sou, certamente, a única pessoa que ao ver a histeria meio doida provocada pela morte de Steve Jobs surpreende-se murmurando insistentemente “Foxconn, Foxconn”, como se estivesse entoando um mantra protetor. Se eu ouvir mais uma viúva do Jobs dizendo, enquanto acaricia carinhosamente seu iPhone, que ele era um gênio, eu provavelmente vou vomitar no meu café da manhã.

Pode até ser verdade que Jobs redefiniu a maneira como pensamos o telefone, os computadores pessoais e os tocadores de música; é, provavelmente, um grande feito juntar tanta gente brincando de sabichões tecnológicos . (…), o iPod, agora, é o seu leitor de música. Mas, ainda assim, o seu iPod/iPhone/iPad não caiu do céu e muito menos deu um pulo direto da mente olímpica de Steve Jobs para o seu bolso.

De qualquer forma o que Jobs tem promovido é uma espécie de estranho e sinistro fetichizamento universal da tecnologia. A Apple fez um monte de coisas muito atraentes justo no momento em que nossos laptops e telefones celulares estão se tornando partes indispensáveis ​​do nosso dia-a-dia. A Apple levantou o bastão, depois consagrou-se na liderança em nível espantosamente baixo. Quase todos os bens de consumo que compramos, de carros à mobília do quarto, são tapeações. Eles são mal concebidos, não duram e custa caro repará-los, computadores ainda mais. Basta poucos dias de uso de um PC com Windows para despertar em você uma raiva e um impulso predatório que não sabia possuir.

A fetichização dos itens tecnológicos de uso pessoal que Jobs e a Apple iniciaram e para a qual nos prepararam realmente me assusta. Envolve uma série de coisas ainda mais assustadoras: o tipo de vida sexy controlado pela Apple ao qual Jobs e sua equipe de apoio nos quer levar, a excitação febril e global que se manifesta sempre que a Apple faz uma pequena melhoria num iPhone ou laptop (é mais fino, ou rosa ou o que mais seja), e o fato inegável de que os seus produtos são produzidos com bastante sofrimento. Se eles vierem com uma mão sangrando como marca, ao invés da extravagante maçã mordida, seria uma sinalização mais compatível com os nativos que os produziram. E nós, ainda assim, provavelmente os compraríamos.

George Orwell acreditava, com relação ao carvão, que, se necessário o trabalho escravo de mulheres grávidas para produzi-lo, deveríamos considerar que esse é um preço justo. O mesmo vale para a nossa tecnologia pessoal. Qualquer pessoa que tenha acesso à internet (…) sabe que a Foxconn é o inferno na terra, onde as crianças são empregadas sob condições de trabalho extremamente ruins, onde as pessoas estão morrendo aos poucos a cada dia em lugar de enfrentar apenas mais um dia de trabalho ou são rotineiramente mutiladas no decorrer de suas tarefas para produzir itens da Apple e depois descartadas como refugo. É um fato corriqueiro da vida de ricos consumidores em contraponto a um mundo pobre e miserável. Nem todos no mundo vivem na minha e na sua situação econômica (…). Nossos iPhones foram produzidos por trabalho infantil, (…)

Ou talvez tenhamos perdido nossa capacidade de pensar, se alguma vez a tivemos. Eu não estou falando do processo discursivo (…) ou mesmo sobre o seu nível de consciência política, estou falando da sua capacidade de apreender o que se passa na mente de outra pessoa, no que isso significa.. Nossos iPhones foram feitos por crianças reais, realmente crianças reais. Outro ser humano de fato cometeu suicídio porque não podia suportar mais um dia fazendo a porcaria dos nossos iPods. E assim por diante. Se eu puder olhar para o meu produto da Apple e não pensar que alguém realmente sofreu para fazê-lo é porque o produto da Apple foi estampado em minha mente pelo poder de convencimento de outra pessoa. O iPod, cria de escravos, sempre vence.

Às vezes me sinto como se fosse parte de uma família da Máfia, não posso sair. O paraíso de consumo em que vivemos é uma tremenda porcaria, não vale nada, compra-nos com ilusórios objetos-fetiche, é absurdamente cruel, imensamente destrutivo para outras formas de vida, assim como para os seres humanos, e faz com que todos nos tornemos culpados. Estabelece uma espécie de ” Armadilha de Macbeth “, situação em que, protestando ou discordando, assumimos o fato de que conexões do tipo Apple-Foxconn estão por toda parte. Macbeth decidiu que ele poderia muito bem seguir matando porque já tinha muito sangue nas mãos; a partir daí nada faria diferença. É um argumento com o qual alguém me lembra da lição que Foxconn nos ensina: ‘Bem, cada um é tão ruim quanto o outro, então não faz diferença se eu comprar um produto da Apple. “

(…). Este é o mundo em que vivemos. As consequências políticas de escolhas aparentemente não-políticas que fazemos estão sempre presentes. Não há qualquer escolha não-política que possamos fazer, e quase todas as escolhas que nós, consumidores, fazemos tem efeito destrutivo; é o mundo que construimos e qualquer pessoa sensata tem que assumir que ele só vai piorar. Como uma vida consegue se manter nesse estranho país das maravilhas é outro assunto. Alguns de nós desenvolve doenças mentais graves no esforço de adaptação ao Sistema, alguns de nós já prejudica outras pessoas, alguns de nós se tornaram fascistas, e todos nós, em certa medida, desenvolvemos estranhos sintomas de um tipo e outro (Alguns de nós tornamo-nos escritores, por exemplo). Mas, ainda assim, em meio a tudo isso, entender o que está acontecendo, tentar compreender porque essas coisas acontecem e alcançar um certo controle sobre aquilo que nos diz respeito é fundamental para a nossa própria existência como seres humanos.

Steve Jobs não era um santo, era um empresário. Empresários em geral querem ganhar muito dinheiro, fazer da sua idéia a grande idéia, se não a única idéia, e não estão muito preocupados com o que tem de ser feito para isso acontecer. É a ética corporativa usual comum a bancos e companhias de petróleo, na qual a Apple se enquadra.

Um computador ou um telefone é apenas uma ferramenta. Não é o seu/sua parceiro/a sexual, não é sua mãe ou seu melhor amigo. É equivalente à sua máquina de lavar roupa. A genialidade de Steve Jobs foi convencer-nos de que um brinquedinho da Apple era uma espécie de brinquedo sexual que poderia falar com você, algo que você poderia amar e que o amaria, que seria um amigo divertido e amorável para sempre, (…). Steve apenas o imaginou com a sua mente genial, e lá estava ele, todinho só para você.”

É o contraditório, rigorosamente indispensável. Apenas não posso deixar de pensar nos demais homens de negócios, americanos ou não, cujos  produtos são fabricados no oriente longínquo em razão dos custos; e nas grandes Corporações orientais que despejam sua produção mundo afora.

Por que Jobs? A encarar-se a questão do ponto de vista do articulista, eu, você, Wright – ele usa um iMac – e os consumidores em geral por todo o planeta não teríamos, também, as mãos manchadas de sangue humano?

Salvo por questões técnicas e legais, não discordo de Stephen Wright. Havendo o assunto sido levantado, não custa darmos uma boa refletida a respeito.

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