(Ver índice do blog no post de 11 de setembro)

As homenagens a Steve Jobs, sua aversão às normas de comportamento padrão, seu profissionalismo inflexível e o fato de não dar a mínima para as idéias ou preferências do consumidor potencial, ao mesmo tempo em que colocava a seu serviço toda a criatividade, perfeccionismo e capacidade de realização do homem título, reforçam, se não consagram, um dado existencial importante: o ser humano essencial está além do convencional. Não é da índole rotineira, extrai-se dele, do lugar-comum, do bom-mocismo e do politicamente correto que se alimentam os forjadores de sonhos e artífices de sua realização.

O ser humano especial tem algo de estóico e muito dos seguidores da Escola Cínica; nestes tempos modernos, o manto surrado, esfarrapado, o alforje e o cajado têm formas próprias, acordes a época. O fundamento, porém, permanece o mesmo das origens: não há nada que te impeça de ser admirado, se fores impudente e ousado, e aprenderes a insultar direito as pessoas (itálicos de Luciano de Samosata, Vidas à Venda, 9-11; Hamon et al., 2.466-471, apud John Dominic Crossan, O Jesus Histórico, Imago, Rio de Janeiro, 1994, p. 122, Tradução de André Cardoso).

O Cínico Jobs consubstanciou seu cajado na inteligência brilhante e no ‘i’ de iPad e outros achados tecnológicos da sua quase totalmente vitoriosa capacidade criadora; o seu manto, reluzente, foi tecido com a sua exponencial habilidade mercadológica. Em seu alforje, adequado às vias do mercado trilionário por onde transitaram seu talento e seus pés, não descalços, como quando do florescimento do cinismo no período posterior a Alexandre, mas protegidos, provavelmente, por finos couros-cromo, restaram por monte mór 8 bilhões de dólares, certamente bem menos do que poderia ter carreado para a sua fortuna pessoal, fosse ele tão essencialmente comerciante como é/foi o sr. William H. Gates, III, que integralizou suas ações originárias na Sociedade fundada com Paul Allen utilizando economias formadas com o produto de noitadas de pôquer nos dormitórios de Harvard. Talento é talento.

E daí, se foi com o dinheiro do papai?

Ele, Jobs, deixa uma lição preciosa: o individualismo – não o egoísmo –, brotado da Revolução Francesa, é perfeitamente viável, não, embora, para qualquer um, e, sob muitos aspectos, benéfico. Os individualistas não se prendem a regras de grupo, frequentemente castradoras, não raro orientadas para vantagens pessoais, especialmente dos mentores e senhores das regras padrão, nem se deixam tolher por ciúmes e invejas. Finalmente: quem trabalha para realizar os projetos do talento, não o faz em sua homenagem, mas para ganhar dinheiro na esteira de sua capacidade criadora.

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