Erguendo a cabeça, pousou por um instante o olhar na sepultura de Batoi e Convar, um adeus mudo. Em seguida levantou-se, voltou-se para a vasta campina estendida até o sopé da montanha e demorou-se em cada detalhe da paisagem luminosa, a moita de capim empendoado, as flores; desejou absorvê-los, embeber-se deles à saturação, gravar suas pequenas belezas, cada nuança, cada detalhe para estampá-los na memória de Iogar. Queria que ele se visse naquele lugar e soubesse o quanto haviam sido felizes ali.  

(Flashback – O processo evolutivo até Iushi) 

Após a segunda grande extinção a Terra repovoou-se, um elenco de criaturas estranhas, desengonçados paquidermes gigantes, céleres equinos carnívoros, felinos de longos e pontiagudos caninos, meios-cães enormes, esquivas feras menores, predadores em abundância, todos caça e caçador. Debruçado sobre esse quadro, Darwin, em 1842, nas notas de revisão do esboço da Origem das Espécies, que o orientariam na edição do texto final de sua obra, aludiu observações de De Candolle sobre a guerra permanente travada entre organismos, destes contra o meio onde vivem e nossa visão da natureza como perfeita e acabada representação da paz, dando-nos o seu depoimento sobre essa guerra recorrente a ciclos regulares, tanto mais violenta quanto mais longínquos os tempos. E foi naqueles tempos de violência extrema, quando tigres dentes-de-sabre e manadas de cavalos de presas mortais andavam pela Terra caçando que os frágeis mamíferos, sem chances na competição desigual com os seus predadores naturais, subiram às árvores.

Foi lenta a adaptação dos emigrantes do solo às exigências do seu novo mundo. A desajeitada e custosa locomoção nas alturas transformou membros dianteiros em braços e patas em mãos, as quais, com a ajuda das garras podiam firmar-se nos galhos; a movimentação para todos os lados, os giros de corpo precisamente direcionados a pontos certos forçaram as articulações de mãos e ombros, alongando os braços e dando-lhes com o passar do tempo ampla mobilidade. Não mais necessitando escarafunchar alimentos, os focinhos encurtaram, achataram-se e constituíram-se caras, concorrendo para deslocar os olhos, um de cada lado da cabeça como fora desde o surgimento dos seus antepassados répteis, para uma posição lado a lado sobre o nariz, voltados inteiramente para frente, possibilitando-lhes o registro e a fixação do vetor do foco, um exercício instintivo de cálculo vetorial na busca do segmento de reta através do qual deveria se orientar o salto, demanda da autopreservação, questão mais importante que qualquer outra, exercícios cada vez mais intensos e complexos que aumentaram o cérebro do mamífero arbóreo melhorando os seus mecanismos. Em mais 10 milhões de anos ele era um dócil bichinho semelhante a um ursinho de pelúcia com uma proveitosa relação cérebro/corpo, braços e pernas longos e delgados, como a cauda, dono de negros e atentos olhinhos aprisionados na carinha simpática gravada em uma cabeça redonda de orelhas grandes, igualmente redondas, e de um pequeno nariz arrebitado, seco porque para sobreviver não dependia do olfato, mas da visão e da audição, herança dos…

(continua)