EPÍGRAFE
“O que, então, distingue o cérebro humano do não humano? Será apenas uma questão de tamanho e número de células? Se assim for, seria justo afirmar que (…) não há grandes diferenças entre os humanos e alguns dos grandes macacos, ou até mesmo dos golfinhos. Qual é, então, a diferença quantitativa que deve resultar nesta tão profunda diferença qualitativa? Creio estar aqui envolvida uma combinação de fatores, e não apenas uma única transformação humanizante.” (Steven Rose, O Cérebro Consciente – Alfa-Ômega, São Paulo, 1984, p. 185 – Tradução de Raul Fiker, Supervisão da Tradução Sérgio Paulo Rigonatti)

 

 

Encolhida, Iushi chorava debruçada sobre o pequeno amontoado de pedras sob o qual estavam sepultados Convar e Batoi, seu pai  e sua mãe, próximos a Lorai e Ienu, mãe e pai de Daruz, também mortos na revolta incitada por Mentor, caudilho cruel que dominava as tribos da região por pressão sobre os seus líderes. O lugar era muito verde e amplo, uma planície florida de escassas e frondosas árvores cortada quase a meio por um ribeirão largo e raso correndo transparente em leito de pedriscos e areia, branca de ofuscar a vista, cujas águas despencavam-se pela encosta da grande montanha onde à noite abrigava-se a grande luz, afadigada de sua longa caminhada pelo céu.

Sofrida, apertou os olhos como se pudesse, assim, sofrear a imensa dor que lhe ia à alma; depois se aprumou e sentou-se na relva. Batoi, ela e Convar eram daqueles exemplares que por melhor processarem os fatores evolutivos destacaram-se em sua comunidade, os neanders. Acasalara-se com Daruz, cria de Lorai e Ienu, da tribo heidel, agregados ao aldeamento liderado por Convar; neanders e heidel dividiam o vale com os erectus de Mentor, liderados por Damur, e com os ergaster, mais ao longe. Parira a Iogar, um exemplar macho, traços do pai, corpo longilíneo e ágil como o seu; inteligente e perspicaz, aprendera com ela, adestrada pelos pais desde bem pequenina, a exprimir por guturalização símbolos estáveis relativos a formas, objetos, fatos e sensações, antecipando laivos de humanidade nela manifestados naqueles tempos, que sabia finais. Estava ali pela derradeira vez, logo partiria para sempre. Agoniada, doía-lhe sentir o chão de origem fugindo-lhe sob os pés, a agonia da saudade pressentida, emoção humana, por definição, o medo do desconhecido, uma aflição enorme devorando-a.

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