Escólio:

Nada há de mais nobre e necessário, senão fundamental, em uma democracia do que interpretar a lei e fazê-la cumprir. Interpretar a lei é perscrutar a intenção do legislador, apreender o que pretendeu ele ao formulá-la. Fazê-la cumprir é dever de ofício.

Corolário:

A inspiração para a tomada de posições relativamente às realizações de interesse coletivo deve ser buscada bem mais nas razões de sua existência do que nas visões pessoais sobre elas. Sua gerência é mera questão funcional.

Um empreendimento, empresa, ou, guardadas as proporções, um país (sim, um país é um empreendimento) em más condições financeiras e boa situação econômica precisa apenas de uma boa administração para consolidar-se; ao contrário, em má situação econômica, ainda que empurrando com a barriga por meio de empréstimos, emissão de títulos ou imprimindo sem controle a própria moeda, precisa de um milagre, algo pouco em moda nestes tempos permissivos, se é que algum dia frequentou o mundo real.

Aportando em uma terra com mais de 40.000 quilômetros de rios navegáveis, cerca de 4.500 quilômetros de costa marítima, chuvas regulares e temperatura média anual oscilando entre 13 e 23 graus centígrados, isto somado a enormes riquezas naturais, uma gente laboriosa que deixou para trás seu país de origem – muito mais por razões políticaspois eram republicanos em uma monarquia ciosa de suas prerrogativasdo que religiosas -, levando consigo valores e bens pessoais, idealizou e inaugurou um país tornado quase-continente, o Pacífico a oeste, o Atlântico a leste e o atual Golfo do México ao sul.

Sendo o mar, ao tempo, o único caminho para o exterior, estavam-lhe abertas as portas do mundo. Após longo processo, no fim da década de oitenta e começo da década de noventa do século dezenove tal país, movido por extraordinária energia produtora e criadora, não tinha o que fazer com os seus vultosos excedentes de produção. Estabeleceu-se uma luta interna; de um lado, tendências socialistas defendiam sua distribuição às classes menos favorecidas, de outro, comerciantes, industriais e fazendeiros guiados pelo velho mercantilismo inglês renovado postularam o redirecionamento para o exterior dos excedentes e tudo o mais que o país pudesse produzir – e que não era pouco. Nos anos noventa do século dezenove findou uma era, o futuro dos EUA foi selado; sepultaram de vez Marx e sua doutrina, optando pelo capitalismo e um modelo agressivamente exportador. Albert J. Beveridge, advogado e político nascido no Highland County, Ohio, em 1862, e falecido em Indianapolis, Indiana, em 1927, escreveu em abril de 1897:

American factories are making more than the American people can useAmerican soil is producing more than they can consumeFate has written our policy for us; the trade of the world must and shall be ours.” (Cf. William Appleman Williams em The Tragedy of American Diplomacy, Edição do Quinquagésimo Aniversário, W. W. Norton & Company, Nova Iorque e Londres, 2009, página 28)                  A indústria americana está fabricando mais do que o povo americano pode consumir; o solo americano está produzindo mais do que pode ser consumido. O destino formulou nossa política para nós; o comércio do mundo deve ser e será nosso.

Quando o Senador Beveridge escreveu essas palavras o país estava ainda mergulhado em uma profunda recessão econômica que se arrastava desde as falências da Philadelphia and Reading Railroad e da National Cordage Company, simbolizando com a Sexta-feira Negra Industrial de 05 de maio o pânico de 1893, a que se seguiu uma violenta depressão estendida até 1898 com grande quantidade de falências e centenas de milhares de pessoas perdendo os seus empregos. Ao redor do fim do primeiro ano de crise, algo como 500 bancos e 15.000 empreendimentos haviam falido (op. cit., pág. 29).

Uma economia cuja natureza é a de operar no limite está gravemente exposta a percalços quando as forças que a sustentam se desequilibram. Este modelo jamais foi alterado.

Os homens de negócios prepararam-se para partir, mas o mundo tinha donos outros que não os naturais de cada país; os mais lucrativos espaços estavam ocupados, as portas estavam fechadas. Foi necessário abri-las por todos os meios e modos. Os donos do dinheiro ficaram em casa, mas precisavam cuidar dos seus negócios do outro lado dos oceanos. Criaram a figura do Controller, o homem dos acionistas, responsável pelo controle econômico lotado em cada empreendimento, mas fora do organograma local, subordinado diretamente a eles. No seu Departamento, basicamente: a Contabilidade, a Auditoria, a Seção de Custos, o Controle de Estoques, o Setor de Orçamento e Controle Orçamentário, Relatórios e Análises, a performance orçamentária e o impacto dos custos na saúde do empreendimento, e a posição econômica. Regra pétrea: sem adequação ao resultado operacional nenhum custo poderia gravar as operações.

A Administração Federal esqueceu-se disso. (continua no próximo post).

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