Em O Globo de ontem, 07 de agosto, primeiro caderno, página 18, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso apontou o caminho – e seus obstáculos – de uma governabilidade saudável. Nunca votei nele, estou à vontade.

Homem culto e educado, como em geral sabido, simples da simplicidade de quem nada precisa ou quer provar, foi vítima do idioma, esse nosso belo e rico português brasileiro refém de recente e peculiar reforma. Dos apaniguados de certo Sistema, disse: ” balançam a poeira e querem dar a volta por cima.” Quando o Noite Ilustrada cantou nos anos mil novecentos e sessenta “levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima“, sacode tinha o significado popular de bater fora, livrar-se, limpar-se. No plano geral deste país, e em particular no plano federal estamos muito precisados de levantar, bater fora a poeira, dar a volta por cima.

De resto, o artigo do ex-Presidente traz a marca de sua experiência e clareza de visão, muito necessários a quem está apenas começando – e aprendendo – o seu trabalho. Sobre Sistema, por aqui: “Este funciona solidificando interesses do grande capital (…) e de um conjunto desordenado de atores políticos, que passaram a se legitimar como se expressassem um presidencialismo de coalizão no qual troca-se governabilidade por favores, cargos e tudo mais que se junta a isso”. E, ao final do artigo: “Mas não há dúvida de que, para se desfazer da herança recebida, será preciso não só ‘vontade política’ como, o que é tão difícil quanto, refazer os sistemas de alianças.

Por questão de honestidade, há de se ter em mente que o ex-Presidente Luis Inácio teve de ceder, do contrário não o deixariam governar; de início sua posição era extremamente frágil, teve de provar tudo para todo mundo. Mas há de se reconhecer, também, que ele cedeu demais; a Sra. Presidente, que começou apalpando, deixou claro, pelo menos por enquanto, não estar disposta a ceder a ameças e chantagens. Nada lhe custaria, pois, refletir a propósito da manifestação do Sr. Fernando Henrique. Pela primeira vez na história temos uma política de Estado em lugar de políticas de governos; começou com Itamar Franco e os quatro rapazes do Real, consolidou-se com Fernando Henrique, maturou-se com Luis Inácio e continua com ela. Os benefícios são visíveis.

O próprio Fernando Henrique disse em entrevista, que, naturalmente, não é o mesmo de vinte anos atrás (se as palavras não foram exatamente essas, o sentido foi). Nenhuma pessoa inteligente o é; conserva os valores de fundo, éticos, morais, práticos, e amplia o seu espectro, modificando para melhor, com o passar do tempo, sua visão de mundo. Ele dá o seu valioso testemunho nesse sentido.

Eu, pobre mortal, de minha parte, continuarei a refletir a respeito do que quer o ex-Presidente fale ou escreva e no que possa, dito ou escrito por ele,  colocar as mãos. Ou os ouvidos. Ouvir os contrários de boa-fé engrandece e aprender não dói nem desmerece, especialmente em se tratando da ordem pública e do Brasil, que, em qualquer hipótese, é o que realmente importa.