(…), surgindo dessa combinação um campo magnético intimamente ligado ao seu campo elétrico. Muito quente ainda, mas reduzido o calor abrasador, cessou a combustão dos elementos voláteis em sua superfície; a tênue cortina de gases que o envolvia espessou-se, protegendo-o melhor dos raios solares e da ação dos agentes cósmicos mais agressivos. Espessados, os gases formaram nuvens ácidas continuamente bombardeadas pelos ardentes ventos solares, uma difusa expansão da Coroa que projeta torrentes de partículas do Sol para todo o Sistema Solar, inundando-o de elétrons, íons e uma forte ação magnética; revolvendo-se intensamente, elas interferiram no campo elétrico, que as golpeou seguidamente com violentas cargas, associando em processo de fusão os componentes dos ventos solares com os seus próprios componentes, em cuja operação sintetizaram átomos absolutamente diversos de quantos se haviam formado até então. Eles iriam constituir as moléculas dos aminoácidos e dos nucleotídeos, os germens da vida, que, por diferentes formas de reações e combinações, a substantivariam, necessitando para tanto, porém, de um ambiente em nada parecido com o da Terra de então.

A atividade nuclear, que ainda hoje mantém o planeta aquecido, desacelerou-se. A queda permanente da temperatura do Universo aliada à proteção mais eficiente de sua nova atmosfera, espessada pelo acúmulo de gases e pela formação de nuvens ácidas, reduziu-lhe a temperatura, iniciando um processo de contração desenvolvido até o ponto em que as irregularidades de sua estrutura permitiram; a camada externa enrijeceu-se, definindo a litosfera, uma crosta rochosa estendida à profundidade próxima de 100 quilômetros, definindo-se também camadas com ela combinadas para compor a parte sólida da Terra, interrompida por três regiões incaracterísticas. Da superfície para o centro, na sucessão de camadas, uma se situa entre a crosta e o manto superior, outra entre este e o manto inferior, e mais outra entre o manto inferior e a região exterior do núcleo. A quentíssima região central, o núcleo propriamente dito, denso coração metálico do planeta, circundado por sua região externa, puro ferro líquido, passou a aquecê-lo por convecção através do manto quando o resfriamento do Universo fez a temperatura exterior cair para aquém do potencial de produção de calor do núcleo, que, contraído, reduziu sua atividade, diminuindo por consequência a liberação de enxofre, metano e amônia.

A ação de vapores aquosos, do nitrogênio e do dióxido de carbono, mesmo liberados em quantidades mais  baixas do que as dos gases mais agressivos, começou a limpar o ambiente, tornando-o menos ácido. Como não existiam ainda o oxigênio e sua variedade alotrópica ozônio, um gás azul-pálido reativo e oxidante, a radiação ultravioleta precipitava-se livremente no planeta. (continua)