(…)

Dos bilhões de graus iniciais a temperatura do Universo caiu aos três minutos para perto de um bilhão, reduzindo-se a algo em torno dos mil graus dos trezentos mil ao milhão de anos; nesse período, combinadas, as forças universais formularam leis de causalidade e finalidade. As rotinas construtivas e os materiais para sua implantação vieram a seguir.

 

 

 

32 — CAUSALIDADE: todo fenômeno, inclusive o existencial, tem uma causa; as ocorrências no tempo e no espaço verificam-se em função do nexo causal assentado em ocorrências anteriores, independentemente da ordem em que se encadeiem os fatos por elas produzidos. Há sempre uma razão para o que acontece, ainda que isso não seja de pronto percebido ou mesmo apreendido a qualquer tempo ou de qualquer modo; o acaso, como o inesperado, é uma ficção útil e consoladora não recepcionada pelo pensamento estruturado, perceptivo do que foi refletido em tudo o que é, lastro da finalidade e causa do que será. Tudo, rigorosamente tudo na natureza, inclusive você e o que lhe concerne, é produto de prolongada sucessão de causa e efeito, não importa quão remota seja a causa.  Não existe solução real para as questões não equacionadas a partir de suas causas. Inteligências que desconhecem a origem de suas idiossincrasias, de suas imperfeições, não encontrarão em fórmulas genéricas e impessoais, estranhas à sua história de vida, uma via para se resolverem; apenas as sublimarão, com as nefastas lesões subliminares frequentemente observadas.

Prótons e nêutrons, núcleos em dubleto, juntaram-se e foram mantidos jun tos pela força nuclear forte para formar o núcleo positivo de uma nova partícula energeticamente estável, ao redor do qual elétrons e prótons orbitaram em ondas de comprimento proporcional à velocidade de cada uma.

33— NÚCLEONS: designação genérica das partículas que compõem o núcleo atômico.

34— DUBLETO: duas partículas fundamentais com massas aproximadas, cargas elétricas diferentes e mesmo número bariônico, de bárion, designação genérica de partículas elementares pesadas compostas de três quarks e sensíveis a interações fortes. Esses números são Zero para léptons e bósons, 1 para os bárions e –1 para os antibárions. O número bariônico indica propriedades conservativas, aquelas em que, nas interações entre partículas, a soma dos números bariônicos permanece a mesma. O princípio da conservação dos bárions é fundamental na física.

Fez-se o átomo.

Tudo na natureza é feito de átomos, amarrados para constituir as moléculas; uma das moléculas mais simples, a da água, é formada por um átomo de oxigênio e dois átomos de hidrogênio. Ela define quimicamente um produto. O termo foi usado nas especulações dos filósofos gregos da antiguidade para exprimir o que julgavam ser a menor divisão da matéria, permanecendo a partícula por ele designada muito mais indefinida do que indivisível até o início dos anos 30 do século XX.

Niels Bohr — ver Nota 27 — postulou em 1913 que elétrons orbitam no núcleo do átomo como pacotes quânticos de quantidades variáveis que concluem a estrutura da partícula quando se definem. Para ilustrar a idéia do tamanho incrivelmente pequeno do átomo: uma gota de água tem cerca de 121 átomos, um antecedido de vinte e um zeros. É, a despeito disso, em torno no seu oco central, de carga positiva, onde está a sua massa, que os elétrons orbitam bilhões de vezes por segundo e contrapõem-lhe sua carga negativa, fazendo-o uma partícula neutra. A quantidade de elétrons define a sua massa; o número de massa e o número atômico o identificam como um elemento químico, aquele em função do qual as reações químicas são produzidas.

Em 1919 Sir Ernest Rutherford, físico britânico nascido em Nelson, Nova Zelândia, em 1871, notável por suas pesquisas sobre a radiação e a ionização dos gases, submeteu nitrogênio a uma fonte radioativa emissora de partículas alfa, percebendo que, colidindo com os núcleos dos átomos do gás, elas os transformavam em núcleos de átomos de oxigênio. Esses núcleos, mutantes, emitiam partículas positivamente carregadas; eram os prótons. Em 1932, outro físico inglês, Sir James Chadwick, descobriu no núcleo do átomo uma nova partícula, o nêutron, idêntica ao próton, exceto por ser destituída de qualquer carga. Os átomos, ficou evidente, não eram indivisíveis, compunham-se de prótons e nêutrons.

A palavra átomo chegou ao grego a partir dos deuses cultuados nos Santuários do Egito antigo; Heliópolis era o principal, além de três outros grandes Santuários, Hermópolis, no meio Egito, Mênfis, entre Heliópolis e Hermópolis, e Busíris, na região central do delta do Nilo. Cada um tinha o seu deus numa trindade e uma família de nove deuses, a eneada, termo derivado do grego ennea, nove. Na Heliópolis de Osíris a eneada abrangia cinco deuses e quatro deusas: Thot, Ptah, Knemu, Amon e Hapi, Seket, Mut, Athor e Neit. Adorado em Mênfis, Ptah converteu-se em um deus de grande prestígio; Amon, quando o Egito esteve sob o domínio de Tebas, ganhou proeminência.

Contavam as teogonias da época, construções místicas explicativas da criação do mundo e dos deuses, que estes surgiam de escarraduras do demiurgo, para Platão o semideus organizador da matéria preexistente para formar o Universo e criar os homens, modelados e construídos com terra ou barro. Todos os Santuários tinham teologias que orientavam os seus ensinamentos.

Duas divindades interessam diretamente a esta reflexão:

– Noun, Nou ou Naou, deus do caos, oceano primordial no qual se continham os germes das coisas e dos seres. Considerado anterior a todos os deuses, era um deus solitário, sem templos ou adoradores.

– Atoum e Toum, Atoumou ou Toumou, divindade pluralizada em designativos da mesma etimologia, implicava um ser completo e perfeito; deus local em Heliópolis, ele era em Noun, antes da criação, um ente não manifestado, somatório de todas as existências. Depois, associado a Rê, o grande deus solar, passou a ser adorado como Atoun-Rê, dando origem na forma da sua mitologia aos deuses, aos homens e aos demais seres, sendo identificado no Sol levante — o Grande Átomo. Considerado ancestral do gênero humano, representava-se no touro Mnévis, cuja cabeça de homem era cingida pelo pschent, a dupla coroa dos faraós e dos deuses egípcios; como de sua teogonia originara-se de si mesmo, não havendo sido gerado.

O culto de Atoun-Rê foi amplamente difundido no Egito; sua tríade em Mênfis completava-se com as deusas Jousas e Nebet Hotep, nela se originando sua descendência, Shu e Geb, Nut e Tefnut. Nasceram de Geb e Nut Osíris e Set, Ísis e Nefertiti. Ísis tornou-se mulher do irmão Osíris  que reinou sobre a Terra depois de Rê. Invejoso, Set assassinou o irmão e usurpou o trono. Osíris renasceu pelo poder de Ísis e tornou-se soberano do mundo dos mortos; nascido dos dois, Horus derrotou Set e recuperou o trono que lhe pertencia, passando a reinar sobre a Terra.

A partir da quinta dinastia, declarando pertencerem à linhagem de Rê, ou Ra, os Faraós impuseram-se como divindades e instituíram o culto oficial do deus, que mais tarde, durante o domínio de Tebas, foi associado a Amon, assím surgindo o deus Amon-Rê. Amenhotep III, ou Amenophis, terceiro dos quatro faraós da 18ª dinastia com esse nome, proclamou o Sol como o deus Aton, palavra que designava a energia solar; Amenhotep IV, seu filho, abolindo todos os deuses, proclamou Aton deus único, mudando seu próprio nome para Akenaton, aquele que é devoto de Aton. Foi ele, ao redor do ano  -1.500, até onde se pode alcançar na história, quem primeiro instituiu o monoteísmo, abandonado depois de sua morte.

Revisitar o átomo é compreender um pouco da simbologia adotada (…), (…)., a Criação, Adão, modelado em barro, Eva e a serpente, símbolo do caos, o assassinato de Abel por Caim, o irmão invejoso, (…), encontrada em outros cultos e filosofias dos tempos anteriores (…), além da tríade egípcia; poderia estar muito próximo (…), por exemplo, no Avatar, no geral representação humana de um deus e no particular reencarnação de Vichnu, segunda pessoa da Trindade do Bramanismo (…).

(…), claro revigoramento das fontes astrais arquetípicas em que beberam os formuladores de doutrinas e preceitos que acabaram por prevalecer.

(…)

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A quantidade de prótons e elétrons no núcleo do átomo definiria o número/peso atômico dos materiais por ele formados, nos extremos 1 para o hidrogênio e 92 para o urânio. Os núcleos dos materiais se constituiriam de diferentes átomos, habitualmente com a mesma quantidade de prótons; a quantidade de nêutrons poderia variar.

35 NÊUTRONS: Bárions eletricamente nulos, massivos, na ordem de 939,56 milhões de elétrons-volts segundo a equivalência massaenergia da fórmula E = mc2 de Einstein, 1/2 de spin isotópico ou número quântico pelo qual se diferenciam os hádrons, que exibem as mesmas propriedades nas interações fortes; embora quase gêmeos em massa, têm cargas elétricas diferentes. Com 1 de número bariônico e spin 1/2, eles interagem sob a força nuclear forte que atrai quarks para formá-los e aos prótons, cujos quarks, por sua vez, atraem os quarks de outros prótons ou nêutrons, rotina atrativa que mantém a estabilidade dos núcleos atômicos. (Ver Nota 20)

Os produtos formariam grupos diferençados pela densidade, fixada pela distância entre os seus átomos. Com massa, variando segundo o grau de concentração atômica de cada um, os seus núcleos tornar-se-iam fontes gravitacionais que atrairiam elétrons; orbitando os núcleos, enfeixando-os de modo estável, eles especializariam os materiais formados pelos feixes, ou moléculas, a argamassa com a qual se construiriam todas as coisas, das mais simples, das estruturas que sustentariam as mais complexas formas, até os mais elaborados sistemas. O total de energia liberada no processo de constituição da massa do núcleo do átomo determinaria sua quantidade teórica de prótons e nêutrons, definindo-lhe o número de massa, variável, que caracterizaria quimicamente cada feixe, ou molécula.

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Com a queda da temperatura, os gases, sem nenhuma organização espacial, extremamente sensíveis às variações térmicas, se consolidariam. O hidrogênio e o hélio formariam nuvens cujo volume se manteria estável sob temperatura constante e pressão moderada; sob elevada pressão, seus espaços intermoleculares diminuiriam, reduzindo-lhes o volume. Com a queda permanente da temperatura em virtude da expansão do Universo, o esfriamento gradual reduziu-lhes a área de superfície e aumentou, milênio após milênio, o seu quociente de pressão, baixando a atividade molecular; compactando-as, esse processo as fez pólos gravitacionais de si mesmas ao provocar elevado grau de densidade. Por efeito da própria gravidade, as nuvens de hidrogênio foram empurrando para o centro os seus átomos,  formando núcleos cuja temperatura aumentou à medida da sua crescente compactação; pesadas, ondeariam cada vez mais devagar pelo espaço até estacionarem.Milhões de anos decorridos se tornariam corpos massivos e logo reações nucleares inflamariam o gás ao redor do núcleo, provocando intensa resplandecência. Irradiariam, então, alto grau de energia. Assim terá surgido a primeira geração de estrelas, pequenas estrelas.

36REAÇÕES NUCLEARES: ocorrem em ambientes muito densos e quentes. O calor é provocado pela rápida movimentação das partículas e se intensifica à medida do aumento de sua aceleração. Originam-se de uma gigantesca relação de energia de fonte única,  podendo ser provocadas pela contração gravitacional.

Crias incandescentes do jovem Universo, a forte energia irradiada foi parcialmente transformada em corpúsculos com massa. Então, núcleos instáveis combinaram-se com os núcleos de massa 2 e 3 do hidrogênio e de massa 4 do hélio, formando núcleos de massa 5, em leve ampliação da constante de proporcionalidade entre a força à qual estavam submetidos e a aceleração de suas partículas, aumentando ligeiramente, por extensão, a massa de cada um, operando-se nesse processo a transição do hélio para o ferro com a adição do oxigênio, gás de notável facilidade de dispersão de massa, cujo núcleo se constituiu de partículas múltiplas de quatro, metade prótons, metade nêutrons.

Cessando a faina de atração e combinação de partículas, as reações químicas entre elas ativaram-se na catálise de pares de prótons e nêutrons, formando-se frouxamente ligados entre si blocos construtivos combinados por sua vez com partículas ao redor, prolongando a curva de dispersão de massa para além do núcleo do ferro até o extremo em que a dispersão por partícula elevou, em razão da repulsão elétrica entre diferentes prótons, a proporção de nêutrons para acima dos 50 por cento, formando-se núcleos leves e meio pesados. Intensa a dispersão e baixo o grau de adensamento  face à maior quantidade de nêutrons em relação aos prótons, reduzindo a repulsão elétrica, surgiriam núcleos instáveis de baixa energia, gerando os   elementos pesados — mais pesados do que o hélio —, como o urânio; com quarenta por cento de prótons, sob reduzida repulsão elétrica, sua índole radioativa perderia energia, liberando partículas que, quando combinadas, o que de raro aconteceria, se manifestariam como forças nucleares se, sob constantes atômicas, partículas próximas se tornassem muito poderosas, desencadeando o processo.

37PARTÍCULAS: são as menores porções de matéria detectadas e detectáveis; partículas elementares são as porções de matéria consideradas indivisíveis. Numa primeira visão são gotas de energia (Ver Notas 19 a 21 e 26).

Núcleos positivamente carregados se repeliriam; sua carga positiva, porém, não repeliria os nêutrons ao redor, sendo, antes, por eles atraídos e adensados, daí resultando uma crescente aceleração de partículas que iria, por via de conseqüência, aumentar o calor. O sobreaquecimento da região nuclear elevou-se a níveis extremos, fez subir a temperatura dos corpos e, compensando a gravidade, converteu os seus núcleos em usinas nas quais, sob alto calor e elevada densidade, sintetizaram-se os elementos pesados. Aceleradas, as partículas entraram num ritmo alucinado, numa frenética disparada em todas as direções que fez girar os corpos, irradiando energia, perdendo massa e contraindo-se, ganhando densidade. Irradiando energia  perderam calor sob a forma de luz no concurso massa/luminosidade/raio; as partículas serenaram, reduziu-se o empuxo dos corpos, estabilizados ao compensarem com a gravidade a baixa atividade repulsora, precisamente como no seu nascimento. Surgiram assim as grandes estrelas.

Não ultrapassando a velocidade das partículas o ritmo de perda de energia, os corpos se adensaram até o limite máximo, originando um fator gravitacional, logo um poder de atração, maior do que a força de repulsão, alterando as características dos elétrons que se fundiriam aos prótons para formar nêutrons abundantemente, conferindo às estrelas sobreviventes a esse processo, nem sempre formador de estrelas de nêutrons, propriedades especiais. Os centros gravitacionais dos corpos encolhidos até o limite em virtude da perda de substância pela queima total dos materiais nucleares entrariam em colapso; a temperatura aumentaria e a rotação, inicialmente pequena, dispararia vertiginosamente desarranjando os corpos como se os descascasse, surgindo uma Supernova. Os resíduos da casca, juntamente com os materiais sintetizados no núcleo, se dispersariam no espaço com a composição do instante em que atingida a maior temperatura e densidade; tornar-se-iam poeira cósmica, gases, restos de todas as formas e tamanhos que, recombinados, produziriam novas estrelas, entre elas os sóis, outros corpos celestes, cometas, asteróides, planetas e suas famílias. Os produtos das Supernovas constituir-se-iam, também, matéria prima para a produção de formas físicas de vida; o carbono, o oxigênio, o nitrogênio, o silício e o ferro seriam usados na construção e manutenção de corpos animados, os nossos, por exemplo.

O Universo, reproduzindo o seu nascimento nas grandes explosões estelares, recria-se permanentemente. Estrelas pequenas e médias, o nosso Sol tomado como exemplo destas últimas, não explodem; dilatadas, findo o seu combustível, colapsam, tornando-se gigantes vermelhas, encolhidas até se tornarem anãs brancas, densos corpos esféricos radiando restos de calor, estiolando-se a pouco e pouco até se extinguirem completamente e reverterem à forma de pura energia.

Todas essas formidáveis forças cósmicas fazem parte, de um modo ou de outro, da mágica, remota e insondada memória de nossa origem.

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As energias errantes da primeira eternidade, primitivo remoinhar de forças, não chegaram à sua quintessência, o modo inteligente, inviabilizando a plena manifestação da forma superior que consubstancia as energias em estado organizado; depois, uma força a prioriante mare undæ -, pré-consciente, eternidades decorridas, se manifestaria por efeito de Si mesma,independentemente de toda experiência, no ato de criar-Se o Seu momento, projetado pela sétima eternidade.

A Criação se terá virtualmente verificado na convergência de forças elementares convoladas a energia inteligente, uma categoria fundamental do pensamento latente desde antes das eternidades, do tempo, consumada ao sobrepor-se na desordem ao princípio do não ser, eliminado quando os desiguais se complementaram na fértil comunhão dos opostos, tese e antítese equilibrando a razão universal e repelindo o unipolar, estéril, sem compromisso com a realização da vida. Essa superlativa forma de energia assentaria os alicerces da materialização da vida, pré-existente, porque uma de suas formas, a ordem prevalecendo a partir da enteléquia, que se manifestaria como pressuposto do produto universal, uma inteligência poderosamente transformadora, a perfeição contraposta à sua origem.

O projeto elaborado a partir da Vis Viva especificaria seres únicos, para a grandeza, categoria de semideuses planejada para a celebração da beleza. Algo, todavia, sairia errado; o peixe que se arrastaria desajeitado para a terra de um planeta distante na eternidade da Criação feita evolução não inauguraria uma descendência apta a relativamente breve e saudável desenvolvimento, mas, ao invés, seres escamosos, saltadores, rastejantes, efeitos do sangue frio, falhos de potencial evolutivo, presos aos pântanos, insuscetíveis de otimização, indistintos e imperfectíveis, propagados num amplo leque de excentricidades, criaturas sem sombra, tão rasteiras, uma  perspectiva assustadora. Maculada, a idéia original imergiria na celeuma das espécies e com ela a raça semidéia, anelo da inteligência primordial.

Abortar o projeto seria a solução natural; demasiado longo, porém, o caminho percorrido, havia sido tocado o ponto de não retorno. Rever os programas, reinstalar o processo seria talvez o passo mais lógico, todavia inexequível. O recomeço exigiria, além da reformulação dos programas, nova especificação dos componentes físicos do planeta, pré-requisito para viabilizar sua execução; complicado, melhor mudar de planeta, mas o que fazer depois com ele? Abandoná-lo, simplesmente, quando já formatado? Constituíra-se um alentado banco de dados e um consistente conjunto de informações que permitiria uma recombinação de instruções na hipótese de simples revisão do projeto, se bem que, sopesadas as probabilidades, a opção envolvesse riscos, mesmo para a prodigiosa inteligência reitora da evolução. Adaptações feitas resultariam em um ser híbrido de naturezas opostas movido por criaturas antagônicas, uma delas, num cérebro novo, inteligente, outra, a besta do cérebro antigo, só instinto; os riscos ficariam por conta de provável insubmissão desta e na possibilidade efetiva de se tornar invasiva, gerando na criatura do cérebro novo condutas colidentes com a razão de sua constituição, tornando-a incontrolável por ser dotada de inteligência.

Precário o desenvolvimento do projeto nessas condições, extinções em massa eliminaram no geral os exemplares imprestáveis e preservaram os de menor dispersão de características para se desenvolverem de modo alternativo, mas conciliável com o modelo planejado de vida física para o planeta, perdido quando de sua implantação. Desse processo resultaram produtos os mais diversos, a peçonha de cobras e lagartos, a obtusidade das tartarugas, o tronco estacionário dos grotescos e vetustos crocodilos e jacarés, os répteis aquáticos e voadores, o dinossauro ancestral, de poucas raças, que terão desenvolvido mecanismos de sangue quase quente, aves, os pássaros com seu canto mavioso e suas cores deslumbrantes, além do sinapsídeo, ascendente direto do ornitorrinco e chassis do primeiro animal de sangue quente, matriz do produto alternativo possível, pai de todos os mamíferos, do mono, ancestral em linha direta dos primatas, do homem, realização provisória, carente de aperfeiçoamento, uma espécie indistinta de santos e de monstros, de heróis e de poltrões, tal ou qual coisa, em seu íntimo todo um universo, todos os infernos, uma quantidade de paraísos, necessitando, para aperfeiçoar-se, de infinitamente mais verões e invernos do que uma simples existência lhes poderia proporcionar. Selvagens de origem, boa parte assim permaneceria mesmo quando, decorridos muitos milhões de anos, uma quantidade deles houvesse deixado ao longo de muitas existências bocados de sua selvageria e se tornado capaz de afeto, de chorar os seus mortos em comovidos preitos de saudade, e de, chegada a primavera evolutiva, acalentar sonhos e ideais, orar em canções eternais  para não enlouquecer com a cantilena monocórdica dos arautos da rotina, não se enfeitiçar com o cantochão das manadas e não se deixar entontecer pelo incenso dos santarrões incapazes de descortinar um milímetro além de sua peculiar banalidade e desenredarem-se da crueza selvagem muitas vezes encoberta por um esfarrapado manto de polidez ou santidade.

Não mais que um punhado em cada geração, uns poucos, resgataria a pureza maculada nos charcos pré-cambrianos onde materializada a vida a partir de protozoários, enquanto uma inumerável quantidade de toscos, brutos e lamentáveis celebrantes da mediocridade, reduzidos a si mesmos, permaneceria fera, réptil, ameba, no limiar, os estacionários da espécie.

Configurado a partir de criaturas privadas de atributos intelectivos, produto de fatores humanizantes combinados ao longo de um espinhoso processo, o ser inteligente emergiu hesitante de um complexo acumulador de neurônios destinado, sobretudo, a neutralizar o instinto e a controlar as emoções. Tal resultado não seria obtido quanto à generalidade da espécie; o cérebro antigo resistiria obstinadamente, lutaria para fazer prevalecer o limitado e rudimentar conjunto de programas por ele operado desde as mais antigas versões da vida substantivada. A besta jazeria no mais fundo da criatura inteligente ébria do cheiro de sangue gravado na memória da espécie, descendo-lhe às narinas, estumando-a, estimulando-lhe o bocado selvagem.

Combinando fatores tardios, a evolução reprogramaria exemplares primitivos isolados, provendo-os de meios para evoluírem no sentido da criatura superior possível, capaz de interagir com os seus semelhantes, e a eles associar-se na utilização útil do seu hábitat. E lograria, à medida do desenvolvimento de sua potencial habilidade, adaptá-la, melhorando-lhe a conformação das mãos e adequando a visão à vida operativa. Suas cordas vocais, rudimentares, seriam reordenadas para possibilitar a comunicação via sons articulados, habilitando-a à troca de experiências, à transmissão e partilha de conhecimentos para não desaparecer com ela o conhecimento adquirido, poupando os seus descendentes do esforço e do desperdício do reaprendizado a partir do zero do quanto necessário para a sobrevivência, ou lhes valesse para escrever a própria história. Coroando a remodelação, foi-lhe acrescentado, sem vinculação com o limitado dispositivo original acelerador das forças biológicas e de controle orgânico, um mecanismo de funções típicas que lhe ensejaria, a par da evolução da forma, evoluir no sentido de especificidades que distinguiriam a sua espécie das demais do planeta, preparando-a para refletir sobre si mesma e afastar a animalidade da origem. Um complexo encefálico único seria estendido, a partir da região olfativa, por toda a área superior e anterior da caixa craniana, abarcando o dispositivo original, o cérebro antigo.

Após longa parada a evolução retomaria o curso, redirecionando-se, não deixando no registro fóssil, dada a sua natureza, vestígios dos ajustes feitos. Somente adaptadas, as novas criaturas, de natureza dúplice, seriam alvo das investidas do réptil e da fera ancestral que nelas coabitariam; se estacionárias nos estratos mentais, inferiores, de sua construção primitiva, permaneceriam submetidas ao instinto. Pior; a partir do poderoso arsenal intelectivo de que se dotariam, desenvolveriam no transcorrer do tempo disposições predatórias em muito excedentes às dos seus mais cruentos antepassados da floresta.

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Este Universo onde vivemos, com o qual, diria Einstein, Deus não joga dados, quer dizer, no qual nada acontece por acaso, surgiu para abrigar mundos, para a substantivação da vida, inteligente, ainda que  em formatos diversos, à falta da qual não teria sentido. Por isso é como é; fosse ele de outro modo, a vida não se materializaria. Prótons e nêutrons, feitos de três quarks, um de cada cor — dois up e um down para o próton e dois down e um up para o nêutron —, não se constituiriam com dois up e dois down; isso ocorrendo, quase certamente as partículas resultantes não atrairiam elétrons para formar o átomo. Ainda assim haveria um Universo para a sétima eternidade, mas em alguma outra dimensão; o nosso poderia ser qualquer coisa menos este onde a vida revelou-se como a conhecemos e no qual, na fusão do hidrogênio com o hélio, que incendeia as estrelas, se participasse a massa do hélio, energia, com um centésimo a menor ou a maior, haveria apenas hidrogênio; ou, então, os dois gases se mesclariam com tamanha rapidez que não sobraria um sequer dos seus átomos para ir ao encontro da materialização da vida. Esses são dois exemplos da precisa especificação do nosso mundo para as coisas ocorrerem como ocorreram. Tudo é muito lógico. Mal podemos imaginar o que existe Universo afora.

Ponderados os fatos como assentados pela Física, não teremos seja ela um ramo do conhecimento humano tangente (…), mas parece não sobejarem dúvidas quanto a se tratar da ciência melhor apetrechada para entender (…), ficando por aí as afinidades (…). Substituir, ainda assim, a ciência (…), nega as regras fundamentais do pensamento racional, alheias à elaboração (…). Tudo o que não advém dos fenômenos (físicos) deve ser considerado hipótese (,,,). Deles se extrai pelo método da experimentação o que é exequível, depois desenvolvido por dedução (Philosophiæ Naturalis/Principia Mathematica, Comentários Interpretativos, Isaac Newton). (…).

(…)

Os aspectos mais intrigantes do Universo são expressos por teorias; os fenômenos observáveis são descritos pela tradução para a linguagem científica dos seus motivos e efeitos, nem sempre cabalmente conhecidos, reforçando a percepção de um Universo centrado em métodos conceptuais (…).  (…). De outro modo, a atribuição de tudo o que existe ao mero acaso induz falta de imaginação e faz supor profundo ressentimento, impotência mal disfarçada sob um diáfano véu de duvidoso pragmatismo. Existe lugar, entre a religião e o cientismo, para o livre-pensador.

Há com relação ao Universo algo que nos foge à compreensão, mas nem por isso deixa de ser fortemente impressivo se o contemplamos com um mínimo de sensibilidade, impossível não intuir uma prodigiosa ação, uma força inteligente atuando todo o tempo em favor da vida preexistente no caos, depois manifestada com amparo em eficiente conjunto de regras que o estruturou e adequou, ensejando tudo o que nele existe.

(…). Adequar-se à Sua frequência estimula a atividade psíquica, apura a percepção, impele as aspirações de perfeição e maximiza a energia das mais profundas regiões interiores, onde está o que é verdadeiramente intrínseco ao ser humano, a natureza (…), presente a despeito de insuspeitada. Ao conectar-se com ela deflagra-se no homem o processo de dominação anímica; o instinto entra em fase de dissolução e o espírito, a consciência em seu mais alto nível, imponderável sujeito da representação e identidade superior do objeto representado manifesta-se. É a graça, sem arrebatamentos, serena renovação a partir do fundamento de tudo o que é, a energia inteligente com a qual emerge a fé da cognição, realização (…).

(…), irradiado no universalismo da substância do permanente, essência de eternidades e única forma possível de infinito.

(…) extraído do conhecimento orientado pelos dotes do espírito, arcabouço da esperança, é o elemento psíquico que lastreia a fé racional, lógica, íntima e consciente, antecâmara da realidade possível, para a qual devem fluir todos os anseios.

 40 — DA ESPERANÇA: “Se o homem abandonou toda a esperança, ele cruzou os umbrais do inferno — quer saiba ou não — e deixou atrás de si toda a sua humanidade.” (Erich Fromm, a Revolução da Esperança, tradução de Edmond Jorge, Zahar Editores, p. 75). Dante escreveu no portal do ‘seu’ Inferno: “Quem cruzar esta porta deixe fora toda a esperança.”  A locução de Fromm é quase certamente uma derivação de Dante.

O ser humano não é miserável e indigno, salvo por escolha pessoal; ele não o é se não o quer, porque esses não são estados nos quais terá sido concebido por (…), uma idéia para repouso de cansaços, angústias e aflições pairando sobre as fraquezas humanas (…).

(…)

(…) em Baal, título divino que na antiga cultura semita consubstanciava o conceito de realeza e domínio, incluindo incontáveis divindades. Baal, no seu plural hebraico, Baalim, tem a conotação de Ídolos, ou Senhores, derivada da formulação coletiva de divindades locais judias, fenícias e outras, como Baal-bek, Jezebel e Etbaal, entre grande quantidade delas. Baal-Berit era o titular da aliança, ou unidade; Baal-Zebu, outra divindade em Baal, aparece (…) como belzebu, o príncipe dos demônios, com suas 6.666 legiões, formada cada uma por 6.666 demônios. O culto a Baal chegou (…).

(…). Somente os servos cometem desobediência; só os tiranos praticam a misericórdia.

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Dominador/dominado é uma referência menor, entre homens, sem paralelo no trato das coisas (…). Nietzsche, debatendo-se na demência que o levaria à clínica de doentes mentais da Basiléia, posteriormente à clínica da Universidade de Jena e mais tarde para Weimar, onde morreria esgotado pela loucura, proclamou (…) útil e prejudicial, amigo e inimigo, conquistador e predador, a ser cultuado no bem e no mal, (…) para insanos aviado a partir de velha proposição segundo a qual um imanente dualismo (…).

(…).

Não há mal no mundo, há mal no homem, questão de substância e estilo, que envolve também (…). Ele pode, se quer. O bem e o mal são formas de energia cuja fonte é o homem; espiritual e/ou mental, prevalece a primeira quando mais fortes as emissões espirituais, positivas, ou a segunda, se são mais fortes as emissões mentais, negativas. Nossos limites impõem designativos para isso; chamamos (…) a energia positiva, (…) a energia negativa, mera questão semântica.

O bem e o mal não existem por si, decorrem dos homens; nada têm  a ver com as doutrinas dualistas, a de Mani, por exemplo.

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(…)

(…) sugere para o homem uma estrutura assentada no trinômio ética-moral-verdade.

Ética é o predicado do homem diretamente relacionado com o seu posicionamento em face do mundo e da vida; qualifica-o sem submetê-lo a juízos de valor e pauta sua conduta independentemente do meio cultural em que viva. O senso comum atribui à ética substância meramente social, tendo em vista, com isso, preservar normas gerais de comportamento, não raro marcadas pela hipocrisia, orientadas para a aparência, caracterizadas pela superficialidade, explicadas pelo alheamento dos valores de fundo ou virtudes essenciais, inegociáveis, o que quer esteja envolvido.

Examinada em termos acadêmicos, ela é frequentemente deduzida de forma extravagante. Filosoficamente, abrange (1) a busca da felicidade, (2) a fruição hedonista do bom e do útil, (3) os deveres do indivíduo face à coletividade e (3) a busca da perfeição pelo aprimoramento das virtudes essenciais. As reflexões das mais notáveis figuras da história da filosofia sobre o tema é um referencial obrigatório; ordená-las cronologicamente, ainda que em apertada síntese, facilita sua compreensão.

Sócrates nascido em Atenas, viveu de 468 a 399 a.EC. Escultor como o pai, tornou-se soldado, servindo, entre outras, na guerra a Esparta. Deixou o exército quase aos reqüenta anos para perambular por Atenas e contribuir para desenvolver a cultura do seu tempo; debateu com técnica elaborada através da qual, mediante perguntas, desenvolvia o raciocínio e conduzia os interlocutores, o que lhe rendeu um largo círculo de amigos, admiradores e discípulos, além de muitos adversários e inimigos viscerais que o acusaram de pervertido e corruptor dos costumes, especialmente da juventude ateniense. Não deixou qualquer obra escrita; desenvolveu sua dialética através da conversação, indagação ou da ironia fina e cáustica. O que dele se sabe foi noticiado por Platão e em grau menor por Xenofonte, historiador, filósofo e general ateniense nascido ao redor de 427 e falecido cerca de 355 a.EC, ambos seus discípulos. Privilegiando o ser humano em toda a sua complexidade, propôs princípios de conduta que contrariavam a ética relativa do helenismo do seu tempo. Repudiando a retórica sofista, suas eruditas, mas dialeticamente simples dissertações, pródigas de humor sardônico, valeram-lhe, por mero pretexto, as acusações de heresia que o levaram à morte por margem mínima de votos sob a acusação de sofistas. (…) voltaremos a Sócrates, ao seu método e à sua peremptória recusa em negar os princípios que postulava para contornar a inevitabilidade de sua execução pela ingestão de cicuta, ou mesmo fugir, protegido por quantos o admiravam, porque a lei, para ele sagrada, tinha de ser cumprida por corolário da missão em que convertera sua vida.

Platão Atenas, 429/347 a.EC, a quem Aristóteles, seu discípulo, considerava meio doidinho, (…)

Aristóteles – Estagira, Macedônia, 384 a.EC/(…), 322 a.EC, foi o responsável pela educação de Alexandre, o Grande, e fundador da escola (…)).

Escola Cínica – criada por Antístenes de Atenas (444356 a.EC) e Diógenes de Sínope (413323 a.EC). Uma das escolas filosóficas nascidas do magistério de Sócrates(…).

Euclidianos – de Euclides, filósofo grego que viveu entre os anos 450 e 380 a.EC, também chamados megarianos, de Mégara, Grécia, junto ao canal de Corinto, foram influenciados pela filosofia de Sócrates e pelo eleatismo, filosofia da escola de Eléia, fundada por Xenófanes de Cólofon no sexto século antes da Era Comum, da qual faziam parte Parmênides e Zenon, pioneiro do raciocínio filosófico por absurdo, ou raciocínio dos paradoxos, instrumento lógico formal de dupla implicação pelo qual duas conclusões são possíveis para a mesma premissa. (…).

Thomas Hobbes – Malmesbury, Inglaterra, viveu de 1588 a 1679. Leviatã, extravagância literária publicada em 1651, revelou-o moralmente utilitarista, politicamente despótico e filosoficamente materialista; para  (…).

John Locke nascido em 1632 e morto em 1704, foi um defensor da liberdade individual, embora sofrendo imprecisa influência de Hobbes; rejeitou a sordidez inata e a animalidade do homem, sustentando a primazia do conhecimento sobre a experiência e defendendo uma ética da reflexão.

Spinoza – Baruch Spinoza, holandês de Amsterdam, de onde foi banido pela intolerância (…), nascido em 1632 e falecido em 1677, eram racionalmente religiosos. Em Ética, concebido segundo o método cartesiano, apresentou sua metodologia, essencialmente panteísta, compreendida num sistema impregnado da visão de Deus como alma do mundo e este como o Seu corpo, seja, Ele estava em todas as coisas, uma realidade distinta que O representava pela soma do todo existente, forma de expressão ao mesmo tempo humana e metafísica. Nos últimos anos de sua vida publicou ‘O Ordenamento Ético Geometricamente Demonstrado’ — de Ethica Ordine. Escrevia em latim, (…).

Immanuel Kant – nascido em Kœnisberg, Alemanha, e deixando entrever certa influência de Spinoza, postulou haver um mundo revelado ao homem por meio de fenômenos no espaço e no tempo, (…).

(…).

Georg Wilhelm Friedrich Hegel – alemão de Stuttgart, nascido em 1770 e morto em 1831. Incluindo o ser e as idéias num princípio único e postulando que as idéias têm três momentos fundamentais, tese, antítese e síntese, abonou o imperativo categórico de Kant, mas rejeitou o acaso, (…).

Sœren Kierkegaard – nasceu em Copenhagen em 1813 e morreu em 1855. Sua filosofia, de acentuado cunho teológico, assentou-se no que Aristóteles tinha de menos preconceituoso; tangenciou Platão (…).

Friedrich Nietzsche – nascido em Rœcken, Alemanha, em 1844, morreu em 1899. Concebeu a ética da energia vital (…).

Martin Heidegger — objetando a proclamação (…).

Pitágoras – filósofo e matemático grego do século 6 a.EC, nascido em Samos, uma das ilhas gregas das Aspórades, originou uma espécie de seita, os pitagóricos. (…); filósofo do orfismo, para ele o intelecto tem de prevalecer à natureza primitiva do homem, orientando-se esse predomínio para a perfeição por meio de rigorosa disciplina moral.

O orfismo foi o veículador dos mistérios de Dionisos, uma das mais belas lendas rituais gregas e paradigma moral enquanto não conspurcado pelos desvios que provocaram sua crescente rejeição e finalmente o seu desaparecimento. O termo deriva do eleito nascido de uma sacerdotisa de Apolo (…)

Epicuro – nascido em Samos, viveu de 341 a 270 a.EC. Discípulo de Xenócrates, em Atenas, inspirou Lucrécio, nascido em Roma, em 98, e morto em 53 a.EC, autor de De Natura Rerum – Da Natureza das Coisas – belo e vivificante poema inspirado na doutrina epicurista. Reinterpretando Demócrito, filósofo grego do século 5 a.EC (…).

Por deplorável equívoco, o termo epicurismo em nossa cultura tem sido usado para designar os prazeres da mesa e da luxúria.

E, afinal, a ética formal cristã, tomada ao judaísmo; sustentada por em três regras básicas às quais nada precisa ser acrescentado — (1) Faças aos outros o que queres que te façam, Mateus 7:12; (2) dá a cada um o que é seu, Mateus 22:21 e (3) ama o próximo como a ti mesmo, Lucas 10:27 — são referências preciosas, quando e se observadas.

Chegado o século XX, os conceitos éticos começaram a ser  profundamente revistos, tendendo, a partir do início de sua segunda metade, a uma objetividade maior; o homem, o indivíduo, passou a ser percebido como ente social com obrigações relativamente ao meio em que vive, mas com direitos pessoais inalienáveis, senhor de si, da própria vida, em detrimento (…). Surgiram doutrinas e escolas diversas de designações estranhas, algumas demasiado excêntricas para merecerem comentários, outras tão elusivas e destituídas de sentido prático que desencorajam avaliação mais demorada, meros exercícios intelectuais, entretenimento para senhores desocupados descomprometidos com a utilidade e aplicabilidade dos seus postulados, algo que se constitua uma referência válida e existencialmente enriquecedora, especialmente para os jovens.

A MORAL — tratada, no mundo antigo, como mensagem celestial ou mensagem de deuses, sob formas diversas misturados aos homens, ela colocou o indivíduo no centro de toda a discussão. Na China predominou a atitude filosófica gerada no domínio da sensibilidade, da contemplação e enfocada no universo, assim considerado o todo existente, com inclusão do homem, e tudo aquilo de existência possível; na Grécia, se bem a regra de respeito aos deuses, eles, na prática, não eram levados muito a sério, de  ter-se em conta que a teofania reservava lugar para o deus desconhecido e contingente, algo, porém, que não era objeto de maiores considerações ou preocupações. A moral grega compreendia a cultura física e intelectual, o refinamento em seu mais amplo sentido e a tolerância, com certo tempero hedonista para justificar a vida, finita no corpo físico, mas revivificada no Jardim dos Prazeres Eternos, sem ficar, contudo, muito claro o modo pelo qual isso se processava.

Na China foi cultivada uma tradição moral filosófica e metafísica circunscrita ao oriente; as práticas filosóficas gregas constituíram-se as bases da cultura e civilização ocidentais, ensejando a formulação de leis morais da mais elevada expressão dissociadas da moral cristã, engessada em sua aversão ao sexo e rabugenta na religião. Exclui-se Roma, centrada em suas leis pela necessidade de manter um sistema de coerção dos povos dominados, e na ordenação jurídica, para instrumentá-las, legitimando o assassinato judicial, a arrogância e a brutalidade oficial; deixou o seu gens nas artes, que desenvolveu e patrocinou como nenhuma outra potência histórica. Politeísta e extremamente supersticiosa, os deuses eram questão individual; não possuía uma religião no sentido modernamente atribuído ao termo, implicado numa visão metafísica estruturada, o mesmo em certa medida ocorrendo com a Grécia. Ambos os povos não sofreram, por isso, nos séculos de glória, influências da moral religiosa.

Os Sofistas, mestres itinerantes que transmitiam cultura geral em troca de pagamento, foram os primeiros a ordenar o ensino e a cobrar por ele. Não acreditando em moral absoluta, para eles, todas as questões eram condicionadas pela retórica e sua validade dependia da lógica e utilidade social; subordinavam a moral a critérios individuais. Segundo Platão, para Sócrates a virtude ou a moral valem pelo sentido objetivo que lhes dão os homens, decorrendo do desconhecimento todas as más qualidades, daí se deduzindo que para Sócrates virtude e moral seriam questão meramente formal. Ele tinha realmente um especial carinho pelos homens! Inimigos ferrenhos do filósofo, os sofistas não concordavam com essa sua visão.

Para Nietzsche, a moral deve transcorrer de conceitos individuais convertidos em regras pessoais estabelecidas conforme a propensão de cada um, sem levar em conta os princípios morais universais, modalidade de sofismo, portanto. (…).

A moral religiosa, nem sempre escatológica – de escatologia, teoria doutrinária que aborda a consumação do tempo, da história e as finalidades do homem e da vida num contexto universal -, (…)

A VERDADE — consistida para Platão num processo abrangente do que era conhecido no seu tempo e do modo pelo qual o conhecimento era adquirido, ele diferençava as crenças falsas das verdadeiras ao afirmar que a verdade é uma tradução dos fatos. (…).

Desde o século 4 a.EC, nem formulada ainda a pergunta do romano, o grego definiu a verdade: se encerra um fato — e o fato é efetivamente o que ocorreu ou ocorre — a afirmação contém uma verdade; se não, deve ser ignorada. O que mais se diga com relação à verdade é pura enganação.  Não faz sentido abordar como verdade idéias ou crenças não provadas ou de duvidosa comprovação porque tudo o que lhes concerne não faz parte do mundo aparente, tátil e substantivo; somente depois de converter-se a idéia em fato ou da crença tornar-se realidade, revelando o conhecimento intuitivo de um fato, é que ambos podem ser avaliados. Idéias são idéias, crenças são crenças e fatos são fatos. O conceito de verdade deve advertir o princípio da realidade a fim de aproveitar ao ordenamento individual, de grupos ou sociedades. Sua busca, de outro modo, não versa a verdade em si, que assim será entendida quando encontrada e, como tal, caracterizada. Mudam as verdades se mudam os fatos, hipótese em que ela não perde o seu caráter absoluto; ao contrário, por ser absoluta muda quando os fatos se modificam, concordemos ou não com isso.

A teoria da coerência aplicada à verdade deve conferir-lhe inteireza e irrefutabilidade; ela mudará mesmo quando decorra de fatos-parte de um conjunto passível de revelar-se falso quando detalhes comprometam sua abrangência. Tomando o clássico exemplo de Platão, Tætetus voa, e sendo necessárias premissas verdadeiras para chegarmos à uma conclusão verdadeira, cumpre indagar: Tætetus tem asas? São elas tão desenvolvidas que lhe permitem voar? Ele já voou antes? Se a resposta a qualquer dessas indagações for negativa, a afirmação Tætetus voa é falsa, não contém uma verdade; se positivas todas as respostas, ela é verdadeira. A abrangência e a coerência estarão presentes no alcance do nexo causal e na harmonia e lógica entre os fatos. Mas pode ter ocorrido que, a despeito de Tætetus ter asas, desenvolvidas ao ponto de lhe permitirem voar, e de já haver voado antes, sua reação psicológica ao vôo foi tão determinantemente negativa que ele não consegue mais voar, isto é, um fato superveniente modificou a seqüência e o conjunto anterior de fatos, suprimindo-lhe a abrangência e rompendo-lhe a coerência. Então, a verdade absoluta anterior porventura contida na afirmação Tætetus voa deve ser substituída pela nova verdade  absoluta, Teætetus não voa.

Eliminando qualquer possibilidade de atribuir-se caráter relativo à verdade, sua busca deverá ser empreendida sempre que houver interesse em determiná-la. Tomemos outro exemplo(…).

Sumarizando, podemos ser levados, em visão apressada, a concluir confundirem-se os princípios éticos e morais, (…), atribuindo-lhes sentido amplo, levam-nos a despencar na vala comum do relativo, descaracterizando-os na generalidade, imprecisa e vaga, na qual tudo é aceito, muito atraente para os profetas do caos.

Delineado o quadro geral do trinômio ética-moral-verdade, com a amplitude permitida neste trabalho, nada será dito, afinal, se os temas não forem tratados do ponto de vista da pessoa comum para deles ajuizarmos em termos objetivos, aplicáveis ao cotidiano. O mestre espanhol dizia que nossas doutrinas éticas e filosóficas, em geral, não costumam ser senão a justificativa a posteriori de condutas e atos, nosso e do nosso semelhante, por não sabermos, a rigor, porque agimos como agimos e não de maneira diferente, forjando-a pela necessidade de legitimar nossa razão de agir – Miguel de Unamuno, obra citada, p. 250. É pacífica, não obstante, e o próprio Unamuno abona em termos de raciocínio minha asserção de que o homem consciente não age ordinariamente por impulso, por instinto, antes extrai de suas reflexões normas de conduta eximidas de justificação porque suas atitudes são acordes a integridade e dignidade do seu caráter, forjado em ética, moral e verdade, seus orientadores existenciais, legitimação natural para as suas ações, em função dos quais se desobriga de dar as razões de ser como é e o dispensam da aprovação do meio em que vive.

Com Platão, inúmeros filósofos postularam serem as mesmas para todos as mais altas expressões éticas; não parece ser assim. As sociedades têm valores fundamentais rigorosamente diversos; (…).

Não há preceitos éticos coletivos, mas sim mero senso comum, não obstante a existência de princípios éticos absolutos conexos à integridade e à dignidade do ser humano em qualquer latitude ou longitude, tal como a imparcialidade, a autoridade pessoal, o sentimento de brio e o completo respeito aos princípios de retidão comportamental que definem o homem como ser superior quanto às suas manifestações e expressam sua grandeza de sentimentos, honestidade intelectual e simplicidade de visão de mundo quanto aos seus estados interiores sem implicar alienação ou ingenuidade; ser ético, afinal, não é ser tolo.

A moral de seu turno exprime-se em sentido estrito a partir de uma filosofia própria, íntima, pessoal, de honra e decoro genuínos, por sentido estrito compreendendo-se, de maneira objetiva, a síntese das aspirações de respeitabilidade do homem quanto aos costumes. Em acepção ampla e de modo especial quando se analisam as tradições morais de determinadas sociedades, constata-se, diferentemente da existência de princípios éticos absolutos, ser a moral uma questão de época, latitude e longitude. Dentre certos povos aborígines cabe ao pai, nas núpcias, desvirginar a filha para, cumprindo um ritual arquetípico, dar ao noivo garantia da normalidade da filha e de suas plenas condições para gerar filhos, solenidade imposta pela necessidade de incrementar a quantidade de exemplares para preservar a raça e assegurar mãos para o trabalho. Conforme Mircea Eliade – Mito do Eterno Retorno, Mercuryo, São Paulo, l992, Tradução de José Antonio Ceschin, p. 99 -, no oriente antigo as virgens passavam uma noite no templo para conceberem o filho de um deus através do seu representante, o sacerdote, ou do seu emissário desconhecido, que, se pode supor, não devia ser tão desconhecido assim, ou, ainda referido por Eliade na p. 32 da obra citada, e na forma do Livro IV do Li Chi, o Yüeh Ling, Livro dos Regulamentos Mensais, as esposas deviam apresentar-se ao imperador no primeiro mês da primavera, o tempo do trovão, para com ele coabitar, em cumprimento, também, de uma formalidade arquetípica.

Os arquétipos fazem parte do cotidiano do homem ocidental; sem a menor idéia de que o faz, sem que isso lhe passe pela cabeça, ele perpetua rituais arquetípicos habitualmente de cunho sagrado, como a cerimônia de regeneração do tempo consubstanciada nos festejos de passagem de ano.  Acresça-se o triunfo sobre a morte e a devolução em sacrifício do filho (…) gerado por um emissário, o Anjo, com o estabelecimento de novo tempo a partir daí, como na representação ritual (…).

A verdade, deliberadamente examinada no fecho destas reflexões em virtude do significado absoluto que traduz, não é crença ou idéia, mas algo imanente ao ocorrente não sujeito a especulações de qualquer índole. Como eu disse nos Apontamentos, lastreada nos fatos, valor ético aposto a todos os demais, como tal e com caráter próprio se contém tão somente em si mesma. Em termos rigorosamente objetivos e com os mais intensos reflexos, a verdade deve ser em intransigente e última análise a finalidade de toda a atividade intelectiva; não o sendo, não haverá modo intelectivo, mas tão somente pantomimas, tudo não passará de uma grande farsa.

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