Universos são paridos por fendas rasgadas no ventre do caos; naqueles se fazem e extinguem mundos, nestes, ciclicamente, a vida comparte-se em existências e volta ao estado original, para ressurgir em novos mundos de novos universos nos sucessivos ciclos eternais.

(…). Superaqueceu-se. Então fulgurou, inaugurando o primeiro kalpa, a primeira eternidade. Esgotadas as suas reservas de combustível, entretanto, não mais produzindo calor, começou a esfriar, desestruturou-se, colapsou, encolhendo, contraindo-se até aniquilar-se. Em seu lugar, um superenergizado campo gravitacional giratório, de excepcional massa e força atrativa, se foi arqueando no passo da aceleração de sua rotação; encurvado, o espaço formou, literalmente, um buraco. Vencida pela gravidade absoluta a radiação tentaria libertar-se sem o conseguir, restando das tentativas cintilações que contornariam as bordas do campo, fixando os limites de uma região de força assombrosa, domínio abissal de energias altamente concentradas por trás do horizonte descrito pelos agonizantes restos de luz debatendo-se em vão na ânsia de escapar do seu confinamento; esse buraco se constituiria o útero no qual, até a sexta eternidade, universos seriam gerados.

A partir do kalpa emerso resplandecente das trevas, eternidades se sucederiam em trilhões e bilhões de anos, pudesse sua duração ser medida por nossa equivocada noção de tempo; viriam os dias e noites ancestrais.

DIAS E NOITES DE BRAMA: Os dias, ‘kalpas’, e noites, ‘pralayas’, de Brama têm, segundo a tradição, a duração de trezentos e onze trilhões e quarenta bilhões de anos. Cada dia, cada noite, equivaleria a uma eternidade. 

O bramanismo é um sistema religioso de castas e caráter político cuja liturgia se projeta do Veda, livro sagrado que compreende os hinos, formas sacrificais e regras gerais nas quais se assenta a tradição filosófica e religiosa da Índia; o vedismo, forma primitiva da religião dos hindus transformado lentamente para chegar ao hinduísmo, é a prática religioso/filosófica adotada pela maioria dos povos da Índia. Expressão do ‘darsana’, abrange as escolas filosóficas, ortodoxas quando se submetem ao Veda, ou heterodoxas, se representam em substância um conjunto de doutrinas voltado para o fim último da vida e seus desdobramentos. As ortodoxas são ‘niaia’, ‘vaisesica’, ‘sanquia’,  ‘yoga’, elemento temporal do ‘sanquia’, e ‘vedanta’, além da ‘mimansa’; entre as heterodoxas a mais conhecida é o budismo, destacando-se, ainda, entre elas o jainismo.

(…)

7 — COSMO-ENERGIAS DEPURADAS: Depuradas, as energias inteligentes alçar-se-iam ao Pralaya Atyankita, o Pralaya individual, dimensão espiritual compreendida no Paraíso cósmico, ou Nirvana, após o qual nenhuma existência seria possível, pois a perfeição é, por definição, imaterial.

Nirvana é um termo tomado ao sânscrito; significa o ‘apagar da chama’ ou a ‘cessação da vida’. Seu alcançamento induz a anulação das manifestações físicas, a superação dos instintos, a conquista da paz absoluta e a completa ausência de sofrimento na plenitude do ser, a realização da sabedoria, em última análise. Estado pessoal de elevação que o budismo mahayana identifica naquilo que de melhor, mais íntimo e profundo pode um humano alcançar, representa a perfeição elevada ao Cosmo quando a energia nesse patamar se desprende de sua forma física.  

O Nirvana tem seus mensageiros, muitos deles venerados na cultura mítica e religiosa do oriente, Mahavira, entre outros, nascido Vardhamana, contemporâneo do Buda, um reformador, para alguns o fundador do jainismo, nobre tradição histórico/ religiosa; ele exprimiu a realidade em jiva, a vida feita consciência, elevada da existência material, e ojiva, estado de não vida ocorrente se a existência se compreende apenas no material,  e via na conquista do Nirvana a quebra do ciclo do renascimento, eliminando a dependência cármica. Ksitigharb, um venerável boddhisattva, ser iluminado do budismo, chamado Jizo no Japão e Tsi-Tang na China, é reverenciado também no Tibete e na Índia, onde, patrono dos mortos no juízo final, ajuda-os a alcançar o Nirvana. E Maitreya, dos raros boddhisattva reverenciados tanto no theravada, ramo conservador do budismo, sucessor, como postula sua doutrina, em linha direta do ‘Sangha’, a comunidade monástica que primeiro aderiu aos ensinamentos do Buda, como no mahayana, ramo inovador originário da Índia que cultiva a face mitológica do Buda, filosoficamente expressa.  Budismo e jainismo são os principais ‘darsana’ (Rever a Nota 5).

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As energias estacionárias, rebotalhos evolutivos, retornariam ao caos da noite final.

 8 — A NOITE FINAL: O tempo do Cosmo associa-se à idade de Brama, cujo fim é atingido no Pralaya Prakritika, quando tudo o que existe é refundido e reconvertido ao estado primordial. Novos kalpas e pralayas se sucedem em novos universos nos quais a vida se revela em formas diversas a partir de energias não depuradas no grau mais elevado.

Pragas do gênero intelectivo cevadas na vulgaridade e no instinto, incapazes de evoluir, escravas das suas fatalidades, seriam tragadas para, a partir do seu ambiente natural, a desordem, materializarem-se em tantas existências quantas necessárias até se depurarem, se o quisessem.

E assim seria em muitas moradas do Universo onde a vida se manifestaria, embora de modo diferente, pela consequência lógica de sua preexistência, muitas formas inteligentes, não forçosamente físicas, mundos, seres e dimensões inimagináveis por inteligências físicas confinadas em seus invólucros, por isso de alcance limitado e difícil conexão com as inteligências imateriais universais. Se estacionárias, se não aperfeiçoadas nos caminhos do tempo, lá, em quaisquer lonjuras, continuariam, como aqui, mensageiras do caos, especialização da mediocridade, sua sina, seu infortúnio, sua desgraça.


 LIVRO II

DEUS, O UNIVERSO E A VIDA

O Universo, mais do que energia, materializada ou não, é a expressão de uma idéia superior que tem começo, meio e fim como qualquer outra. Segundo Platão, uma idéia é modelo de coisas sensíveis, objeto de contemplação pelo pensamento. O Autor

 Terá sido há cerca de 15 bilhões de anos.                       

Chegou com o amanhecer do dia cósmico da sétima eternidade o último kalpa antes do Pralaya Maior9.

9 — PRALAYA MAIOR OU MAHAPRALAYA: É o último Pralaya, em cujo limiar, cumprido o seu tempo, o Cosmo se desfaz em fluxo levando consigo as energias depuradas para depositá-las na Fonte que o gerou e é para todo o sempre, jamais repousa e vela pela Sua obra em todos os universos; força preexistente auto-aperfeiçoada, onisciente e onipresente, tudo é feito a partir dela. A ela se juntam as energias de Sua semelhança para com Ela permanecer, fortalecendo-a; só o Cosmo, criatura dileta, retornará sempre. Repousa por átimos de eternidade e quando se aproxima o fim do seu tempo todo o existente se arruína; quando o seu tempo se esgota tudo desaparece. Ele é o começo, o fim e o recomeço.

 (…)

No primeiro segundo de vida o Universo se expandiria num tranco, constituindo-se principalmente de radiação. Quarks formariam hádrons, figurados nos mésons, ou píons, káons, F-mésons, D-mésons e B-mésons; viriam também os bárions — prótons, nêutrons —, entre eles os instáveis, ou híperons, designação genérica das partículas elementares cuja massa se conteria entre a massa do nêutron e do dêuteron, núcleo do deutério feito de um próton e um nêutron. Sob condições ideais todas reagiriam com a força forte, extinguindo-se para ressuscitarem como novas partículas.

 18 — FORÇA FORTE: Uma força de curto alcance, mas muito intensa, que atua entre núcleons, as partículas que constituem o núcleo atômico, cuja estabilidade assegura; ela também orienta o comportamento dos hádrons quando colidem com partículas de alta energia, da mesma forma que mantém os quarks juntos no próton e no nêutron e estes também juntos no núcleo do átomo.

(…)

Monitorado a partir de suas intersecções, o tempo se tornaria uma vertente bidirecional do espaço.

 29 INTERSEÇÃO TEMPORAL, FATOR CAUSAL E LIVRE-ARBÍTRIO: Cada fator causal é uma interseção temporal que geralmente oferece alternativas, caminhos ou derivações como opção de livre-arbítrio, conceito filosófico um tanto obscuro que atribui ao homem a possibilidade de exercer esse poder pelo simples fato de estar aqui, de existir, podendo até ser indiferente a ele, o que parece altamente discutível; utilizado como freio social, ele nega ao homem uma justificativa metafísica dos seus atos, responsabilizando-o pelo que faz ou deixa de fazer. O princípio mais bem se conteria num real contexto filosófico se abrangesse pura e tão somente os atos de consciência, ou seja, o produto da atividade intelectiva informador dos atos advindos da faculdade de pensar e agir que caracteriza, ou deveria caracterizar, a espécie humana, contraposição à imobilidade ou às ações meramente reflexas, instintivas, mecânicas ou repetitivas que animam a dinâmica existencial.

(…)

Nascido de pais persas em Mardin, sul da Babilônia, localizada na região onde está o atual Iraque, Mani viveu de 215 a 276. Criador e teórico do maniqueísmo, movimento cuja denominação derivou-se do seu nome, um zoroastrismo renovado influenciado pelo Budismo, com o qual travou contato em sua viagem de profeta à Índia, foi ferozmente combatido pelos sectários de Zoroastro, ou Zaratustra, reformador da ancestral religião da Pérsia, hoje Irã; nascido em Ariana Vejá em ano incerto, de início fixado ao redor de -600, depois pelo ano -1000, é admitido atualmente que pode ter nascido em época bem anterior, até mesmo no segundo milênio antes da Era Comum. Convencendo o rei Baram I de que Mani representava grave risco para a religião nacional, seus desafetos conseguiram mandá-lo para a prisão na qual morreu. Qualquer semelhança com a história oficial de Jesus pode não ser mera coincidência.

Ele não era lá muito modesto; auto proclamado um profeta da linha de Buda e Jesus, anunciava-se somatório dos dois e produto final de uma longa elaboração profética. Segundo a doutrina maniqueísta, o mundo se criara sob inspiração das forças do bem, Deus, o espírito, a luz, e do mal, o diabo, a matéria, as trevas, isomorfas até que um formidável cataclismo as fundiu num só espectro do qual surgiu o homem, cuja alma, aprisionada no corpo, se libertaria quando ingressasse no reino da luz através dele, ou seja, criou um ordenamento metafísico predecessor do pecado original e sujeitou o homem, fazendo-o um pecador de nascença e proclamando-se, senão a luz, o caminho para ela.

Ajuize-se; (…) e culpa metafísica para depois (…) é uma prática astuciosa, antiga e reiterada. Um homem inteligente, (…); maniqueu de carteirinha, (…), divertiu-se à larga desancando seus ex-camaradas. Combater os dissidentes já era, na época, (…), com uma boa ajuda da filosofia aristotélica.

O termo maniqueísmo tornou-se designativo de quaisquer doutrinas ou situações contraditórias, não necessariamente opondo o bem e o mal.

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Crer em um Universo criado e dominado por dois princípios eternos e antagônicos, Deus, o bem absoluto, e diabo, o mal absoluto, é dar curso a um arremedo da lógica, a forma dicotômica de desdobrar um conceito em dois outros, habitualmente opostos e antagônicos, consubstanciais com a natureza de um silogismo às avessas no qual bem e mal são premissas que se concluem no Universo. Acreditar nisso é cuidar que este é filho do bem e do mal, de Deus e do diabo, rematado equívoco na maneira de expressar a complementaridade dos opostos ou da física, expressões distintas de um mesmo fenômeno, formas especiais de energia substancialmente distintas que não se podem combinar para gerar o que quer seja; o maniqueísmo é demasiado simplista. O bem e o mal de Zoroastro e Mani, irredutíveis e perenes, rejeitam o aprimoramento do primeiro e a reversão do segundo, o que não é endossado pela experiência. A proposição trescala leviandade, insanidade ou pura falta do que fazer. Diabo é uma alegoria infantil para o instinto, para a vida vivida sem indagações maiores, ficção que se propõe dar feições ao mal, não existente como elemento constitutivo da natureza. Não há porque pretender uma entidade maligna vagando a Terra em seus primórdios, um ermo, provavelmente uma chatice monumental, à caça de uma entidade benigna, (…), apenas para encher o tempo; o homem, que pode até mesmo ser bom ou grandioso, não obstante quase nunca o seja, não havia ainda chegado a ela.

Bem e mal são graus do comportamento humanos manifestados nos mais altos níveis de consciência tornados possíveis pelo cérebro novo, por um lado, e na animalidade do instinto represada no cérebro antigo, por outro, que contamina o intelecto e o faz sádico, destrutivo, abjeto, atitudes do homem, juízos de atribuição. A plenitude espiritual, expressão humana de Deus e dimensão sagrada do homem Nele realizado, é o bem absoluto; o mal absoluto é a índole primitiva apresada na mente, a alma da espécie, forças biológicas inconscientes obstinadas em si mesmas irrompendo do ser inteligente para devolvê-lo à fera. Não há bem ou mal sem o homem, que não é, no entanto, originalmente pecador. Não poderia sê-lo, mais lhe esteja entranhada tal noção, simplesmente porque o pecado não existe; a natureza humana é ambígua, só isso. Ao cérebro antigo, limite evolutivo dos hominídeos homo, gênero da família primata-simiiforme perdido no tempo, foi superposto um característico dispositivo límbico-homocêntrico capaz de produzir seres melhores; seu desempenho deveria prevalecer ao instinto, circunscrever o cérebro antigo às suas funções típicas. Planejado para controlá-lo, não conseguiu, contudo, fazer dele uma unidade auxiliar, permitindo à sua extraordinária energia confrontá-lo e a ele impor-se com indesejável frequência para engendrar lunáticos tirânicos, sanguinários, e alentada malta de degenerados que no chafurdar de sua baba peçonhenta mente, rasteja, dissimula, detrata, rouba, tiraniza e mata, vezes até exclusivamente para sentir cheiro de sangue, tantas as deformidades da espécie.

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