Primeira feiticeira: Quando nos encontraremos outra vez? Sob o trovão, sob o raio ou na chuva?                                                                      

Segunda feiticeira: Quando se fizer o caos e a batalha estiver perdida e vencida. Terceira feiticeira: Isso acontecerá antes do pôr do Sol.                                      

(William Shakespeare, The Tragedy of Macbeth, Ato I, Cena I, Tradução do autor)

Surgido ao acaso de despretensiosas anotações pessoais para dizer um pouco do que penso e para contar histórias, este não é um livro para radicais prisioneiros de suas intolerâncias ou bons-moços encastelados em seus convencionalismos e tediosos em suas ostentações de virtude. Escrito para as pessoas intelectualmente ativas ocupadas em ganhar a vida, sem tempo para garimpar informações que lhes sustentem expectativas descomprometidas de verdades que outros estabeleceram por elas e para elas, ele se empenha numa perspectiva do noûs sobreposta ao lugar comum, apartada do ceticismo, da fé cega ou da descrença absoluta. Sentir-me-ei compensado se da sua leitura emergir uma verdade, solitária seja ela, daquelas necessárias e de contrário impossível, filosoficamente definidas como verdades de razão, que amplie os confins da identidade de um único leitor, redefinindo-o ao revigorar-lhe o espírito, bocado de Deus depositado em seu estrato mais íntimo, um tesouro para os que lavram na seara da consciência, capazes de arrostar a si mesmos, enfrentarem-se na crueza de sua natureza galvanizada e reverem-se à luz de novos conceitos.

Não me anima em suas páginas fazer ecoar a minha verdade, pois não existe a minha, a tua, a verdade daquele outro; visões pessoais, vieses sociais, culturais, religiosos ou de qualquer outra índole não são verdades. Alter ego do fato, valor absoluto contido apenas em si mesmo, a verdade é um bem de valor inestimável a ser protegido daquela classe de alienados, tema de fundo deste trabalho, decididamente aplicada em fazê-la relativa e casuística, como fazem com a moral e com a ética. Privados de aptidão para evoluir, para se aperfeiçoarem, incapazes de se darem real expressão humana, toscos exemplares da nação sapiens sapiens atolados no lamaçal dos instintos, festejam sua pobreza espiritual na exaltação da vulgaridade, na ritualização do banal, no proveito a qualquer custo, no leviano usufruto do material e na celebração da mediocridade. Parafraseando Peter Ward,                                                      

são bólidos que atingiram a Terra e podem destruí-la (bibliografia 31/97).   

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 O colóquio das feiticeiras é usado por simbolismo, como Gog e Magog, Armagedon, os Sete Flagelos, o Átrio do Fim dos Tempos e o Juízo de Deus; voltaremos a encontrá-las no epílogo. Simbolizam aqui o vértice do poder, uma tríade, na alta antiguidade o pressuposto da divindade, que constrói e destrói, dá a vida e a tira. O reencontro sob os elementos é a batalha perdida e vencida,  aquela em que não há vencedores, todos perdem; o momento antes do pôr do Sol é o prelúdio do fim, o pôr do Sol o marco final, linde extremo da derradeira tolice humana praticada por consequência do domínio da causa primeira, única de sua espécie, da qual tudo se originou, da qual advém todo o existente, que existiria ainda nada mais existisse; tudo é a causa primeira, nada existe fora dela, energia. É disso, de suas manifestações que, no contexto, nos estariam falando as três irmãs Weird.

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 Seus capítulos, aos quais se chamam livros por serem conclusivos, podem ser lidos isoladamente sem perderem o sentido; embora operando como pano de fundo para o livro seguinte, não se atrelam, encadeando o caos primordial, o nascimento do Universo, as partículas subatômicas, as estrelas, os planetas e sua formação, a Terra, quadro pintado sobre a tela escura do abismo com as tintas fecundas da incriada e inesgotável energia pré-universal, da qual tudo se originou. Vida pré-existente materializada na progressão, ainda em curso, da longa jornada evolutiva que colocou o mono, herdeiro do mamífero ancestral, sobre duas pernas, ela gerou uma espécie para distinguir-se dos animais de outros gêneros; não obstante, a alma dessa espécie conservou resíduos do primeiro terráqueo, o réptil, e da fera dele evoluída. Essa combinação impudica de astúcia e brutalidade cevou a conspiração principiada no amanhecer da humanização da vida e a alimenta no decorrer do tempo com intolerância, descuido moral e ético, barbárie e cupidez, antecipando o instinto à consciência, sobrelevando o vulgar à excelência, dolorosa rotina de idade e sanha parelhos à idade do homem, tragédia do indivíduo não humanizado que dela não se dá conta.

Deus, o homem, física, biologia, religião, história e romance varam o texto em reflexões sobre a vida, seu fim, sua beleza e rigor, pungente, às vezes; notas aditam-no, em destaque, para melhor compreensão de alguns temas, dispensáveis, assim entenda o leitor avesso a detalhes. A física tem tratamento diferenciado; as partículas subatômicas e suas construções são examinadas com um pouco mais de largueza por constituírem, juntamente com a biologia, examinada à luz da célula, antecedentes necessários deste trabalho, voltado para os aspectos científicos, técnicos e lógicos mínimos dos quais decorre o nosso mundo.

O desenvolvimento dos estudos da Física e da Biologia constituiu o sopro de conhecimento que levantou o véu sob o qual oculta a divindade, a primeira interpretando as leis reguladoras do fascinante Universo onde vivemos, abrindo-nos perspectivas do passado mais remoto e permitindo compreendamos com boa margem de acerto a sucessão de estados que nos trouxe a ele, a segunda desmontando o frágil e intrincado mecanismo da vida física. Com isso a ciência decretou o fim de supostos mistérios, na verdade preceitos carentes de bases lógicas formulados sobre os parcos conhecimentos das raras fontes dos tempos da ignorância quase absoluta submetida pela vaga noção do sagrado e fascinada pelo encanto da lenda.

À ciência sobrevive, porém, de inúmeras formas e matizes, o misticismo, cujas expressões nada mais são do que alegorias do fantástico produzidas na perda de contato com a realidade, regra nos distúrbios esquizotípicos.

(…)

O livro está impregnado da idéia de Deus manifestada na energia, estado absoluto de força e potência conceptual ao atributo da inteligência em grau infinito, o Ser ideal constituído em Si e por Si, nexo de ordem de realidades complexas, fundamento primeiro e estado último, concepção a partir da qual são repensadas a origem do Universo, a formulação de suas rotinas e o produto da sua implementação sem o desaviso de pressupô-los mero produto do acaso, privilegiando-se a fenomenologia que nos remete à essência das coisas e à intuição dos fatos em sua origem, afastando-se o (…), desafeto do racional, mas tomando em consideração a complementaridade, aspecto alterado de um mesmo fenômeno, proposta  de reflexão no sentido de uma prodigiosa inteligência por trás das forças que tiraram do nada um Ser complexo explicado pelas leis da mecânica, a economia do macrocosmo expressa concreta ou abstratamente a partir de uma idéia grandiosa, com começo, meio e fim, como qualquer outra, nela abrangidos o corpo mais sólido e as mais puras projeções do pensamento, a Unidade expressa ao se tocarem elementar e complementar.

Só se inferem universos e existências, expressões distintas do ente energia, se, multiforme, o tomarmos por causa e efeito de si próprio, em contínuo processo de mutação, uma variedade de estados que produzem fenômenos distintos, peculiares, mas sustentando completa conservação de si mesmo, forças que, estando na gênese da idéia cósmica, tangenciam o ser humano e podem, em substância, proporcionar-lhe desbordar de sua expressão física e projetar sua energia, combinando-a com as energias do Cosmo, a seara de Deus.

(…), o homem desonera-se de caminhar nas trevas. É fundamental penetrar os esconsos mentais, descerrar os espaços interiores, respirar a brisa fresca (…), arejar as consciências, redirecionar-se para as coisas essenciais; inadmissível sejam estabelecidas por terceiros, elas se devem assentar pela busca de cada ser humano nas jornadas existenciais da vida, ensejos para o espírito, viagens atemporais por luzes e sombras, píncaros e profundezas, permanente revisão de velhos conceitos, desarme do parti pris, que não engrandece ou ascende.

 (…).

Boa parte dos livros I e II utiliza o método figurativo para teorizar   as origens do Universo e seus possíveis elementos formadores, um modo de expressão, idéias formuladas com palavras. Utilizarei o mesmo recurso para ilustrar o tanto que uma revisão de atitudes pode revelar-se saudável. É algo pessoal, permita-me.

(…), equipamento de linguagem SPS para autocoder  evoluindo para Assembler, quando fui viver e trabalhar em São Paulo, Capital, numa época em que a predação humana não havia ainda produzido os resultados  alarmantes de agora; era 1962, e fazia frio de verdade. Habituado ao calor da região do Rio de Janeiro eu tiritava no ambiente, para mim glacial, em que a máquina operava, programada, pouquinho mais, pouquinho menos, como o teria sido a máquina analítica projetada por Charles Babbage ao redor de 1830, por analogia o que se faz até hoje.

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CHARLES BABBAGE: matemático nascido no Devonshire, Inglaterra, em 1792 e morto em 1871. Já tendo projetado um equipamento que, somente construído experimentalmente em 1991, mostrou capacidade de operar com até 31 dígitos, projetou também no início da década de 30 do século XIX um equipamento mais avançado para cálculos complexos, jamais construído.

Eu me comprazo em imaginar aonde teria chegado a fantástica geração de cientistas do final do século XIX e primeiros trinta anos do século XX se tal sistema e seus sucessores, que fatalmente teriam vindo, pudesse ter estado à sua disposição, abreviando em muito o trabalho de cálculos e ampliando enormemente as possibilidades de desenvolverem novas teorias. Onde já estaríamos?

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Um programa-fonte, depois maquinizado, utilizava os símbolos do fluxograma para definir entre duas alternativas o fluxo de processamento dos dados, um algoritmo, conjunto de instruções elaborado para alcançar determinado fim; sua lógica: se ocorrer A, faça B, se der C, faça D.

O computador em seu desenvolvimento gerou novos conceitos de trabalho e logrou padrões de operação realmente funcionais, indo além da utilidade real de primeira hora, o processamento sem maior sofisticação de grande massa de dados; embora um pateta inteligente, como a ele se referia (…), ganhava crescentte agilidade e versatilidade. Aqui a analogia.

O cérebro consciente, a CPU do homem, não se presta a armazenar grande massa de dados de uso eventual ou a largos períodos, nem sempre está com o prompt ativo e não tem um buffer, tipo de memória secundária usado para armazenagem temporária de dados; a memória subconsciente, noutro nível, não é um dispositivo operacional. A máquina foi criada para  suprir a quase nenhuma capacidade de armazenamento e processamento de dados do cérebro humano, um upgrade, fadada, apesar dos fantásticos avanços, a permanecer, como é agora, o pateta inteligente (…); não é provável possa um dia chegar à simbiose com o ser humano, conforme supõem algumas brilhantes inteligências. A teoria defende a implantação no cérebro humano de componentes de silício para estabelecer condições de interação homem/máquina através de circuitos elétricos pelos quais se comunicariam, pretendendo que isso a faria inteligente, capaz de decidir sem o input de dados/instruções. Não muda nada; o mostrengo continuará dependendo do homem para acioná-lo e dificilmente deixará de operar no código binário, seu modo de pensar desde os primórdios da computação automatizada. Não se vislumbra qualquer possibilidade de transformação no raciocínio dos autômatos; se não programadas por inteligências vivas, qualquer seja a forma de vida que as tenham projetado ou possam criar, máquinas nunca decidirão qualquer coisa, jamais pensarão.

As concepções  científicas são formas aplicadas de fé, antevisões demodelos ideados em curso de realização, com as restrições da experiência comum no sentido de sua falibilidade; não exprimem certeza, mas intenso desejo, sujeito o mais das vezes, para sua realização, a muita dedicação e esforço apoiados em pressupostos lógicos. A realidade, em vez de apontar para a máquina realizando-se no homem, mostra-o, na média, pensante do código binário, um robô de funções básicas alternando-se de instrumento a componente operacional do Sistema, ferramenta a ser utilizada segundo o interesse de seus programadores. É assim, mas não tem de ser assim.

O cérebro humano, ainda em desenvolvimento, pode ultrapassar as expectativas de permanecer robô, dispositivo operacional ou converter-se em mecanismo auxiliar da máquina. Utilizado à escassa proporção de um quarto do seu potencial, é um terminal do magnífico mainframe Universo, a CPU que processa coleções de dados e envia informações para toda a sua rede. Com alguma capacidade de processamento e retenção de dados, o terminal opera o sistema homem em modo não padronizado, estabelecido consoante o seu status, por meio de circuitos-filtro ligados ao processador central e com a memória principal através de um canal por onde transitam in/out feixes de energia-arquivo gerados na CPU remota que ele pode ler. Lê-los e processá-los adequadamente possibilita-lhe penetrar o mundo das coisas sensíveis onde jóias contemplativas esperam por serem descobertas para o introduzirem, de parte fantasias místicas, no modo da Consciência do Universo, um regresso, uma revisitação de sua energia às energias das fontes vitais, Autoconsciência, começo de caminho para quem assume as responsabilidades de existir, luta suas lutas, divide vitórias e pessoaliza as derrotas, tem-nas por lições na presunção da realidade de uma inteligência cósmica justa, com a qual pode comunicar-se e nela fortalecer-se para a liça da vida sem medo de castigos ou aspirando a graças especiais, apenas dando de si após fortalecido no exercício da fé da razão, estóica, lúcida.

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(…). Não era nada daquilo que eu me acostumara a ver como computador; menor do que um televisor de vinte polegadas, a máquina, um modelo monobloco de 1990 que operava à temperatura ambiente sem maiores exigências quanto à climatização (…); a menção é comparativa, evidentemente. Para você, de idade pelos quarenta anos, essas máquinas, os seus recursos e o que se seguiu, rápido, foram e são coisas corriqueiras; para a minha geração, sem exageros, eram uma espécie de materialização do fantástico antecipado pela ficção científica de quando éramos meninos, os chamados bons velhos tempos. 

Eu gostei, mas, para lidar com aquelas pequenas caixas de surpresa, tive de aprender a partir do zero, alfabetizar-me, para verificar, vencido o primeiro momento, que a lida era extremamente simples se consideradas as manias e exigências dos computadores dos tempos antigos, a realidade virtual tornada possível por simples toques, convertida em aparentemente inesgotável fonte de conhecimentos e recursos que mudaria o mundo de forma irreversível. Neste exato momento estou batucando no teclado de um laptop que trabalha sem endoidar à temperatura ambiente do verão do Rio de Janeiro, (…). 

Por que tudo isso? Bem, você não pode, pelo menos por enquanto, trocar o seu hardware, sua CPU, mas pode forçar um upgrade, melhorar o software, aumentar sua capacidade de processamento sem precisar saltar, figuradamente, (…). Para processar informações inortodoxas e complexas aportadas com novos conceitos são necessários novos programas que provavelmente a sua atual configuração não conseguirá rodar; minha experiência pessoal – embora experiências pessoais não se transfiram – mostrou-me que o upgrade vale a pena. Lá para frente você vai saber por quê. É preciso dar o passo à frente.

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 O livro que você tem nas mãos esquadrinha, além das primícias da energia, o Universo, o homem e características perversas das sociedades humanas compreendidas em uma conspiração virulentamente destrutiva desdobrada no tempo e variada no método nascida da execrável pobreza espiritual de seus inspiradores e executores. Examinando-as sem os panos quentes do acumpliciamento, incapaz para o (…), bastando, para tanto, certeza manifesta ou garantias históricas que o contradiga ou revele inconsistente. Devemos todos e cada um manter as melhores relações com a verdade.

Para melhor compreensão algumas observações são necessárias: (1) as notas impressas em azul, não justificadas, detalham no destaque o tema ou termo de nomenclatura ou emprego inusual; (2) número/número exprime seqüência e página da obra arrolada na bibliografia, precedida de romanos I, II, III, etc. (II-7/número, por exemplo) a segmentação das obras em mais de um volume para indicar volume, sequencial e página — as referências à versão do NT (…) fluem sob a forma 1/número, identificando sequência e página, considerando que sua paginação não se interrompe na passagem do Antigo para o Novo Testamento; as referências à edição da (…) aparecem como 2-AT/número ou 2-NT/número, indicando-a, e se Antigo ou Novo Testamento e página, uma vez que cada um dos textos tem paginação própria. Quando a idéia ou conceito remete a abordagens já feitas por qualquer autor cuja obra conste da bibliografia ou se ilustre por transcrição de trecho curto do livro, seu nome antecede o número sequencial e o número da página (Crossan 17/número, por ex.); (3) a bibliografia registra, quando disponíveis, informações essenciais sobre os autores visando sua identificação para adequado posicionamento quanto à obra; afinal, (4) os itálicos são utilizados nas citações de frases e pequenos trechos de obras listadas na bibliografia e para destacar palavras do texto com sentido ambíguo; são empregados, ainda, quando grafadas no original palavras ou expressões de idioma que não o português.

Excetuando raras menções diretas, os exemplares bibliográficos em grego e hebraico não são mencionados ou destacados por não comporem uma referência de percepção geral.

(…)

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Histórias são histórias, simplesmente as contamos, mas, para falar honestamente daquilo que pensamos, é necessário nos tornemos íntimos da verdade tantas vezes oculta ou ignorada pelo credo ut intelligam, pelos interesses. É gigantesca a dificuldade em discernir aquela destes, sempre eficazes na sua distorção, na maliciosa combinação de conceitos díspares, baralhando significados sem nenhum respeito pela mais rara das emoções humanas, como se fôssemos todos amoráveis; não somos. Não encontro motivos para me congratular com aquela parcela da humanidade em parte constituída por senhores poderosos, outros nem tanto, a maioria figurante ancorada entre o ser e o não ser, invertidos éticos e morais que por razões pessoais e econômicas, às vezes por nada, e até por mero ressentimento, fazem guerras, destroçam crianças e desarranjam famílias, dissimulam, matam, roubam, concebem imposturas, mentem, detratam e destilam sua peçonha, por inveja, para resguardar interesses, vantagens, conveniências.

Não costumo não gostar de gente, mesmo como essa aí em cima; apenas, e simplesmente, não a respeito. Reservo minhas emoções para as pessoas que justificam suas existências no pedaço de Universo onde vivemos, compensações para a sombria feiúra existencial às vezes muito próxima de nós, bem mais do que desejaríamos. Gente na acepção deste trecho do livro se compreende no nivelamento dos exemplares da espécie, no posicionamento de todos de nós em elevado patamar ético/moral. Tenho dúvidas quanto a gostar-se de gente generalizando a proposição, empregar a expressão de maneira elástica; não vejo como assim possa ser  se pretendemos ser razoáveis. Respeito pessoas, sinto por algumas enorme carinho, tão grande que, pudesse, lhes ofereceria um buquê de estrelas. Não generalizo, contudo; gostar, sem reservas, de gente conduz, não raro, a terríveis decepções. Conscientemente ninguém o faz, ou, pelo menos, parece-me, não deveria fazê-lo.  

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Você conhece muitas histórias fantásticas de deuses, mas nunca lhe foi dado saber onde estão ou o que são além de implacáveis precursores das partidas dobradas padronizadas por Luca Paccioli. Bons contadores, adotam a regra básica: a cada débito ou crédito corresponde um crédito ou um débito; intolerantes, exclusivistas, ciumentos, implacáveis e odientos, sua assistência tem preço. Habitaram entre os homens, divertiram-se com suas filhas e geraram descendência, parte exaurida na lenda, parte perdida na bulha ficcional, produto da visão humana confundida numa barafunda que repele qualquer esforço para estabelecer-se onde termina a mitologia e começam as colusões. Reflitamos, tentemos juntos colocar um pouco de ordem nesse assunto para melhor nos situarmos, pensar (…), Universo, homem com base científica mínima. É possível. Debruçado sobre os seus compêndios, genial, o cientista também cismou, disse da mente de Deus, desmistificou o Universo, mas não atentou na memória de nossa origem remota, insondada, perdida em meio ao seu imenso cabedal técnico; como força inteligente a energia passa ao largo do seu crivo por compreender-se seara estranha ao seu extraordinário intelecto. A resposta à sua pergunta pode estar muito além dos limites da física.

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LIVRO I                                                                                                                              EMERGINDO DO CAOS

 Terá o Universo, realmente, um começo e um fim? E, se tiver, com o que se parecem? (Stephen William Hawking, Uma Breve História do Tempo, Rocco, Rio de Janeiro, 1997, tradução de Maria Helena Torres, p. 163)

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­É imemorial, para além, muito além de 15 bilhões de anos.                                                  

Era o abismo,escuro, frio, silencioso. E a singularidade, imensa, descomunal, donde, numa bolha de espaço-tempo, energias terão vazado.

 ENERGIA: a energia se materializa e reconverte; conforme a primeira lei da Termodinâmica ela não pode ser criada, mas apenas modificada. Termodinâmica é o ramo da física voltado para as formas pelas quais a energia se transforma e para os meios e modos como se operam as transformações.

CAOS: nas antigas mitologias e cosmogonias — ramo do conhecimento derivado da astronomia que trata da origem e evolução do Universo ou de universos —, era a desordem absoluta donde se originavam os mundos; o vocábulo é usado também para referir o Universo em seu início como acentuadamente irregular e heterogêneo.

 SINGULARIDADE: região do espaço-tempo alheia  às leis da física, a cujas propriedades as equações correntes não se aplicam. O Buraco Negro, intensa concentração de energia provocada pela contração de uma estrela até quase o zero, um campo gravitacional de irresistível poder de atração com curvatura infinita, está entre as várias formas de singularidade; figuradamente é um caos.

 A bolha vagou; suas energias, ordenadas, constituíram um Universo vivo e inteligente, que, findo o seu ciclo, (…)

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