(…). De súbito, seu coração disparou; ela dissera, de certa feita, que assim completasse dezoito anos lhe daria a prova definitiva do seu amor, lembrou-se. Perturbou-se, ansioso.

Jean-Philipe instruiu um cavalariço para deixar a montaria de Marie-Anne encilhada e  assisti-la quando a pedisse. Em seguida saiu e cavalgou a passo a caminho da ravina,  concentrado em seus pensamentos; havia algo se esboçando, refletia, (…). A sombra de Ambroise de Sousse o rondava. Nunca haviam sido normais as relações entre eles; a princípio indiferentes, fizeram-se um tanto agressivas, para se tornarem provocações permanentes, veladas ou ostensivas por parte do senhor de Vailliers, ao sabor do seu humor. Jean-Philipe, de seu turno, sensível à atenção e ao carinho da senhora da Propriedade, desarmou-se. Reconhecia que logo à sua chegada houvera sido arredio ao ambiente de latente vulgaridade, apesar da riqueza que o cercava. Criança, ainda, não percebera, de saída, como isso o afetava; o passar dos anos, todavia, lhe permitira melhor compreensão do que se passava em seu íntimo, com reflexos em seu comportamento. Viera de um convívio de discreto refinamento e despojada elegância no qual se sentia verdadeiramente amado, não suportando, assim a piedade de que era objeto e os modos cúpidos e ostentatórios do meio em que passara a viver. Refugiado nos permanentes cuidados de Vicentine, na delicadeza e sensibilidade de Marie-Anne, pudera desenvolver sua personalidade segundo regras absolutamente estranhas à burguesia endinheirada e mal-educada. Agora, suas relações com o senhor de Vailliers haviam se deteriorado irreversivelmente; mesmo a senhora, de quem recebera, sempre, demonstrações de afeto mostrava-se reservada, e, reconhecia, ela tinha suas razões. Afinal, havendo atingido, como atingiu, o senhor da Propriedade, outra não poderia ser a sua posição. (…)

Chegando ao destino, desmontou e prendeu as rédeas do cavalo aos galhos secos de um arbusto, sentando-se em seguida na pedra deslocada da encosta pelas chuvas, onde se acomodavam para conversar, ele e Marie-Anne, a cada vez que iam até o pequeno bosque. Ensimesmado, esperou.

Um tropel sacudiu-o de seus pensamentos; era ela chegando a galope, em seu cavalo branco e imponente, crina sedosa e movimentos nervosos, submisso às ordens de sua dona. Correu-lhes ao encontro; o belo animal estacou, suave, indo a passo curto em sua direção. Ele segurou firme o cabresto de gargantua e o conduziu para junto do seu cavalo; em seguida ajudou Marie-Anne a desmontar. Tão logo pôs os pés no chão ela o abraçou de uma forma como nunca houvera feito antes, beijando-o com amor e desejo. Desvencilhando-se dela delicadamente, conduziu-a para a pedra, onde sentaram.

 – Nane, meu tesouro, o que estás fazendo? Estamos sós, em plena tarde, aqui na ravina. Por que vieste sem Vicentine?                                                                                                  – Não te atormentes, meu amor; este foi um dos presentes que me foi dado por meu pai.                                                                                                                                                                        – Presente?                                                                                                                                                         – Sim, presente. Ele me chamou a sós na biblioteca e me disse: “Atingiste a maioridade; não mais precisas da companhia de Vicentine para cavalgar ou fazer qualquer outra coisa, a menos que o desejes pessoalmente.” Apenas pediu-me para não comentar tal decisão com ninguém, evitando a impressão de haver partido dele a iniciativa e não do meu senso de independência. “Pensando bem”, continuou ele, “tu és agora uma mulher adulta e eu não quero passar a idéia de que continuas uma criança mimada.

 Jean-Philipe ergueu-se num salto, como se uma mola o houvesse impulsionado; seu cérebro latejou breve e agudamente, parecendo haver sido trespassado por uma lâmina. Levantou os olhos e percebeu um vulto fugindo-lhe à vista por entre os arbustos, depois outro.

Segurou bruscamente a mão de Marie-Anne e caminhou rápido em direção aos cavalos; ela assustou-se.

 – Jean, o que estás fazendo? O que está acontecendo?                                                                   – Venha, meu amor, vamos voltar, no caminho eu te explico.

 Chegando junto a gargantua largou-a e inclinou-se, estendendo os braços para baixo e entrelaçando os dedos. Ela apoiou-se em seu ombro e, enquanto colocava o pé esquerdo no estribo formado pelas mãos de dedos entrelaçados, apoiou a mão direita na cabeça da sela; foi literalmente atirada para o dorso do animal.  A voltas, contido por rédeas curtas, o cavalo de Marie-Anne pateava indócil como a compreender a urgência do momento; Jean-Philipe, correndo para o seu cavalo, montou-o.

 – Segue à frente e galopa o mais rápido que puderes, gritou.

 Marie-Anne voltou sua montaria para o caminho por aonde viera e afrouxou as rédeas. O imponente puro sangue arremeteu eletrizado, a crina prateada ondeando ao vento, seguido a curta distância pelo árabe de Jean-Philipe, rédeas a meio punho para não incomodá-lo; encurvado sobre a cabeça da sela e com o rosto próximo ao ouvido do animal, estimulava-o com ruídos de tons diferentes produzidos pelo estalar da língua filtrado pelos lábios ora apertados, ora entreabertos, como a lhe falar em sua impaciência competitiva que não ultrapassasse gargantua. Galoparam freneticamente pelo campo até avistarem o Palacete a uma distância tranquilizadora, quando, então, Jean soltou as rédeas de sua montaria, cingindo-lhe com os calcanhares em botas, mas sem esporas, os flancos; num salto o árabe disparou e ultrapassou gargantua. Mão direita firme nas rédeas, o experiente cavaleiro estendeu o braço esquerdo para baixo e fez com a mão movimentos cadenciados, sinalizando a Marie-Anne para conter o seu cavalo, enquanto ele próprio continha o seu até a andadura do trote. Com um aceno, pediu-lhe para emparelhar com ele; os animais puseram-se lado a lado, estreitando a distância entre eles até quase se tocarem. Ela expectante, ele permaneceu calado, olhos perscrutando em torno para certificar-se de que não estavam sendo seguidos.

 – Notaste algo diferente quando cavalgavas ao meu encontro?                                                 – Algo como o que, por exemplo?                                                                                                           – Responda-me, insistiu ele delicadamente.                                                                                       – Não, nada, quer dizer, não prestei atenção senão no caminho; estava ansiosa por encontrar-te.                                                                                                                                                    – Foste seguida; de pouco menos de um mês para cá eu tenho sido permanentemente seguido, dentro e fora de Vailliers. Terei eu próprio sido seguido esta tarde, talvez ambos de nós. Por mim, não tomei os cuidados que deveria tomar, absorto em meus pensamentos desde que Vicentine me passou tua mensagem e por todo o caminho até a ravina.                                                                                                                                                             – Como podes afirmar que tens sido seguido, Jean, ou que podemos ter sido seguidos os dois esta tarde; com que propósito?                                                                                                – Diga-me, tu te inteiraste do que sucedeu entre eu e teu pai poucas semanas antes do teu aniversário, algo grave que nos incompatibilizou definitivamente?                                – O que sucedeu, Jean? Eu não me inteirei de coisa alguma nesse sentido; para mim tudo está como sempre esteve, um leve antagonismo sem consequências, nada de mais sério. O que fizeste, Jean?                                                                                                                – O que tinha de fazer, meu carinho; por que não perguntas o que fez o senhor teu pai?  – Muito bem, o que fez ele dessa vez, e como reagiste tu?                                                             – Não temos tempo agora, estamos nos aproximando do Palacete e precisamos nos separar. Segue para casa. Eu tomarei o atalho que leva ao caminho de Épernay e voltarei até o Círculo de Hipismo.                                                                                                          – O que está acontecendo, Jonô? Deve se alguma coisa realmente muito séria; nunca me deixaste a meio de caminho.                                                                                                              – Bem o sabes, Nane, depois conversaremos. Enviei Barthou ao Círculo pela manhã, assim que recebi tua mensagem, para avisar que me atrasaria para as aulas desta tarde; não quero e não posso atrasar-me ainda mais. Por favor, confia em que estou fazendo o que julgo ser melhor para ti. Não estou preocupado comigo próprio, só me preocupo contigo.

(…)

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