Tudo, rigorosamente tudo na Criação, inclusive você e o que lhe concerne, éproduto de interminável sucessão de causa e efeito, não importa quão remota seja a causa.      O Autor

Foi há cinco bilhões de anos.

Despojos superaquecidos de estrelas despedaçadas por potentes explosões vagaram espaço a fora em meio a nuvens de poeira interestelar, gases e poeira composta por materiais diversos liberados na explosão da qual surgiu o Universo. Por condensação, provavelmente provocada pelas ondas de choque resultantes das explosões estelares, os gases em volta do material rochoso foram a pouco e pouco se agregando até formar com ele e com os demais materiais um complexo constituído de hidrogênio em sua quase totalidade, continuamente espessado até transformar-se numa densa nebulosa. Empurrados em direção ao seu centro, os átomos dos gases em processo de compactação intensificaram a pressão sobre o núcleo rochoso constituído pelos detritos estelares até incendiá-los; sob excepcional calor, acelerou-se a troca de grávitons entre as partículas, produzindo uma força gravitacional extraordinariamente poderosa que começou a atrair a massa gasosa das regiões próximas, além de tudo o quanto pôde atingir num raio de milhões de quilômetros. Singularizando a hipótese descrita, formou-se uma estrela de tamanho relativo no cotejo com outras moldadas por igual processo, um protótipo do nosso Sol. Sobras de sua voracidade, a ela não incorporadas – compostos de ferro, nitrogênio, carbono, uma extensa gama de materiais -, formaram uma poderosa corrente circundante cujas partículas, aquecidas a extremo, dispararam girando a altíssima velocidade em torno da nebulosa proto-solar, circulando-a mais rápido do que ela girava, não sendo por isso absorvida.  

Em cerca de 500 milhões de anos o núcleo estável do modelo final tornou-se uma estrela de média grandeza feita basicamente de hidrogênio, carbono e nitrogênio; saturada de energia a nebulosa fez-se, com extensos milhões de quilômetros, sua atmosfera. Enfraquecida pelo calor a corrente giratória rompeu-se, dispersando suas partes por regiões próximas, onde se mantiveram sob o poder gravitacional do que seria o nosso Sol.

Formando campos gravitacionais próprios, os fragmentos de maior tamanho e densidade começaram a atrair fragmentos menores, crescendo em tamanho, densidade e poder de atração, incrementando o seu potencial gravífico; estavam surgindo novos corpos celestes, os planetesimais.

 48 — PLANETESIMAIS: corpos sólidos de dimensões variadas, formados pelo agrupamento de fragmentos da nebulosa proto-solar colapsada.

 Alguns, maiores, de média e alta rotação, constituídos basicamente de gás, não exerceram sobre os seus pequenos núcleos rochosos pressão suficiente para produzir calor que os incandescesse; conservaram-se frios, não se fizeram estrelas, nasceram astros mortos. Os menores, adensados, aumentaram, com o aumento de sua massa, o seu poder gravitacional; de baixa rotação, formados em parte maior por material rochoso, seguraram pouco hélio e hidrogênio, em alguns casos apenas um deles. Seus grandes núcleos rochosos, submetidos à alta razão de compressão decorrente da natureza de sua estrutura, produziram enorme calor; a desintegração dos seus átomos radioativos fez com que irradiassem energia na gravitação de  órbita errante ao redor do jovem Sol, atraindo fragmentos de rocha líquida e grãos de ferro da abrasadora atmosfera solar, gases e poeira interestelar, de baixa densidade e alta temperatura, além de restos superaquecidos de estrelas de primeira geração recém-laceradas. Eram nessa fase verdadeiras fornalhas, de superfícies pastosas extremamente quentes.

Expandidos pela incorporação do lixo sideral, chocando-se entre si, os planetesimais se foram incorporando pela aderência de suas superfícies moles e quentes, que funcionaram como cola, acontecendo de se fundirem uns a outros para formar novos e gigantescos corpos celestes, já não mais planetesimais, que cresceram em massa e poder gravitacional, esgotando pelo progressivo resfriamento de suas superfícies e perda de viscosidade a capacidade de se amalgamarem ou agregarem matéria dispersa no espaço sujeita à sua gravidade. Com o aumento de tamanho, o calor distribuiu-se por área maior, reduzindo a temperatura global; resfriando, contraíram-se a partir da superfície, empurrando para o centro, infernalmente quente, as camadas superiores; próximas dos núcleos elas se dissolveram juntamente com as rochas interiores e aumentaram enormemente o volume de magma,  ampliando os braseiros nos quais os já planetas se consumiam. Liberando mais energia, iniciaram um longo ciclo: maior calor, crescente queima de materiais, maior produção de magma e energia, com mais calor e consumo de materiais. A crescente produção de magma saturou-os, provocando no inferno reinante uma pressão não suportada pelas suas paredes; fendidas, através dos interstícios irromperam das profundezas torrentes de material ígneo acompanhadas de elementos leves entre os quais nitrogênio, metano e amônia, além de um vapor aquoso de elevado valor sulfúreo. Tocando a superfície ainda quente, mas de temperatura infinitamente inferior à sua, o magma resfriava enquanto se derramava; acumulando-se, constituiria as formações vulcânicas.

 Foi há quatro e meio bilhões de anos.

O Sol, uma gigantesca usina termonuclear irradiando cerca de 8.600 bilhões de bilhões de calorias por segundo, perde nesse tempo um peso de quatro milhões de toneladas. A despeito do agudo processo desintegrador, conserva num sistema de órbitas elípticas atadas à sua força gravitacional o conjunto de planetas surgidos da evolução dos planetesimais, entre eles a Terra, um dos menores, de estrutura intervalada, inóspito e muito quente de início, sem condições para abrigar vida substantiva, pelo menos como a conhecemos. Despojada, velada apenas por uma tênue cortina de gases, não tinha qualquer proteção atmosférica eficaz no quentíssimo Universo primitivo; era um campo de intensa energia ampliado pela forte atividade  em seu núcleo, desproporcional, grande para o seu tamanho, agravando o terrível calor ambiente. Pudesse naquele tempo ser observada in situ, seria provavelmente ouvida a sibilação do desbragado cruzamento de ondas de alta energia em sua abrasada superfície.

Decorridos 700 milhões de anos, o arrefecimento da temperatura do Universo à medida de sua expansão propiciou o resfriamento do planeta; em torno dos 100°C, nos pólos, a (…)