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De quando em vez luzia, aflorando (…) burilada por existências de virtude; nesta existência não conseguia manter o pleno contato com a realidade ou coragem e fortaleza de ânimo suficientes para as realizações pessoais. Mantinha-se simbioticamente (…), a ilusão da vida, aceitando sem indagações (…), não indo além (…); vivia e reagia emocional e instintivamente, sem reservar espaço para os refinamentos do espírito.

Assim Adriano a reencontrou sem percebê-lo de logo, existências percorridas em busca inconsciente, tendo-a, vendo-a aqui e ali nas dobras do tempo, para, por razões que nunca estiveram sob seu controle, perdê-la e reencetar a procura. Jamais fixou-se em qualquer mulher, embora os seus relacionamentos estáveis; algumas vezes sentira pronunciado carinho, mas sem a verdadeira dimensão do amor. Conhecera mulheres excepcionais, mas não as amara.

Viu-a uma vez e imediatamente aquela  irresistível ligação estabeleceu-se entre eles; enquanto conversavam, algo vagamente familiar (…), outra vez, uma dilacerante sensação o invadiu, rompendo-lhe (…). Ainda uma vez, e a luz derramou-se; ele pressentiu sua Marie-Anne. Em casa, naquela noite, entre exultante e cauteloso, relaxou e mergulhou em extensa regressão; imagens, lugares onde não queria se deter, rostos de pessoas a quem não queria encontrar. Percorreu existências, uma, duas, quatro, cinco noites. Na sexta tentativa viu-a num relance descendo do cabriolé no largo apinhado de gente murmurante e consternada. Mais algumas tentativas e, na confluência de duas variantes pluriseculares, lá estava aquela grande praça pavimentada de pedras, ele apertando-a contra o peito e afagando os seus cabelos negros manchados de sangue, a pele moura do rosto lívida, exangue, os olhos mortiços, sem brilho. Sim, era ela.

Penetrou um remoinho calidoscópico numa vertiginosa sucessão de sensações indefiníveis. Despertou, afinal. Permaneceu imóvel, deitado de costas em sua cama, já longe na madrugada, até adormecer.

E então a amou com delicadeza, ternura e desejo.

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