(…)

Esse texto pode ser lido de modos diversos. Uma pessoa de fato alfabetizada, capaz de interpretar o que lê, o examinará por inteiro, não se detendo em termos ou frases isoladas, inferindo dos itálicos o sentido jocoso de expressões e palavras como assaltante português de banco, assaltante português, assalto, etc; o analfabeto funcional, alguém capaz de ler e assinar o nome, mas incapaz de interpretar adequadamente o que lê, poderá ter dúvidas e, nesse caso, tornar-se massa de manobra para os mal-intencionados, que podem ser integralmente alfabetizados, mas estão sempre prontos a distorcer, à conta de interesses menores, o sentido de qualquer coisa. Mesmo compreendendo perfeitamente o que leem eles o interpretarão a partir de palavras e expressões escolhidas a dedo e sua interpretação nunca será moralmente saudável.

 (Algum tempo depois de haver esse trecho sido escrito, fomos informados de exibições reservadas do texto constante do CD referido neste Livro — duvida-se que integral —, no qual as seguintes expressões e palavras aparecem truncadas e destacadas em vermelho. Reproduzo-as tal como exibidas: O saguão de vidro, impassível, distante, eu do lado de fora, um pasta para ele examinar? — de castigo assaltante providenciar o assalto assaltante português máquinas de fazer dinheiro.

 Transcrevo a seguir os trechos como os escrevi:

 (…). O saguão apinhado, o (…) por trás do painel de vidro, impassível, distante, eu do lado de fora, contorcendo-me para abrir uma pasta para ele examinar? Não há (…)

 (…). Virei-me para trás e falei para as pessoas mais próximas: Vocês me desculpem, mas tenho de resolver um assunto importante. Se concordar, ela me deixa aqui, de castigo, um tempão (…)

 (…), vêem em cada pessoa que entra (…) um possível assaltante, nenhuma discrição, muito ao contrário, nenhum respeito, como se todos não tivessem absolutamente nenhuma importância, nivelados que são a delinquentes ou tendo-os apenas por (…) que andam. (…) passam a sensação de imaginar que o (…) no qual ou para o qual trabalham é o único existente. Depois, como na Administração (…), tem que injetar o meu, o seu dinheiro (…) para ele não (…). Também, né?

 Então é assim: O assaltante entra no (…), identifica-se ao entregar o seu cartão de movimentação, débito e crédito a um funcionário, disponibilizando nome completo, filiação, endereço, telefone, CEP, número do documento de identidade, CPF, número da conta, etc. etc. e etc., depois é que vai providenciar o assalto, às onze horas da manhã, sozinho, com o (…) apinhado de gente. E na rua (…), de trânsito atravancado.

Ah, ia me esquecendo: Em agosto, dentro de quatro (4) meses, o assaltante português aqui fará (completará) setenta e cinco (75) anos. Boa idade para um assaltante de Banco, né? E a propósito: Onde entra o Estatuto do Idoso, o tratamento a que tem direito por lei? Não estão nem aí. Não é tudo deploravelmente ridículo? E desrespeitoso?

(…)

Por que não se faz o mesmo nos (…)? Custos? Examinem-se os balanços e os Himalayas de lucros dessas formidáveis máquinas de fazer dinheiro. Segurança, mas dentro da lei, (…))

 Não é, apenas, uma questão de interpretação maliciosa, como observei; trata-se, aqui, de distorção mesmo, desonesta, indução em erro, deliberada.

 ― Muito desagradável, não?

― O que me desagradou, mesmo, foi a piada do agente secreto português; gosto dos portugueses, fizeram parte da cena da minha infância, estavam por toda parte, tenho carinho por eles.

― Por que, então, foi utilizada?

― Deu o tom.

(…)

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 A NOVA ALIANÇA

 Tomando-se Mateus 26:26-28, Marcos 14:22-24, Lucas 22:19-20 e 1 Coríntios 11:23-25 infere-se que, na Ceia,  Jesus, celebrando (…), a união definitiva, a Nova Aliança, à qual podem aderir todos os homens [Ver (…),  primeira parte, palavras de Jesus]. No Benedictus, ou introdução à Consagração, essa aliança foi institucionalizada por meio das palavras “ele tomou o pão, deu graças, o partiu e deu a seus discípulos, dizendo: tomai todos e comei, isto é o meu corpo, que será entregue por vós; do mesmo modo, ao fim da Ceia, ele tomou o cálice em suas mãos, deu graças novamente e o entregou a  seus discípulos, dizendo: tomai todos e bebei, este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança que será derramado por vós e por todos para a remissão dos pecados. Fazei isso em minha memória.” 

Considerando-se a hipótese de uma ceia habitual, transformada com finalidades evangelizadoras numa ceia derradeira e formal em que tais palavras hajam sido pronunciadas, os homens foram por elas libertados da ira, da vingança e da permanente ameaça do castigo (…); o (…) interior projetado em todos a partir de cada um terá sido anunciado por Jesus: “Se aqueles que os guiam dizemvejam, o Reino está no céu’, os pássaros os precederão; se dizem que está no mar, então os peixes os precederão. O Reino está dentro e fora de vocês; conhecendo-o, vocês serão conhecidos e saberão que são os filhos do Pai, que está vivo (em vocês). Se não o conhecerem, porém, vocês estarão na pobreza, e serão a pobreza.”

(O Evangelho segundo Tomás, Prancha 80, linha18 apartir do logon 3, passando pelas linhas 20 a26, e Prancha 81 até a linha 4, versão copto-castelhana, publicada por Barcelona Siete Y Media Editores, Barcelona, Espanha, 1981, pág. 19 – Tradução do Autor.)

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 GNOSE

Persistem divergências quanto às raízes e época em que o gnosticismo se terá estabelecido; fortes indícios apontam para a sua correlação com o mais antigo misticismo judeu, a despeito da primeira referência a ele haver sido feita apenas quando a (…) recém-formada, lutando para consolidar-se, começou a combater grupos gnósticos formados em suas próprias fileiras.

 As descobertas de Nag-Hammadi, no Egito, lançaram alguma luz sobre o movimento, sugerindo que o gnosticismo preexistiu à Igreja, projetado de fontes diversas anteriores a ela, importante considerar que os seus fundadores e primeiros teóricos, ao historiá-lo, situaram-no no tempo de Jesus, não como religião, mas como idéia derivada de místicos judeus que contemplavam divindades compreendidas numa potência celeste, influência grega manifestada por meio do pleroma — a totalidade, aquilo que se completa —. Valentino, egípcio de Alexandria referido por Tertuliano, fundou, nos cerca de vinte anos vividos em Roma, uma seita gnóstica com duas escolas, uma na Itália, onde as idéias fervilhavam, outra em sua cidade de origem.

 As idéias de Valentino, na verdade nada originais, tinham muito de platônicas, não dispensando os fortes apelos dualísticos do bem e do mal típicos do zoroastrismo e incorporando elementos de fontes pagãs dos quais se serviu (…) para fixar sua orientação, além de elementos judaicos, base da doutrina cristã e pedra angular do catolicismo em formação. Ele convolou um reino espiritual a partir de emanações — do grego aeons — de uma força divina, de um deus principal. Sua concepção do pleroma abrangeu Sofia — a sabedoria, o conhecimento —, que, em busca do Deus Primordial, fixou-se no demiurgo, o deus identificado pelos gnósticos no Deus das Escrituras, criador do Universo material e mau no qual as almas, originarias do reino espiritual, ficaram aprisionadas. É valioso registrar, nesse ponto, que Valentino na verdade subverteu a concepção platônica, mediante a qual o Universo não teria sido criado pelo demiurgo, mas por ele tão somente ordenado, arrumado, rearticulado, daí o conceito de Ordem pelo qual se expressa. A mitologia valentiniana atribuiu a Jesus, em decorrência de emanações a ele incorporadas, uma missão libertadora que levaria à humanidade o conhecimento redentor, ou gnose, cuja revelação levaria, na morte, os espíritos perfeitos, os gnósticos, ao Reino Espiritual.

 O (…) estava impregnado desse pano de fundo gnóstico, quer quanto ao (…) identificado no (…), quer quanto ao mundo material e mau do qual era preciso fugir através do desafio aberto à rígida lei dos hebreus, especialmente se incluída na pregação ostensiva a idéia de um rei judeu para a Judéia dominada por Roma, duas heresias combinadas, uma política, em face do Imperador, outra religiosa, em face do sumo sacerdote e do grande poder do (…). A reabilitação das ovelhas perdidas da (…), nesse quadro, (…)

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O Termo ecclesia, traduzido por igreja, chegou aos textos cristãos com 1 Tessalonicenses e 1 Coríntios (as epístolas tidas como sendo realmente de Paulo são Gálatas, 1 Tessalonicenses, 1 e 2 Coríntios, Romanos, Filipenses e Filermon; as demais seriam apócrifas) na metade do século I da EC; nos Atos dos Apóstolos é uma extensão paulina através do seu redator, a considerar não ser ATOS uma criação de Paulo, não sendo encontrado no texto grego de Marcos, o mais antigo, o primeiro dos Evangelhos.

 Tomado da Septuaginta, tradução para o grego do Antigo Testamento, feita por setenta e dois judeus, seis de cada tribo de Israel, sob o patrocínio de Ptolomeu Filadelfo (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, II, 454 e seguintes) ao redor do ano -280, é uma típica manifestação da cultura grega compreendida na refeição fraterna, o ágape, no debate filosófico, na celebração e na prédica coletiva realizada em residências ou lugares de frequência geral, como a ecclesia de Sócrates nas praças e outros espaços públicos. Exprime melhor o seu sentido original se traduzido por reunião ou assembléia. Não é provável haver sido usado por (…), ainda ponderando o seu eventual conhecimento do grego; oriundo de uma região rodeada de cidades helenistas, Séforis e Caná, por exemplo, muito próximas de onde estaria (…), a palavra poderia ser-lhe de algum modo familiar, mas o tipo de pessoa a quem usualmente se dirigia dificilmente o encorajaria a empregar expressões gregas, especialmente porque não seria muito apropriado (…), apenas o fazendo porque precisavam passar a idéia de um prédio destinado especificamente aos cultos, uma contradição, afinal de contas, porque não havia no tempo de Jesus nada mais gentio, mais pagão, mais idólatra do que um templo, uma igreja com o sentido dado ao termo. Os seguidores de Jesus eram judeus cristãos cuja prática religiosa se orientava pelo Antigo Testamento, que apenas admitia por Templo a Casa de Iavé, em Jerusalém, e punia com a morte a idolatria.

(…)