– Haveria momentos especiais…
– Marcos…
– Muito bem, marcos, em toda essa história?
– Sim.
– Com uma hierarquia?
– Eu diria uma sequência.
– Definível?
– Uma ordem de acontecimentos.
– Conclusão sua?
– Não, apenas forneci os dados.
– Tabulados e considerados segundo a sua perspectiva?
– Não, forneci dados frios, sem qualquer consideração pessoal.
– Suas considerações não teriam sido úteis?
– Impossível o despojamento emocional, sou apenas um ser humano.
– Foram analisados tal como apresentados?
– Não, foram complementados; acompanhamento, observações, anotações, essas coisas. Todo trabalho dessa natureza exige comprovação, elementos materiais.
– O quadro aponta para um conjunto de circunstâncias ou houve um começo, uma gênese?
– Quando você tabula fatos, independentes ou interligados – especialmente se levarmos em conta que não existem fatos isolados -, forma-se fatalmente um conjunto de circunstâncias. Mas houve, sim, um começo, pelo menos uma referência, nada acontece por acaso.
– A partir da qual, à toda evidência, tudo se desenrolou?
– Não, foi preciso montar o quebra-cabeças. Arrogância decorrente de despreparo moral e ético para lidar com situações cujo pressuposto é a grandeza do ser humano, dissimulação, perfídia, você sabe como vive e opera o tipo de gente que se envolve em coisas desse tipo.
– A esse começo, ou referência, seguiu-se, de pronto, uma sequência de acontecimentos?
– Não, é uma dessas coisas que via de regra não se revela senão depois de cuidadosa análise. Podemos chamar de causa remota, comumente chamada coincidência.
– Um referencial?
– Sim.
– Traduzindo…
– Ainda não é hora de falar nisso.
– A sequência?
– Uma mudança de endereço algum tempo depois.
– O fato superveniente?
– Igualmente não chegou a hora de falar.
– Algo estapafúrdio?
– Formulações deturpadas de pessoas ignorantes e mal-intencionadas.
– Algo criminoso?
– Documentos desaparecidos, invasões de computador, violações de domicílio, de propriedade intelectual e artística…
– Documentos desaparecidos?
– Eu sempre deixei em casa, na gaveta do meio de uma pequena secretária Luiz XVI que tem a idade do meu filho, documentos que não uso habitualmente, além da minha Carteira de identidade da Seccional de São Paulo, cartões plásticos de identidade trocados por modelos novos, cartões e Cadernetas de Poupança, de clubes, etc.
– Você não os destruía quando perdiam a validade?
– Não, eles contam a minha história de vida.
– Você nunca imaginou que eles pudessem ser roubados, copiados, utilizados criminosamente?
– Sempre estiveram, como estão, numa gaveta de mesa no interior da minha casa; nunca me passou, realmente, pela cabeça que alguém pudesse invadi-la, revirá-la, roubá-los, copiá-los, utilizá-los criminosamente. E há outro fato que mereceu especial atenção dos nossos amigos: Não me lembro de haver perdido documentos antes.
– Quantas vezes aconteceu nessa fase esquisita?
― Três.
– Puxa! Perdeu todos os documentos por três vezes?
– Não, só carteiras de identidade.
– Ué, mas elas não estavam junto com outros documentos, cartão de banco, essas coisas?
– Estavam, soltos no bolso da frente da camisa, mas estavam.
– E como pôde você ter perdido apenas as carteiras de identidade?
– Pois é!…
– Você tomou alguma providência?
– Após cada perda fui imediatamente à Delegacia Policial e fiz o que oficialmente se denomina Registro do Extravio de Documentos.
– Datas?
– Quatro de novembro de dois mil e cinco, dois de dezembro de dois mil e seis, vinte e um de maio de 2007. Não me lembro de outras.
– Com tanta certeza?
– Estão aqui nas minhas vias do Registro, com as respectivas numerações: 001424/0076/05, 1412/0076/06 e 000903/0076/07. Considerando esse quadro, pode haver outras.
– Em alguma dessas vezes você percebeu algo estranho, esquisito?
– Nas duas últimas vezes, não, só dei pela falta quando cheguei à minha casa, mas na primeira vez, sim; foi em um supermercado no centro de Niterói, percebi quando ainda estava lá. Voltei à Caixa por onde havia passado, falei com a funcionária a respeito, ela fez questão de indagar às Caixas próximas, em voz alta, aparentemente interessada. Quando tirei o dinheiro do bolso da frente da camisa e o coloquei sobre o balcão os documentos vieram juntos, lembro da carteira de identidade; coloquei as compras nas sacolas de plástico, paguei, recolhi o que havia deixado sobre o balcão e fui embora. Depois ela simplesmente não estava mais lá.
– Aí…
– Humm!, coisas estranhas.
– O que acham os nossos amigos?
– De início nada me disseram; recolheram os dados, acompanharam-me discretamente à certa distância, fotografaram, anotaram datas, horas, nomes de lugares onde fiz compras ou apenas visitei, pela rua, tabularam tudo, fizeram gráficos, simulações. São profissionais, afinal de contas.
– E?
– E concluíram como sabemos.
– Há quanto tempo essas coisas vêm acontecendo?
– Não me lembro exatamente, faz tempo.
– E esse negócio de sombra?
– É coisa mais recente, mas eu não presto atenção em tolices; incomodou-me quando acontecia nas minhas saídas coma neném e a avó dela. Deixei de sair com elas, agora que coloquem um desocupado a cada dois metros do meu caminho. E se alguém tem alguma coisa contra mim vá à polícia, formalize uma representação com nome, endereço, nº de CPF, de documento de identidade, fatos, provas, saia à luz, assuma a responsabilidade por suas ações. Isso de ocultar-se nos desvãos do dia-a-dia, em futricas, não sensibiliza pessoas sérias, a mim. Corporifiquem essa bobagem, então eu agirei como gosto, às claras, a lei como guia, e tudo se esclarecerá.
– Bem, perfeitamente compreensível, é difícil imaginar alguém passando por uma experiência como a daquela tarde chuvosa e fria de domingo em Vitória, ES, agir depois como qualquer outra pessoa. Foi um grande trauma, não?
– Não, não foi.
– Não?
– Não.
– Você considera não haver sido afetado?
– Claro que fui; não poderia ter sido diferente.
– Então…
– Não foi traumático, foi uma rara oportunidade de compreensão.
– De que, em que sentido?
– À medida que, menino ainda, eu não tinha uma visão de mundo, ela se foi formando ao princípio de que somos seres provisórios, não no passo da finitude de nossa existência, de nossa expressão física, mas em sua inutilidade se não aprendermos alguma coisa que nos ajude ou defina além do ponto de onde voltei.
– Isso significa que…
– Não acaba aqui, é necessário ser menos matéria e mais espírito, energia limpa, para poder, ou pelo menos tentar, entender-se razoavelmente o que vem depois.
– Será por isso que estamos aqui?
– Difícil responder, não tenho, ninguém tem, com absoluta certeza, resposta para as perguntas Por que estamos aqui? Há uma razão para estarmos aqui? Se há, que razão é essa?
– As religiões não as respondem?
– São construções humanas; cada um crê no que quer. Um número exageradamente grande de seres humanos se apavora com a idéia da aniquilação total e o tipo de experiência que tive não são coisas habituais, de toda hora. Sem falar-se nos que negam e combatem por princípio qualquer coisa que não se encaixe no seu vazio espiritual pela incapacidade de manterem a cabeça aberta, para entenderem o que quer não se alinhe com os seus pressupostos.
– Você não acha que imaginar estarmos aqui para aprender dá sentido à vida?
– Depende da vocação de cada um, do que cada um quer para si, daquilo em que se quer crer. Todos aprendemos, não exatamente a mesma coisa, mas aprendemos, ciências, filosofia, artes, a ser bons gerentes, bons operários, bons vendedores, bons pais de família, a construir fortunas, grandes patrimônios, até o que não presta, mas o que fazemos com isso além daquele ponto de onde voltei?
– Reconheço ser uma boa pergunta, mas enquanto não chegamos lá temos de viver.
– Com um mínimo de delicadeza, se possível com amor…
– E uma cabana?
– Não. Há um grau mínimo de conforto a que todo ser humano tem direito, desde que trabalhe honestamente para obtê-lo.
– É crime, então, uma robusta conta bancária, investimentos, uma casa luxuosa, um carrão, férias em lugares da moda?
– Obviamente não à medida do que fazemos para chegar lá e da razão porque o fazemos. Se perseguimos tudo isso apenas para ostentar, pela compulsão do dinheiro, somos pobres, essa é a maior e verdadeira pobreza.
– Qual a grande lição, então, que, a seu sentir, devemos aprender para uso além daquele ponto?
– A espiritualidade, ser menos alma, mais espírito.
– Você, menino, não tinha ainda visão de mundo. De que modo e a partir de quando aquela sua experiência começou a afetá-lo?
– De logo, em tudo, nas coisas mais simples, habituais, corriqueiras. Lembro-me na volta às aulas, quando ia jogar bola com o pessoal do Colégio Estadual, o meu colégio, no campo rala-coco do Saldanha da Gama: Deixei de ver sentido em tudo, os mergulhos do deck no canal, em frente ao Penedo, o futebol…
– Você passou a sentir medo?
– Não era medo, mas uma enorme sensação de desconforto. As tripulações dos navios que passavam por ali vindos do mar alto, no seu caminho para o cais do porto, jogavam restos de comida dos conveses, mantendo uma fila de peixes atrás do barco esperando alimento.
– Esse negócio dos peixes parece história de marinheiro…
– É, pode ser, os garotos mais velhos, porém, contavam histórias para nós, os mais novos, e quando eu estava na água sentia as pernas formigarem, como se um grande peixe estivesse rondando por ali, esperando para comê-las. Imagine esta sensação aliada à visão de mundo que se estava formando; o resultado só poderia ser o que foi: Não quero mais brincar disso, não.
– Você não deveria se importar, afinal tudo aquilo carecia de sentido…
– Eu era apenas um garoto, doze, treze anos de idade, tudo era emoção. Nessa idade não se racionaliza nada, as coisas vão acontecendo e, inconscientemente seletivas, fixando-se aos poucos.
– Você se lembra muito bem daquele universo, não? Do seu dia-a-dia.
– É como se eu estivesse vivendo aquilo agora. Saía do Colégio Estadual na Avenida Capixaba; na Ilha, do outro lado, no continente, nos fundos do Colégio, o Cais do Minério. Tomava o bonde, vinha na direção de Jucutuquara; no caminho, lá em baixo, o Saldanha. Passava por Jucutuquara e, lá na frente, depois de um amplo semicírculo, saltava na Praia do Suá; o bonde seguia para a Praia do Canto. Lembro-me, ainda, da farmácia do Luís, da Casa de Saúde do dr. Lucilo, ou Lucílio, da caminhada para casa, do lado esquerdo a casa onde morava aquela garota de São Mateus, meu amor secreto do começo de adolescência, eu tímido como um seminarista. Logo depois, ainda do lado esquerdo o largo, pequeno, de terra batida, onde ficava a igrejinha em frente à qual, uma vez por semana, à noite, os negros do local e das redondezas dançavam o jongo, triste, lamentoso. Vicentina, minha ‘ba’, alta, imponente, magnífica ia lá dançar. Comoviam-me, ela especialmente; às vezes eu fantasiava: quando terminasse o jongo todos sairiam dali, iriam até à praia, bem pertinho, entrariam numa daquelas baleeiras usadas na pesca de cações, passariam entre a ilhota em frente à minha casa e o quebra-mar dirigindo-se à boca-da-barra, ultrapassariam a Ilha do Boi, à esquerda, entrariam no mar alto e voltariam para casa, para a África, ‘ali’, do outro lado. Vitória fica no litoral leste, ‘bem em frente’ à Namíbia, na reentrância do litoral sudoeste africano onde provavelmente se ‘encaixava’ a parte do Brasil projetada para o mar, quer dizer, Vitória e Namíbia ‘são’ a mesma região, fracionada quando os continentes se ‘quebraram’, Namíbia para lá, Vitória e regiões próximas para cá. Naquele tempo eu não sabia dos detalhes, mas, no segundo ano ginasial, já conhecia o mapa mundi.
Continuando o meu caminho, ainda do lado esquerdo, as ‘coisas’ do ‘seu’ Varanda, e do lado direito a Colônia de Pesca Z-5, junto ao cais da praia de areias escuras, lodosa, onde os pescadores pesavam e vendiam o produto da pesca, pargos, arraias, robalos, baiacus-arara, os fetos de cações, esses, sim, apreciados, retirados das fêmeas quando abertas, e todos os machos para retirar-lhes os fígados e os ‘derreterem’ ali mesmo, em toscos fogareiros e panelas para extrair-lhes o óleo, que vendiam a bom dinheiro. A carne era muito pouco aproveitada; sobras e as grandes cabeças ficavam por lá, jogadas, para deleite dos urubus, que brigavam por elas. Na maré cheia eu passava pela casa do tenente Aquilino e subia para tomar o caminho entre as tiriricas até chegar ao suave declive pelo qual se chegava ao quintal arenoso de nossa casa, entre pitangueiras, depois de passar pela grande figueira, que diziam mal-assombrada.
– Se você voltasse, hoje, lá, como acha que se sentiria olhando para o quadro de sua infância, ou adolescência, palco dos acontecimentos que, em suas próprias palavras, o marcaram tão profundamente?
– Isso são lembranças, ele já não existe.
– Como já não existe?
– Em 1964, de férias, eu já morava em São Paulo, hospedei-me na Praia da Costa e fui até lá. Voltei em 1981. Já não existia a praia; fora tudo aterrado no limite do quebra-mar, chegando à Ilha do Boi. Nossa casa, a ‘minha’ praia, o recôncavo, a ilhota, tudo desaparecera. Chegara a vez das pistas asfaltadas, do progresso; Praia do Suá passou a ser apenas uma maneira de dizer.
– Quantas vezes você voltou lá desde então?
– Nenhuma.
– Nenhuma?
– Nenhuma. O lugar tornou-se estranho para mim; dele, prefiro as minhas lembranças.
– Meninos como você, amigos, uma turma, você se lembra de algum?
– Quando voltamos para Niterói fui até ao Convento da Penha, em Vila Velha, pagar uma promessa feita pela minha mãe em virtude de um problema de saúde que eu havia tido. Foram comigo o Fausto, irmão do Ênio, que jogava futebol no Rio Branco, o seu irmão, ‘Bacalhau’, Remy e Pedro Wilson, o mesmo grupo, e mais um ou dois, que ia pegar mangas no ‘Cabo Submarino’, no fim da Praia de Santa Helena, pelo gosto de desafiar os grandes cães da senhora inglesa que não cansava de nos pedir para não lhes atirar as grandes mangas-rosa e coração-de-boi com que nos armávamos, e que jogava futebol no campo do Recreio, o time do bairro.
– Então?
– Voltamos para Niterói, mudou tudo, ficaram as lembranças.
– Saudades?
– Foi um tempo muito bonito; depois, adulto, eu soube disso. Saudades? Não sei. Eu tive uma infância feliz, isso me basta.
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