A Sociedade em que vivemos é, em boa medida, exibicionista, presunçosa e arrogante. No exibicionismo a necessidade de ostentar, autoafirmando-se; na presunção o rótulo do conhecimento aplicado a recipientes, às vezes, entupidos de informação, mas vazios de cultura; na arrogância a soberba, pura insolência. Extremamente sem graça, ela precisa de anti-heróis.

Em sua Crítica da Razão Prática, Kant versa os Enunciados pessoais, aquelas regras próprias com plenas possibilidades de convolarem a regras universais. Os meus primeiros enunciados são:

1. Nem um chato aguenta outro chato. Em presença de um chato, comportar-se como um chato. A insistência na palavra chato é para deixar bem claro o quanto se pode ser chato quando de fato se quer ser chato.

2. Surpreendido por um exibicionista, ou exibicionismos, dizer com expressão convicta, se possível com ar solene, uma grande bobagem.

3. Em face da arrogância, fazer-se de tolo, fingir não estar entendendo nada. Uma pergunta idiota e um pouco de “folclore” ajudam.

Resultados prováveis:

1. Os chatos “sistemáticos”, aqueles para quem chatos são os outros, afastam-se. É uma benção, não importa o que digam.

2. Os exibicionistas, e os exibicionismos, sossegam; – afinal, por que e para que perder tempo com quem diz aquele tipo de coisa?

3. O arrogante, alguém convencido de que todos o levam sempre a sério e estão prontos a tratá-lo com deferência, jamais conseguirá lidar com tolos incapazes de enxergar os seus dotes especiais ou compreender o que de hábito considera seu modo pessoal de ser, importante, exclusivo, diferenciado. E, pior, como tratar com um simplório que diz coisas tão inconsistentes?

Que bom!…

Se você decidir comportar-se na forma dos três primeiros itens será um anti-herói, estará, na melhor das hipóteses, contribuindo para diminuírem as abobrinhas, as situações constrangedoras e entediantes; estará, sem dúvida, praticando uma boa ação, um bom serviço à sociedade. Na pior das hipóteses, não se comportando na forma dos três primeiros itens, mas apenas caprichar no senso de ridículo, haverá, potencialmente, um exibicionista, um presunçoso e/ou um arrogante a menos. E, como não há almoço grátis, não custa nada ficar atento; você estará sempre na mira de alguém. A gente enfocada nesta postagem acabará por perceber que não está lidando com um tolo chato e aloprado e que, no fundo, no fundo, você a está colocando – surfistas sociais, intelectuais e de todos os gêneros – em face de si mesma. E ela não gosta disso. Nem um pouquinho.

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Em meu livro postulo o conhecimento como forma de alcançar a verdadeira libertação e aponto a ignorância como a mais ignominiosa modalidade de escravidão. Nenhum ser humano será jamais verdadeiramente livre enquanto o conhecimento lhe estiver inacessível. Boa parte dele está contida na obra dos grandes filósofos da história, não estudada habitualmente.

Preconizo a massificação orientada de sua leitura e análise em contraposição ao usual pão e circo, às vezes muito mais circo do que pão. Criaram-se por modos diversos reservas de conhecimento, das quais excluído o homem comum sem oportunidade, tempo ou vocação para vincular-se a elas.

Essas reflexões me vêm a propósito de Platão, do Timeu, difícil, é verdade, no qual o misticismo geométrico e cosmológico do filósofo é plenamente exercitado; por impraticável, nesse caso específico não defendo a popularização de sua leitura, mas seu estudo com a amplitude e profundidade possíveis orientado por leitores experientes, familiarizados com o texto, realmente especial.

Pleiteio, no livro, que o homem, do seu nascimento à morte, percorre trilhas existenciais em uma floresta de símbolos com os quais não atina. Parte deles vem do Timeu. Como é possível viver-se em uma cultura cujos fundamentos não conhecemos, não sabemos donde se originaram, por que e como foram constituídos e chegaram até nós, que não entendemos?

O Universo e os elementos – a terra, o ar, o fogo e a água -, para Platão, não foram criados pelo demiurgo; em sua gênese terá sido altamente irregular, um caos originado do caos primordial. O demiurgo o arrumou, sistematizou e dele fez uma construção ordenada, lógica.

Parte desse Universo lógico, feito de materiais provindos das explosões estelares – abordo este assunto no livro -, o homem traz consigo, no hipotálamo, as marcas do instinto, por extensão o réptil e a fera; no córtex cerebral, no mais fundo de sua estrutura humanizante, laivos do divino, centelhas da energia inteligente que perpassa o Cosmo oferecem-lhe a oportunidade de afirmar-se como animal superior. Não o fazem um animal superior, possibilitam-lhe sê-lo. Ele é, em qualquer caso, fração do todo, no qual se compreende, mas, resultado de uma adaptação, é imperfeito, contraditório, capaz do mais sublime e das mais nefandas aberrações. Precisa reconstruir-se.

O conhecimento o induzirá ao âmago, ao mais íntimo e profundo de si mesmo, ao enfrentamento da alma, início de caminho em direção ao espírito. Deparando-se consigo, com a sua natureza réptil/fera/divina, chega-lhe o momento da decisão quanto ao lado em que se posicionará na luta travada por forças contraditórias, em seu interior, pela sua posse. E não se decidirá pela perfeição, possível pelos longos caminhos da vida, contínua como o tempo que não conhece o ontem, o hoje, o amanhã, criações humanas, ambos desdobrados numa sequência ininterrupta, embora a finitude física, se não o quiser. O tempo, integrado ao espaço para formar uma dimensão extra, o espaço-tempo, é perene e coexistirá com o Universo, encolha-se ele até o colapso, ou, expandido a limites insondáveis, flutuar na inimaginável imensidade dos espaços intergaláticos por efeito da ação da matéria escura; a vida, contudo, desvinculada de fatores físicos, não se lhe subordina, tem caminhos próprios traçados pelos seres inteligentes, não mais répteis/feras, na direção da plenitude espiritual, réstia de luz liberta para além da sétima eternidade, termo do Universo.

A perfeição passa necessariamente por uma sólida construção ético/moral, em cujo sentido prevalece a regra mais eficiente, preceito simples das mais complexas consequências: Não queiras para os outros aquilo que não queres para ti; não faças aos outros o que não queres te façam. No livro revisito os mais eminentes filósofos da história e examino, com a amplitude permitida pelo curto espaço disponível, sua visão de mundo, sua filosofia. A regra mencionada, sobre ser a mais concisa, constitui-se dentre todos os escolhos filosóficos o mais sólido alicerce a partir do qual se pode erigir uma sólida, a mais sólida construção ética.

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Cenário: Centro velho do Rio de Janeiro, um edifício público federal, do outro lado da rua um “Brizolão”. Hora: Quatro e cinquenta de uma quente tarde de fevereiro.

Espero, como outros profissionais da área, a van circular que nos levará de volta ao Centro novo. Do “Brizolão”, onde funciona uma creche pública, sai um homem, pouco mais de trinta anos, talvez, moreno, estatura de média para baixa, vestido com correção em roupas populares, no colo uma menininha, cerca de dois anos. Do seu lado esquerdo a cabecinha aconchega-se-lhe estreitamente ao pescoço, toca-lhe o queixo, o bracinho direito em torno do seu braço esquerdo, quase ombro, a mãozinha segura à manga curta da camisa quadriculada em branco-e-preto; o braço esquerdo da menina contorna-lhe pela frente o pescoço e cai, mão também segura à camisa, por trás do ombro direito.

Dobrando à direita em direção à Avenida Chile, o homem, decerto um pai, caminha devagar, cuidadoso, o rosto colado à cabecinha de cabelos muito negros, o braço direito passando pelas costas da menina, a mão firmando o pequeno ombro direito, apertando-a contra ele.

Uma cena comovente, ternura, amor, a criança resguardada, o pai, sabe-se lá, tão cheio de necessidades, frágil e inseguro, talvez, ele próprio, mas pronto a proporcionar-lhe toda a proteção. Passou-me pela cabeça ser aquela a forma do verdadeiro amor, capaz da mais completa entrega, de todas as renúncias.

Em ocasiões como essa não segure as lágrimas se elas teimarem, tépidas, em rolar-lhe rosto abaixo, terna expressão do amor, brotado do espírito para aquecer o coração. Um aceno de Deus para lembrar-lhe do quanto humano você pode ser.

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Em certa noite escura um vagalume voluteava sua delicada luz azulada sobre um pântano. Muito próximo da vegetação rasteira, úmida, zap, sentiu-se preso por algo frio, áspero. Movendo-se lento, com muito esforço, pôs a cabeça de fora, percebendo estar sob a barriga de um grande sapo, feio, desagradável, que o olhava com enormes olhos injetados. Arfando, perguntou-lhe:

– Por que me atacas?

O sapo:

– Por que brilhas?

Há mais sapos à roda do que se pode supor. Permaneçamos tanto quanto possível longe deles, mas não lhes atribuamos importância. Por que uma pessoa educada e bem formada, transitando entre sapos, se preocuparia com eles?

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À beira de um rio estava uma pequena cotia preparando-se para atravessá-lo quando apareceu um escorpião. Travou-se o seguinte diálogo:

– Você vai atravessar o rio, cotia?

-Vou.

– Dá-me carona? Leva-me em tuas costas.

– Só se eu fosse louca.

– Por que isso?

– Ora, sapo, picas-me e eu morro.

– Como és tola, cotia! Sou um escorpião esperto; se te picar, morres e eu morro junto contigo, não sei nadar; além do mais sou muito pequeno para resistir à correnteza.

A cotia ponderou, ponderou e disse:

– Tens razão, suba que já estou atrasada.

E lá se foram, até que a poucos metros da margem oposta o escorpião picou-a. Afogando-se, com grandes dores, a cotia teve, ainda, tempo de perguntar e ouvir:

– És louco, escorpião? Morrerei e também morrerás. Por que fizeste isso?

O escorpião, afogando-se:

– Não sei, não sei cotia, é da minha natureza.

É preciso muito cuidado com os escorpiões em ronda; fazer o mal é da natureza deles, não importa a quem ou porque. Não raro o fazem por razões que nem mesmo eles entendem.

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