(…)

A Senhora afastou-o suavemente, pegou-o pelas mãos e recuou, sentando-se no banco de madeira. Adriano continuou de pé.

– Diga-me uma coisa, filho: O que, realmente, se passava entre vocês dois?

O menino fitou-a longamente, depois disse numa voz baixa e pausada, sem emoção, frio, quase com ressentimento:

– Não sei.

– Faça um esforço. Eu sei que você deve estar ainda muito cansado de tudo o que aconteceu, mas…

– Tudo, mãe? Interrompeu ele. – E o que foi que aconteceu? Sua fisionomia cerrou-se por um instante; depois, mais acessível, disse, triste:

– Eu não quero falar disso, acho que nunca vou poder falar disso.

Em seguida afastou-se e caminhou para a porta da cozinha, onde parou, voltou-se e disse para a mãe:

– Amanhã vou à escola, não tenho mais nada!

Saiu, atravessou o quintal arenoso e foi para a praia.

(…)

Chegando em casa à hora de sempre, sentiu-a vazia; sentiu-se vazio. Seguiu sua rotina; almoçou e foi para a praia, onde ficou sentado olhando o mar e tentando lembrar-se de detalhes do acontecido no domingo. Um pesado bloqueio mental impedia-o de lembrar-se de qualquer coisa a respeito. Levantou-se e foi para a Praia do Sudeste, onde encontrou alguns colegas que se preparavam para ir para ao campo de futebol do time local brincar e jogar bola. Foi junto, mas não jogou; pela primeira vez não via muito sentido naquilo.

(A história segue com Adriano, após alguns dias, subindo num início de tarde pela chácara plantada na vertente do morro, atrás de sua casa, e acomodando-se, no topo, em um nicho de pedra a partir do qual avistava a linha da barra. Em regressão expontânea e longa, testemunhou a história de amor entre Marie-Anne, filha de uma família aristocrata, e Jean-Philipe, responsável pelas estrebarias da família, filho bastardo de um duque caído em desgraça na Corte. E segue também com Vicentine, aia de Marie-Anne, originária das Índias Ocidentais, o grande elo da história)

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