(…) rebocados pelas embarcações da Administração do Porto, os navios vindos do mar alto iam para atracação no pier, ou, entrando com a linha d’agua metros acima da superfície do mar, atracavam no Cais do Minério onde abarrotavam-se do minério transportado desde Minas Gerais, dasmontanhas metálicas desmontadas para exportação. O Cais do Minério podia ser visto a pequena distância, do outro lado do canal, no continente, fronteiriço aos fundos do Colégio Estadual onde (Adriano) estudava. (…)

(…) Estavam Sempre juntos no futebol, nas pescarias que faziam no grande bote da família e nas travessias para a ilhota em frente à casa, quando usavam o pequeno caiaque de um só remo de duas pás (…). A aventura mais excitante, porém, era pularem o muro da grande chácara de frondosas mangueiras, na Praia de Santa Helena, em cujas instalações era administrado o Cabo Submarino (…).

(…) Era uma vida feliz e segura, sem sobressaltos e sem imprevistos, da escola para as brincadeiras de um mundo alegre e colorido, de sol e de mar, de sono sem sonhos.

(…). Num dia daquele final de agosto desencadeou-se um processo cujos resultados o marcariam para toda a vida. (…) Era uma mulher de cor negra, muito alta, vestida com uma espécie de bata, branca, de cintura marcada, solta por cima de uma saia longa, também branca, que lhe ia até quase os tornozelos; seus cabelos, muito crespos e salpicados de estrias brancas de um brilho incomum, emolduravam-lhe o rosto marcado pelo tempo.

– Como se chama? Perguntou Adriano enquanto distraidamente revirava com o garfo um pedaço de bolo posto no prato por sua mãe.

– Vincenza.

Ele pareceu refletir por um instante.

(…)

O domingo amanheceu frio e chuvoso, de rajadas batendo em vento e chuva, intermitentes, na janela do quarto do menino; ele tivera uma noite intranquila, algo novo para ele, de sonhos imprecisos e imagens borradas indo e vindo.

(…)

Fazia pouco mais de três meses que a velha mulher chegara à casa (…).

(…)

Nas noites de lua cheia os negros das redondezas reuniam-se na mal iluminada rua da capela para baterem e dançarem o jongo, um canto escravo triste e lamentoso murmurado ao som de tambores em palavras ininteligíveis, enquanto eram consumidas quantidades de aguardente. A velha negra, presença constante, dançava quieta, vagarosa, o ritmo dolente dos seus ancestrais. Adriano ia vê-la dançar; ela parecia dançar em sua reverência.