Os textos consistentes sobre fantasmas – aqueles que não se limitam a contar sobre eles histórias para os aficionados – são alegorias; neles nem todas as palavras têm o sentido corrente. No texto do qual decorre esta postagem povoado não é exatamente um aglomerado de pessoas vivendo em determinado lugar, estrondo não é propriamente um barulho ensurdecedor, palmeiral não designa necessariamente um conjunto de palmeiras e assustado não quer dizer amedrontado, atemorizado. São recursos literários para transmitir alguma coisa. Usei este método no livro para descrever o nascimento do Universo.
E, sobre fantasmas, uma paráfrase do dito popular espanhol: Yo no creo en almas en pena, pero
O povoado está penalizado.
Investigados os últimos acontecimentos, verificou-se tratar-se de pobres espíritos errantes, almas penadas, dessas que assombram casas em cujo piso fazem cair objetos, acendem luzes em corredores escuros, produzem estranhos ruidos. Quando vagam por aí seguindo pessoas lembram o trickster, descrito por Otávio Mendes Cajado – tradutor de Loren Eiseley em o Universo Inesperado, Cultrix, São Paulo, do qual tomei emprestado o primeiro trecho do Capítulo 4, O Inverno Colérico, para epígrafe do livro cujos excertos ofereço a seguir – em nota de pé, à página 54, como um ser malicioso e sobrenatural, que se encontra no folclore de vários povos primitivos, onde desempenha, não raro, o papel de herói cultural, e muito dado a caprichosas demonstrações de astúcia e fraude.
No corpo da página, entre as 170 do seu livro, culturalmente rico, ao mesmo tempo em que simples e delicado, para ser lido com os olhos do coração, Eiseley diz do trickster: (. . .) às nossas costas, mascarado e demoníaco, como lhe vi o papel representado entre os remanescentes de um povo selvagem, há muito tempo. Era o papel do chalaceador presente à mais devota das cerimônias. Essa criatura nunca se ria; nunca emitia um som. Pintada de preto, seguia em silêncio o sacerdote oficiante, arremedando, com o floreio acrescentado de um pequeno chicote, os gestos do devoto celebrante. Os seus trejeitos estilizados, nos momentos precisos, comunicavam uma zombaria infinitamente mais formidável do que o verdadeiro riso.
O trickster é um farsante. Materializado, mantém apenas a astúcia e a vocação da fraude; pode ser vislumbrado, até fotografado, por caça-fantasmas experientes. Modernamente, assume formas humanas diversas, não se pinta de preto; às vezes usa roupas ridículas. Ele é ridículo.
Almas penadas e trickster, quando percebidos e/ou referidos, entram em grande atividade, não se alcança exatamente porque, salvo no revide ou para mostrarem-se, como se dissessem: eu sei, você está preocupado, eis-me aqui! Nada direto, porém, aberto, honesto. Pobrezinho, não, não é isso; como espíritos desorientados que são, dão-se a si muito além do que merecem e se festejam numa celebração melancólica que mais os afunda na escuridão de sua primariedade.

Os habitantes do povoado conclamam-se e a quantos possam para orar por esses espíritos sem luz, doutriná-los, fazê-los compreender que por aqui já não têm lugar. Embora a estafada expressão, num mundo civilizado, superiormente estabelecido, entre pessoas educadas e bem-formadas, a sua primariedade está fora de contexto.

LIVRO VIII
O REENCONTRO
Chega um momento em que criaturas cujos destinos se cruzaram
em algum ponto do passado remoto são obrigadas a ajuizar umas
das outras, como se fossem totalmente estranhas
(Loren Eiseley – O Universo Inesperado, Cultrix, S. Paulo, p. 66)
Adriano vivia no lado leste da ilha em companhia dos pais e irmãos em uma casa branca de aspecto acolhedor plantada no pequeno recôncavo situado entre as praias do Sudeste e Santa Helena, de frente para o mar azul esverdeado que contornava o Pontal e ia lamber as bordas da terra interior, formando pequena baía. Uma faixa de areia muito branca guarnecia a marinha desde a grande pedra que delimitava o recôncavo pelo lado da Praia do Sudeste, estendendo-se como alvo lençol até um pouco além da cabana de Antero, o pescador, que ficava quase na curva para Santa Helena, a partir de onde a areia tornava-se grossa, de tom dourado. A casa, a que se chegava pela praia quando a maré estava baixa, era alcançada na maré montante por um caminho rasgado na encosta do morro, a cavaleiro do mar, desde a Praia do Sudeste, serpenteando entre árvores e arbustos crescidos sobre um verde tapete de capim-limão; ficava por trás de uma cinta estreita e longa de sapê que separava da praia o quintal de areia fina coberto de cajueiros, pitangueiras e coqueiros nativos.
Era agosto, quase setembro, quando as pitangueiras começavem a florir. Da chácara, na vertente do morro, atrás da casa, vinha um ou outro canto de cigarra, dando aos dias já claros e azuis um que do morno início de primavera da região, a despeito do amanhecer tardio e da brisa fresca, quase fria, que soprava nos fins de tarde, vinda do oceano grosso desdobrado para além do Pontal, do lado esquerdo, e do alto promontório alcantilado, à direita, que formavam a boca da barra.
(. . .)
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